ENTREVISTA

Portal reúne mais de 200 produções audiovisuais feitas por indígenas do Nordeste

O cineasta indígena Marcelo Tingui fala dos objetivos da iniciativa intitulada "Narrativas Indígenas do Nordeste"

Brasil de Fato | Recife (PE) |
O site foi fruto da parceria entre a Fiocruz e indígenas das etnias Xucuru de Ororubá, de Pernambuco, e Tinguí-Botó, de Alagoas (foto) - Tui Anandi/ISA

Abril é considerado o mês de luta e resistência dos povos indígenas, marcado também pela 18ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). E, um dos marcos dessa grande mobilização, é a produção audiovisual produzida pelos povos originários. Uma plataforma que marca este tipo de produção é a Narrativas Indígenas do Nordeste, que reúne e divulga produções e experiências das etnias da região. 

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O site foi fruto da parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e indígenas das etnias Xucuru de Ororubá, de Pernambuco, e Tinguí-Botó, de Alagoas, que já tem cerca de 200 filmes catalogados. O Brasil de Fato Pernambuco conversou com o cineasta indígena alagoano e integrante da coordenação da plataforma, Marcelo Tingui no programa Trilhas do Nordeste. Confira os principais pontos da entrevista: 

Brasil de Fato Pernambuco: Marcelo, conta para nós como que surge a plataforma e o que vocês pretendem com ela.

Marcelo Tingui: A proposta da plataforma veio através de um projeto sonhado por nós de construirmos uma rede audiovisual indígena, mostrando as lutas sociais, os povos indígenas do Nordeste. É um projeto colaborativo na construção dessa rede audiovisual que dá visibilidade às causas indígenas, às nossas lutas sociais, nossa forma de canto, dança, nossa religiosidade. 

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A plataforma nada mais é que trabalhos de outros indígenas cineastas, de outros indígenas que fazem parte de coletivos, que fundaram coletivos audiovisuais e nós pegamos esses trabalhos e colocamos nessa plataforma para dar visibilidade às causas e às lutas sociais dos povos indígenas do Nordeste.

Qual a importância de fazer o recorte dos povos indígenas do Nordeste e dessas narrativas audiovisuais?

São povos originários que eu chamo de “os resistentes”, porque da maneira que a gente fala de natureza e biodiversidade vem à nossa mente o Mato Grosso e a Amazônia. Então, quando falamos de povos indígenas hoje no Brasil, a gente faz uma menção à Amazônia e ao Mato Grosso.

Daí a importância de darmos visibilidade às lutas sociais e às narrativas desses indígenas do Nordeste, da costa e do Atlântico, todos esses indígenas que estão aqui. A plataforma traz consigo essa análise e toda essas narrativas dos povos do Nordeste mostrando que estivemos e estamos aqui com a nossa cultura, força espiritual e cosmológica e nossos territórios.

O audiovisual tem se mostrado uma ferramenta de denúncia e diálogo com a sociedade. Quais são os principais desafios no uso dessa ferramenta e o que é que vocês têm de perspectiva com ela para os próximos passos?

Eu falo por experiência própria, porque eu estou no território aqui, mas eu saio para eventos, eu vou para a ATL, conheço vários povos, coletivos e artistas indígenas. Nós, os povos indígenas, entendemos que o audiovisual é uma ferramenta poderosa para poder mostrar a denúncia, mas também a arte de maneira geral. 

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Não só podemos denunciar as negligências com os direitos humanos, com a natureza e os territórios e com o ser humano indígena; mas também é uma forma de fortalecer a nossa cultura no momento em que traçamos documentários etnográficos, onde a gente se pinta, dança e faz a colheita. 

No momento em que a gente faz as mostras, os cinemas nas aldeias, curtas nas aldeias, que são projetos advindos do audiovisual indígena. A gente fortalece a nossa cultura e mostra para si que é importante a gente se pintar, a gente cantar, a gente dançar e respeitar o território e o velho ancião que está na comunidade. 

E assim, os desafios são porque hoje em dia estamos em uma era de “fake news”, uma era de desinformação muito grande. Então assim, o espaço para realidade é um espaço muito pequeno, então é um desafio muito grande você estar nesse mundo audiovisual.

Fonte: BdF Pernambuco

Edição: Vanessa Gonzaga