MOSAICO CULTURAL

David Lover e o legado ancestral do Haiti: "A gente é uma mistura de culturas"

Ao Brasil de Fato, rapper haitiano fala sobre a herança africana e a mensagem por trás da canção "O sonho brasileiro"

Ouça o áudio:

David Lover é hoje umas das principais vozes da cultura haitiana no Brasil - David Lover/Divulgação
O Haiti nunca vai sair de você

A cultura do Haiti é vasta e atravessa fronteiras. Primeiro país da América Latina a declarar independência, o Haiti é considerado também a primeira república negra do mundo.

As influências africanas ainda permanecem vivas e são o que guiam hoje a dança, os ritmos e o folclore no país caribenho, que tem no vodou, uma das principais manifestações. 

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Na música, quem dá o tom é a Kompa, gênero conduzido pela guitarra, sintetizadores e os solos de saxofone. As canções são escritas em crioulo, a língua materna dos haitianos. Nas festividades, se engana quem acha que por lá não há carnaval. A folia mais conhecida é em Les Cayes, no sul do país. 

"A gente é uma mistura de culturas. Um haitiano sabe muita coisa de música, porque a gente escuta música de qualquer país, de qualquer região, e a gente geralmente gosta e mistura para fazer o nosso som", explica o rapper David Lover, um dos expoentes da cultura haitiana no Brasil.

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O jovem haitiano, assim como muitos conterrâneos, veio ao Brasil após o terremoto de 2010 e a instabilidade política gerada no Haiti a partir do desastre. Hoje, ele tem a vida trilhada pelas rimas. É por meio delas que ele busca retratar sua vinda para cá em busca de um sonho: viver da música.

Em seu último lançamento, a canção “O sonho brasileiro”, estão os dilemas da vida na periferia e a descoberta do hip hop. A mensagem, ele garante que serve para todos.

"É sim, sobre favela, porque brasileiros também podem ter um sonho brasileiro. Não é só estrangeiro que pode ter, porque tem favelado, tem gente que está batalhando muito para conseguir, então eles também tem um sonho brasileiro. O sonho brasileiro é conseguir viver do que você sonha, do que você trabalha. É tipo isso, se você é estrangeiro ou brasileiro não importa" ressalta. 

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Desde 2016, ele vive em Joinville, no sul do país. Motivado pelo amor à música, ele conta que em menos de seis meses já havia aprendido o português. O músico garante, porém que apesar da distância, resgatar a herança dos ritmos de seu país é algo que sempre será uma bandeira.

"A gente tem esse amor pela música, é uma coisa que você nunca vai poder tirar. O Haiti, nunca vai sair de você. A gente pode ficar fora por muito tempo, mas tem coisa que você sempre vai ter, é como uma escola. O que tu aprendeu tu nunca vai esquecer. Tu pode não botar em prática, mas sempre vai ter presente. Está dentro de você", afirma.

Edição: Daniel Lamir