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Uma mão lava a outra: solidariedade ampara comunidades vulneráveis da Paraíba

Projetos Mulheres do Amanhã e Flores em Vida distribuem cesta básica e produtos de higiene nas periferias de João Pessoa

Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

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Coordenado por Yara Guimarães (de máscara), projeto Mulheres do Amanhã distribui alimentos na Comunidade Aratu, em João Pessoa - Reprodução Instagram

“A gente sempre está correndo atrás, mas não temos trabalho, não. Eu recebo o Bolsa Família e a gente está se virando”, relata Janaína Freitas do Nascimento, 42 anos, sobre a realidade da sua família durante a pandemia de covid-19. Ela mora com o marido e os quatro filhos na Comunidade Aratu, no bairro Mangabeira VIII, em João Pessoa, Paraíba. 

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Desempregada, Janaína conta com a renda do marido, um dos 38,6 milhões trabalhadores autônomos no Brasil, segundo dados de setembro de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Devido à necessária quarentena, recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), eles têm encontrado ainda mais dificuldades de buscar seu sustento. Se, por um lado, ambos integram os dados de desalento do país, por outro, estão nas "estatísticas" da solidariedade, que tem se multiplicado por todos os cantos do Brasil.

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No caso de Janaína e de mais 4 mil famílias da Comunidade Aratu — que lutam por moradia desde a ocupação do local, em 2009 —, o apoio veio por meio do Projeto Mulheres do Amanhã, coordenado e criado por Yara Guimarães, moradora e líder comunitária da região.

A ação nasceu em outubro do ano passado, com o propósito de fomentar a formação profissional das mulheres da comunidade, promovendo independência, autonomia e empoderamento. Mas, a partir da epidemia de covid-19, o projeto — que atendia cerca de 30 mulheres com cursos, palestras e eventos — mudou o foco para suprir necessidades básicas das famílias, entre elas comida e higiene.

Há mais de 20 dias, o Mulheres do Amanhã em parceria com o grupo Flores em Vida — que desenvolve ações nas comunidades de diversas regiões de João Pessoa — tem distribuído cestas básicas, sabão líquido e tudo que recebem de doação para as famílias mais vulneráveis da capital paraibana.

“Todos os dias, nós saímos para as ruas atendendo comunidades, venezuelanos, moradores de rua. Tem o grupo Flores em Vida, onde, através do Instagram e de grupos do WhatsApp, elas pedem doações de alimentos pra formar cesta básica, de roupas, pães. Enfim, tudo o que vem para as doações a gente forma uma equipe de dez pessoas usando máscara, luva e lavando as mãos e sai distribuindo”, explica Guimarães.

Ela também produz o sabão líquido na própria garagem, doa e orienta as famílias a lavar as mãos como forma de prevenção à covid-19. A produção é feita a partir do sabão líquido concentrado, diluído em água e distribuído em garrafas pet. “Para dois litros, eu uso 800 ml de sabão concentrado e o restante de água. Fica bem concentrado o sabão e fica bom”, dá a receita a líder comunitária.

De mãos dadas

A parceria entre os dois projetos nasceu após um evento em conjunto no 8 de março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, e desde então tem refletido ações para a comunidade, que apresenta cada vez mais necessidades. 

“O que a gente escuta é isso, ‘eu tenho fome, não tenho comida para dar para os meus filhos’. A gente vai deixar cestas básicas nas comunidades, daí diz que não tem gás. Estamos sendo recebidos com muita alegria nas comunidades e em todos os lugares em que a gente vai fazer as ações. Mas são momentos de doer o coração da gente”, relata a líder comunitária sobre a receptividade das pessoas.

Guimarães também ressalta que não precisa ter dinheiro para ajudar ou uma cesta básica completa, mas que de pouco em pouco é possível colaborar para que todos atravessem essa pandemia com saúde e sem fome.

“A gente escuta: 'Ahhh, se eu pudesse ajudar...'. Qualquer pessoa pode ajudar. Se você tirar da sua feira um quilo de feijão, você já está ajudando, não precisa ajudar com R$ 100, R$ 50, com 10 quilos de arroz, com uma cesta básica completa, não. Qualquer coisa que a pessoa der ajuda”, solicita ela.

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A solidariedade também pode salvar vidas, como a de Janaína e sua família. “Eu tenho quatro filhos e estamos aqui recebendo assim: alguém chega e fala ‘tem quentinha ali’, a gente corre para pegar; 'está dando peixe em algum canto', 'está dando sopa'; a gente sempre está correndo atrás. É muita coisa que eles fazem e tudo o que eles trazem para a comunidade é para abençoar. A gente e o povo agradece!”, expressa Janaína.

Para doar, entre em contato com os projetos por meio de seus perfis no Instagram: Mulheres do Amanhã e Flores em Vida.

Edição: Camila Maciel