Debate

Estratégias de comunicação são centrais na batalha de ideias, não apenas nas eleições

Afirmação foi consenso em debate entre comunicadores na capital baiana, Salvador, neste sábado (30)

Brasil de Fato | Salvador (BA)

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Da esq. para a direita: Chico Malfitani, Silvio Caccia, Tereza Cruvinel, Fernando Morais, Paulo Salvador, Kiko Nogueira e Altamiro Borges / Fernando Vivas/GOVBA

A importância da comunicação para conscientizar a sociedade e disputar ideias foi tema de debate em Salvador (BA) na manhã deste sábado (30). Reunidos na capital baiana, comunicadores defenderam o investimento em veículos contra-hegemônicos como essencial para reorganizar o campo progressista frente o avanço do conservadorismo no Brasil e no mundo.

A mesa “A comunicação como questão estratégica” faz parte do seminário “Os desafios da comunicação nas administrações públicas”, que acontece desde sexta-feira (29). O evento está em sua terceira edição e é organizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Um dos debatedores, o diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil, Silvio Caccia Bava, defendeu a urgência de plataformas críticas e que apresentem narrativas diferentes aquelas impostas pelos veículos hegemônicos. Segundo o jornalista, o acesso à pluralidade de vozes e perspectivas é fundamental para o fortalecimento da organização social.

“Se não tivermos um conjunto de órgãos de comunicação contra-hegemônicos alertando a população sobre a perda de direitos, não temos como subsidiar as mobilizações sociais e as lutas por direitos”, afirmou Bava.

Ele ainda lembrou a obra Manufacturing Consent (1994), de Noam Chomky e Edward Herman. De acordo com o estudo do livro, os meios de comunicação de massa têm atuado na defesa de interesses do Estado e da atividade privada, e não da população. Os veículos contra-hegemônicos seriam uma alternativa a esse cenário.

Já o publicitário Chico Malfitani trouxe para o debate a importância do marketing e da publicidade. Segundo ele, sob o governo de Jair Bolsonaro (sem partido), é preciso que a coerência do campo progressista brasileiro passe também pela unidade do campo da comunicação e disseminação de ideias.

“Vivemos em uma sociedade de comunicação de massa na qual as ideias neoliberais estão tomando conta da população. Temos que ter uma comunicação clara e unitária na esquerda”, afirmou Malfitani.

Ele lembra o êxito dos grupos da direita política ao levarem para as ruas, desde as mobilizações de 2013, a bandeira da “anticorrupção” como unidade narrativa; e afirma que a saída para a esquerda não é apenas contrapor essa narrativa, mas sim disseminar suas próprias propostas com um guarda-chuva de temas, como distribuição de renda, defesa do petróleo e geração de empregos.

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10 anos da Confecom

Presente no debate, a jornalista Tereza Cruvinel, primeira presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), lembrou os recém-completados dez anos da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). Em 2009, o evento possibilitou o debate entre sociedade civil, governo e empresariado sobre as mudanças necessárias no campo da comunicação brasileira.

Da Confecom, saíram centenas de propostas aprovadas como prioritárias, e o compromisso de um novo marco regulatório das comunicações, mais democrático e plural. No Brasil, a radiodifusão permanece regida por uma legislação da época da ditadura civil-militar (1964-1985), o Código Brasileiro de Telecomunicações de 1962.

Apesar de incorporadas pelas agendas de reivindicações de movimentos sociais e populares, as demandas formuladas na Confecom não foram implementadas pelo governo federal, mesmo no decorrer de governos progressistas, cenário ao qual Cruvinel é crítica.

“A mudança no panorama da radiodifusão brasileira é fundamental para discutirmos a colonização de mentes”, afirmou a jornalista. “Para que se tenha uma democracia de fato, precisamos de cidadãos bem informados e, quando temos um pequeno grupo controlando a difusão de informações para a sociedade, isso é impossível”, completou.

Cruvinel ainda destaca avanços pontuais, como a aprovação do Marco Regulatório da Internet e da Lei de Proteção de Dados (LGPDP), mas destaca que uma mudança nos oligopólios de mídia do país só será possível se associada à luta por mudança política, que tem seu ponto alto nas eleições presidenciais de 2022.

Consórcio Nordeste

Fernando Morais, escritor e fundador do blog Nocaute, saudou a iniciativa do Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável do Nordeste (Consórcio Nordeste) como uma esperança nesse cenário. “É uma força política”, caracterizou.

Além de uma parceria econômica e política entre nove estados da região Nordeste, o Consórcio também lançou recentemente o programa de rádio “Giro Nordeste”. Com a objetivo de aumentar a integração e a difusão de informação regional, o programa reúne notícias dos estados nordestinos e é retransmitido em diversas emissoras. Uma nova parceria de comunicação está sendo formulada, mas dessa vez na televisão.

Para Morais, o bloco é essencial para o combate à falta de informação na região. “Mais do que nunca, é hora de juntar forças”, defendeu o escritor.

Nesse sentido, o coordenador-geral da TVT (TV dos Trabalhadores) e da Rede Brasil Atual, Paulo Salvador, chamou atenção para a necessidade de pensar não somente o uso de mídias digitais, mas também o de rádio e televisão. A TVT, por exemplo, é a primeira emissora de televisão outorgada a um sindicato de trabalhadores  no país, no ano de 2010.

Salvador ainda destacou o financiamento coletivo das mídias alternativas, como muitos veículos têm feito atualmente. Segundo ele, essa é uma forma de fortalecer democraticamente o campo da comunicação no Brasil.

A mesa contou também com mediação de Altamiro Borges, presidente do Centro de Estudos Barão de Itararé, e Kiko Nogueira, diretor-executivo do Diário do Centro do Mundo (DCM). O debate completo está disponível aqui.

Edição: Aline Scátola