Desprezo

Bolsonaro e presidente da Funai atacam credibilidade de indigenista desaparecido na Amazônia 

Informações falsas e acusação infundada de imprudência foram rebatidas por entidades indígenas e indigenistas 

Brasil de Fato | Lábrea (AM) |

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Na Cúpula das Américas em Los Angeles, Bolsonaro fala à imprensa e carro com dizeres contra ele aparece de fundo - Reprodução

Considerado um dos mais qualificados indigenistas do país, Bruno Pereira teve a competência questionada por dois dos principais inimigos dos povos originários brasileiros: Jair Bolsonaro (PL) e o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marcelo Xavier, desde domingo (5), quando desapareceu junto com o jornalista Dom Phillips no Vale do Javari (AM), onde atua há 12 anos em parceria com os indígenas.

Na terça-feira (7) em entrevista ao SBT,  Bolsonaro disse que torce por um desfecho positivo, mas chamou de "aventura" a presença da dupla na região. "Realmente, duas pessoas apenas num barco, numa região daquela, completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendada que se faça. Tudo pode acontecer. Pode ser acidente, pode ser que tenham sido executados", afirmou.

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"As Forças Armadas estão trabalhando [nas buscas] com muito afinco", completou em tom protocolar. 

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Pior: o presidente da Funai divulgou uma informação falsa ao dizer que a dupla não pediu autorização da Funai para entrar na região.

"A Funai não emitiu nenhuma permissão para ingresso. É importante que as pessoas entendam que, quando se vai entrar numa área dessas, existe todo um procedimento", disse Xavier.

"É muito complicado quando duas pessoas apenas decidem entrar na terra indígena sem nenhuma comunicação aos órgãos de segurança e à Funai", continuou. 

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Mas Pereira não precisava de autorização para estar onde estava. "A expedição realizada transcorreu nas imediações, mas não no interior da Terra Indígena Vale do Javari", esclareceu em nota a Indigenistas Associados (INA), que congrega servidores da Funai.

E, mesmo se estivesse dentro da área protegida, ele estaria devidamente autorizado. A permissão foi assinada no mês passado pela gestora da unidade descentralizada da Funai no Vale do Javari, segundo comunicou em nota a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

"O presidente da Funai insinua, portanto, um descuido inexistente por parte da dupla de desaparecidos. Espera-se que corrija a informação que transmitiu - com deslealdade, tendo em vista tratar-se de pessoas em situação de vítima, sem condições de responder", postou a associação dos trabalhadores da Funai. 

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O repórter Dom Philips (esquerda) e o indigenista Bruno Pereira (direita) / Divulgação/Funai

Também em defesa de Pereira, a Univaja disse que o considera "a maior autoridade no país" na atuação com povos isolados da região.

Elogiou também seu "notório saber" e ressaltou a "grande confiança" conquistada por ele entre os indígenas.

"Bruno compreende pelo menos 4 línguas dos povos do Javari e tem larga experiência no diálogo intercultural com essas populações", escreveu o procurador jurídico da Univaja, Eliesio da Silva Vargas Marubo. 

Fundado pelo indigenista, o Observatório dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI) escreveu que Pereira é vítima de "tentativas covardes de difamação".

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Edição: Rodrigo Durão Coelho