Pandemia

Aflição, dúvidas, esperança, alívio: conheça histórias de quem se curou da covid-19

Em diferentes relatos, sobreviventes compartilham dores e aprendizados que resultam da experiência com a doença

Brasil de Fato | Brasília (DF) |

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Cercade 347 mil pessoas se recuperaram da covid-19 no mundo; no Brasil, são pelo menos 173 casos até quinta-feira (9), segundo pesquisa da UniversidadeJohns Hopkins (EUA) - Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Em um primeiro contato feito por meio de WhatsApp, a foto estampada no perfil de Elisa Guaraná de Castro antecipa o tom do discurso da antropóloga em relação à pandemia do coronavírus: “Fique em casa”, diz a imagem que ilustra a janela do aplicativo. Carioca e professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a antropóloga teve manifestações de sintomas da covid-19 e viveu, nas últimas semanas, um verdadeiro pesadelo familiar com a doença. A infecção atingiu gravemente o marido e, provavelmente, o filho, de 15 anos, que também apresentou sinais da enfermidade.  

Ao narrar a saga dos três com o coronavírus, Elisa destaca especialmente as consequências que vieram do estado de saúde do esposo, o consultor Olavo Carneiro Brandão, 44, “o mais saudável da família”. Único a precisar de internação hospitalar, ele ficou por oito dias sem receber visitas, o que impôs aos três uma situação angustiante.

“Foram dias muito apavorantes, e isso te faz pensar. Eu, por exemplo, tenho assistência médica, nós somos pessoas que têm uma vida muito tranquila em termos de condições de vida, mas é devastador porque você tem uma impotência que não é só a impotência em relação ao isolamento do Olavo, e sim a impotência em relação à sociedade”, acrescenta Elisa, ao mencionar a dificuldade de se garantir um isolamento social geral em meio ao negacionismo de determinados setores da sociedade.

Para a antropóloga, a contaminação da família e de outros pacientes poderia ter sido evitada se a determinação de quarentena no país tivesse iniciado antes. Na capital carioca, por exemplo, a política começou oficialmente no dia 24 de março.  

“A gente não sabe onde pegou, não sabe em contato com quem, mas foi na semana anterior. Se tivéssemos começado esse isolamento uma semana antes, acho que estaríamos num quadro diferente no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Minas, em Manaus, etc. O Olavo teve contato com pessoas que depois apresentaram também os sintomas, por exemplo, e nós estivemos em muitos lugares diferentes. Provavelmente, os nossos casos podem ter sido já de transmissão comunitária, por isso acho que o isolamento é fundamental”, entoa a professora.


"Os nossos casos podem ter sido já de transmissão comunitária, por isso acho que isolamento é fundamental", defende Elisa Castro, ao lado do marido, Olavo Brandão, também infectado / Arquivo pessoal

Após o pesadelo, o marido ingressou na lista dos cerca de 347 mil casos de pessoas recuperadas da doença já registrados no mundo, segundo monitoramento feito por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos.  Por conta das muitas interrogações que ainda pairam no mundo científico sobre o novo coronavírus, a Organização Mundial da Saúde (OMS) trata tais casos como “recuperação” e não exatamente “cura”. No Brasil, são pelo menos 173 pessoas nessa condição, considerando os casos notificados.


Brasil já tem mais de 20 mil casos de coronavírus, segundo dados oficiais; entre ocorrências notificadas, pelo menos 173 pessoas estão recuperadas / Agência Brasil

“Imprevisível”

O caminho para que Olavo Brandão, atleta de polo aquático, passasse a fazer parte da lista faz o consultor rememorar os seguidos dias de cansaço, febre alta, tosse e falta de ar. As memórias o conduzem a um alerta imediato: “Eu, com esse perfil, tive esse agravamento. E eu conheço gente que está no grupo de risco por conta da idade e teve a covid-19, mas não precisou de nada disso, conseguiu tratar em casa e se recuperar. Então, esse vírus, além da capacidade de contágio, é muito imprevisível pro organismo das pessoas, ainda que, estatisticamente, os dados apontem, obviamente, a história dos grupos de risco”.

O mesmo discurso ganha vida na voz do personal trainer brasiliense Caio Quemel, de apenas 24 anos, que também se contaminou e viveu dias de sufoco no hospital por conta de uma pneumonia causada pelo coronavírus. A infecção apareceu após uma viagem ao Rio de Janeiro e lhe rendeu seis dias de internação, sendo um deles na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Ex-praticante de atletismo e competidor premiado, o jovem conta que não imaginou que pudesse ter uma manifestação tão grave da doença.

Passados os dias de dificuldade, Caio conta que a experiência fortaleceu nele a crença na importância da quarentena. Após o tratamento e o segundo teste que indicou o resultado negativo para a doença, garantindo-lhe a recuperação, o jovem conta que veio a leveza.

“Fiquei bem aliviado porque só eu sei o que passei, o desespero de uma doença que a gente não conhece, mas depois me senti bem melhor. E foi uma tranquilidade também pra minha família e meus amigos, que ficaram super preocupados comigo nesse período da doença. Então, depois foi bem aliviante”, afirma, ao reforçar a defesa do isolamento.   

Uma visão política

Também defensor da quarentena, o portenho Juan, 40 anos, que pede para ser identificado apenas dessa forma, chama a atenção, por exemplo, para a necessidade de não se estigmatizarem os infectados. Historiador e professor universitário, ele foi o primeiro caso de transmissão comunitária registrado na Argentina.

Acometido pela doença logo no início da epidemia no país, Juan vivenciou um percurso de pelo menos 18 dias com manifestações da Covid-19. O intervalo de tempo incluiu internação hospitalar, dores, pneumonia, uma tosse persistente e também reflexões sobre os rumos do país e do mundo diante da pandemia, que hoje desafia cidadãos comuns, gestores públicos e diferentes setores da economia a repensarem seus horizontes.

Com um olhar politizado sobre a realidade que se apresenta à porta, Juan é do tipo que defende com firmeza as medidas de isolamento social. O professor rechaça a tese de que a economia precisaria ser preservada em detrimento do cuidado com a saúde coletiva. “O colapso econômico vai ocorrer igualmente, porque tem a ver com o colapso mundial, com um colapso geral, mas, nos países onde não há quarentena, as mortes se multiplicam ainda mais e também o colapso econômico. Não tem como escapar dele”, frisa.  

Para o professor, a experiência que fica diante do Covid-19 tem um caráter coletivo e social,  pois a pandemia estaria convidando o mundo a “superar os interesses individuais” impostos pelo sistema vigente. “Se isso tudo tem uma consequência, penso que é uma consequência política, [no sentido] de organizar uma ação política que ponha adiante uma organização da vida de forma mais consciente”, acredita o argentino.  


“Se isso tem uma consequência, penso que é política, de organizar uma vida mais consciente", acredita o argentino Juan (40), vítima de coronavírus / Arquivo pessoal

Transmutação, gratidão e fé

Se as vivências com a doença variam de acordo com as características e o contexto de cada sobrevivente, as lições que se tiram dela também oscilam entre compreensões objetivas e subjetivas, passando, por exemplo, por uma maior valorização dos profissionais de saúde.  

Para o recém-recuperado Ezemir Guimarães, 39, cirurgião-dentista de Fortaleza (CE), a atuação dessas equipes foi ponto de realce no processo de tratamento. Foram esses profissionais que Ezemir reverenciou ao discursar na última quarta-feira (8), quando se despedia do hospital onde passou 13 longos dias.  

“A equipe foi sensacional desde o início, desde o momento em que cheguei no hospital. No final, você acaba louvando o artilheiro que fez o gol, o médico que propôs o tratamento, e eu acho que ele é fantástico, genial, porque pensa o tratamento. Mas o bastidor, toda a equipe que está fazendo o negócio acontecer  que merece ser louvada também”, defende.

O discurso do cirurgião indica que a vivência com o coronavírus não só aprofundou sua sensibilidade para a valorização das equipes que prestam assistência aos pacientes como também representou uma experiência pessoal de fé e espiritualidade.  

“No meu entender, essas pessoas tramitem o real amor de Deus. Elas demonstram o amor ao próximo, a vida humana, então, ali elas se dedicam a um milagre. Isso tem muito valor, faz a gente voltar diferente de uma experiência de quase morte, vamos dizer assim, porque ali estamos travando uma luta pra nos mantermos vivos". 

Para alguns pacientes, a tranquilidade que surge depois que o pior se vai ajuda a transmutar a vida e suas impressões. É o que afirma a cantora cearense Roberta Fiúza, 35, que ainda sente algumas poucas manifestações da Covid-19, mas já consegue enxergar na experiência uma espécie de legado.  

“Eu passei por situações muito densas de relacionamento e acho que você descobre as pessoas numa situação dessa. Por exemplo, eu recebi carinho de onde menos pensei entre os amigos. São valores pessoais que ficam muito postos à prova”, conta.

A cantora acredita que a situação complexa criada pela pandemia, com impactos sociais e emocionais, veio trazer lições individuais e coletivas. Para a artista, ninguém sai o mesmo de um tratamento dessa natureza.   

“Acho que você repensa sua vida inteira. No meu caso, fiquei em hospital, um ambiente tenso, vendo pessoas jovens passando por uma situação complicada. Eu tinha muito medo do que poderia acontecer comigo. Tinha medo de perder a voz, por exemplo, mas agora estou aqui. Não posso dizer que sou a mesma pessoa depois de tudo. E também acho que não temos mais tido tempo pra gente, pra se recarregar. É o que os psicólogos já falam, os coaches falam, a física quântica tenta ensinar. Acho que agora é preciso olhar pra isso”, finaliza a cantora.


"Tinha medo de perder a voz, mas agora estou aqui", conta cantora cearense Roberta Fiúza, 35, ao relatar sua experiência com a Covid-19 / Arquivo pessoal

Edição: Larissa Gould