É bom ou é ruim?

Você sabe decifrar os rótulos dos produtos do supermercado?

Rotulagem frontal será implementada em outubro deste ano em produtos com alto teor de sal, gordura e açúcar

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Desrotulando é um aplicativo que auxilia na tradução dos produtos dos supermercados, classificando com notas de 0 a 100 se ele é saudável ou não. - Tânia Rêgo/Agência Brasil
No rótulo das embalagens publicidade tem mais destaque do que informações nutricionais

Fazer escolhas conscientes e saudáveis na hora das compras no supermercado dá trabalho. Isso porque as informações nutricionais nos rótulos dos produtos ultraprocessados não são tão simples de decifrar. 

Uma pesquisa do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) identificou algumas dificuldades ao se ler os rótulos: entender números da tabela nutricional, termos técnicos, letra pequena dos ingredientes e sem contraste de cor, além de poluição visual. 

Segundo a nutricionista Laís Amaral, do Idec, a informação mais importante está na parte de trás da embalagem, porém não é muito visível, pois o que ganha destaque na parte da frente é a publicidade do produto. Para ela, esse é um dos maiores desafios atualmente.

"A informação nutricional não é fácil de visualizar, nem de compreender e isso tudo dificulta. Essa questão já tem sido muito estudada, de que o consumidor tem as suas dificuldades e, portanto, não usa aquela informação do rótulo maneira como deveria”.

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Em frente à prateleira, geralmente olhamos primeiro a data de validade, preço e marca. Mas em relação aos rótulos, por onde começar a ler e entender as informações nutricionais? 

Antes de tudo, Laís Amaral afirma que o mais importante é a lista de ingredientes na parte de trás da embalagem.

"Essa lista está em ordem decrescente, os primeiros ingredientes são os que estão em maior quantidade. Então é importante se atentar às gorduras, ao sal e ao açúcar. Quando aparecem nas primeiras posições o ideal é não consumir os produtos que têm esses ingredientes nas [primeiras] colocações”.

Além disso, observando essa lista de ingredientes, pode-se também identificar quais produtos são ultraprocessados, ou seja, os alimentos que deveriam ser evitados de acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira. É possível também identificar a presença de aditivos que entram no final da lista, independentemente da quantidade. 

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Nos últimos seis anos, a América Latina ficou na vanguarda da inclusão da rotulagem frontal. Países como Chile, Uruguai, México e Argentina colocaram um selo de advertência na parte da frente da embalagem de alimentos processados e ultraprocessados para indicar quando há excesso dos nutrientes críticos: açúcar, sódio, gorduras totais e saturadas, além da presença de adoçante e gordura trans. 

No Brasil, a Anvisa aprovou, em 2020, a rotulagem frontal e vai ser implementada a partir de outubro deste ano. A nutricionista do Idec explica que essa é uma medida importante para esclarecer e traduzir as informações nutricionais de maneira mais simples. 

“O rótulo frontal traz essa informação muito mais direta: o consumidor bate o olho no rótulo das embalagens e já visualiza a informação de ingredientes críticos. E, a partir dessa informação, vai saber que aquele produto tem um um conteúdo excessivo de açúcar adicionado, sódio, ou gordura saturada; e poderá fazer uma escolha mais consciente e saudável." esclarece a representante do Idec.


Selo de advertência no formato de lupa na parte da frente da embalagem de alimentos processados e ultraprocessados irão indicar quando há excesso dos nutrientes críticos / Anvisa Divulgação / Anvisa Divulgação

O Idec participou de reuniões técnicas para regulamentação da rotulagem frontal e a sugestão não era esse modelo de lupa, mas o modelo de triângulo já adotado e comprovado em outros países a eficácia.

Apesar disso, a medida é um avanço, pois haverá mudanças nas informações que a indústria poderá colocar em destaque. 

“Um salgadinho, por exemplo, ele é alto em gordura saturadas, não vai poder fazer nenhum tipo de alegação a nenhum tipo de gordura. Então ele não vai poder falar que não tem colesterol, gordura trans ou que ele é diminuído em gorduras totais ou insaturadas obviamente”, comenta Amaral. 

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Uma iniciativa que surgiu com intuito de ajudar os consumidores a fazer escolhas mais conscientes é o aplicativo Desrotulando, como conta a nutricionista Carolina Grehs, nutricionista e cofundadora do projeto.

“O aplicativo traduz as informações mais importantes da parte nutricional e dá uma nota de zero a cem para o produto. Quanto maior a nota, melhor a qualidade do produto. São mais de dois milhões de downloads". 

Para usar o aplicativo, criado por nutricionistas, basta apontar a câmera do smartphone para o código na embalagem para ter acesso instantâneo à tabela nutricional e análise dos ingredientes. A cofundadora diz que é difícil para o consumidor entender alguns detalhes da tabela e dos ingredientes nos rótulos.

“Um pão, por exemplo, pode ser integral na embalagem, mas ter mais farinha de trigo refinada do que integral na sua composição. Outro exemplo, é o produto dizer que contém zero gordura trans na tabela nutricional, que se refere à porção do alimento, mas se considerar a totalidade daquele alimento pode ser que ela exista. Então somente entendendo essas nuances da legislação é que se consegue fazer uma escolha realmente mais consciente”, diz a nutricionista do projeto. 

Os três produtos mais consultados no aplicativo 'Desrotulando' é a Coca Cola, o Nescau e o pão de fôrma Nutrella. No site raio-x dos rótulos do Idec você também pode encontrar características específicas dos rótulos de alguns produtos.  

 

 

 

Edição: Douglas Matos