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Livro infantil questiona progresso que destrói a natureza e comunidades tradicionais 

tudo está sendo derrubado para plantar soja

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Em “O Boitatá e os boitatinhas”, Mouzar Benedito propõe uma reflexão sobre importância da biodiversidade do campo
Em “O Boitatá e os boitatinhas”, Mouzar Benedito propõe uma reflexão sobre importância da biodiversidade do campo - Divulgação | Editora Boitempo
tudo está sendo derrubado para plantar soja

Defender o meio ambiente e sua biodiversidade não tem sido uma tarefa fácil. 

O desmatamento de florestas para o avanço do agronegócio, assim como atividades de mineração em territórios tradicionais são exemplos de ações predatórias que destroem modos de vida em prol do lucro de grandes companhias e empresários. 

A boa notícia é que sempre há gente disposta a combater esses ataques contra a natureza e os povos que dela dependem. E não são apenas pessoas de carne e osso. Seres fantásticos também estão a postos para defender a nossa biodiversidade. 

É isso que nos mostra o escritor, geógrafo e contador de histórias Mouzar Benedito em seu mais recente livro infantil O Boitatá e os boitatinhas.

O título remete ao folclore brasileiro. O Boitatá, como diz a lenda, é o protetor dos campos. Ele castiga quem os destrói. Seu nome é originário do tupi-guarani, e significa cobra de fogo. 

Na história criada por Mouzar, o Boitatá, bem como moradores de uma comunidade campesina, chamada Campo Alegre, tem a difícil missão de enfrentar a especulação imobiliária. 

Filho de índios e contador de histórias, o velho Corisco conduz cinco crianças - Olga, Carlos, Rosa, Frederico e Ernesto - a uma jornada de descobertas e despertar de consciência sobre a importância do bioma onde vivem: o campo, que vem sendo constantemente ameaçado. 

“O Corisco chama as crianças para passear no campo e vai mostrando a quantidade de vida que tem ali. Muitos daqueles matinhos, por exemplo, são ervas medicinais. Eles encontram lá, inclusive, uma mulher que é curandeira e que usa as ervas para curar pessoas que não têm dinheiro para ir a uma farmácia. Então elas começam a entender isso e reagir para impedir que esse modo de vida seja destruído”, conta Benedito. 

Animais diversos e ervas medicinais são algumas das descobertas encontradas pelo caminho

O inimigo principal da comunidade é Roque Fela, um homem branco e rico que quer destruir aquela comunidade para construir um grande haras e criar seus cavalos de raça. E isso tem deixado o Boitatá furioso. 

O antagonista da história é inspirado, como relata Mouzar Benedito, na família Rockfeller, que é uma das dinastias financeiras e políticas mais poderosas da história contemporânea dos Estados Unidos. 

Para o especulador, a fauna, a flora e as pessoas que dependem daquela biodiversidade para viver, não têm valor algum. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. 

"Essas coisas estão acontecendo na nossa cara. Se você pega essa questão do campo e transplanta para a Amazônia, para o Cerrado, tudo está sendo derrubado para plantar soja. Isso está destruindo o nosso meio ambiente e modos de vida de populações locais para alimentar porco europeu”, diz o escritor em referência ao avanço do agronegócio nessas regiões. 

A principal arma dessa comunidade para enfrentar o inimigo é a coletividade. Na história, Mouzar reforça a ideia de um ditado popular bem conhecido: a união faz a força. 

“Individualmente, a gente não tem força para enfrentar certas coisas. O Boitatá é um ser da mitologia indígena, que é acostumado a tratar com índio. Agora, com essa invasão do capitalismo no campo, da tecnologia, o Boitatá precisa do apoio de gente também, de apoio coletivo.”

A obra leva o selo Boitatá, coleção da editora Boitempo voltada para o público infantil. 

As ilustrações que dão forma e colorido ao texto carregam os traços da artista plástica pernambucana Hallina Beltrão. As cores presentes nas imagens retratam a diversidade da fauna, da flora e principalmente do povo brasileiro, com faz questão de ressaltar o escritor.

“Minha preocupação, principalmente quando escrevo livro para crianças, é ter uma variedade de tipo de gente. Sempre que posso, coloco oriental, negro, índio, branco, loiro, e todos convivendo harmonicamente. Quero que seja uma coisa lúdica, mas que não fique só nisso. Espero que a criança aprenda um pouco sobre o que ela está lendo, sobre nossa cultura”, ressalta o escritor.

O livro O Boitatá e os boitatinhas, de Mouzar Benedito, pode ser adquirido por meio do site da editora Boitempo, que é o www.boitempoeditorial.com.br.

Edição: Camila Salmazio