GUERRA OU PAZ?

China não vai agredir Taiwan, dizem estudiosos da geopolítica da região

Mais do que invadir ou impor sanções, faria sentido para Pequim incorporar a ilha por meio de atração econômica

Botucatu (SP) |
Navio de guerra chinês corta a rota de um destróier estadunidense, que teria precisado reduzir a velocidade para evitar uma colisão, no estreito de Taiwan - Andre T. Richard / US NAVY / AFP - 3/6/2023

As provocações militares perto de Taiwan prosseguem e as trocas de farpas entre China e Estados Unidos têm subido de tom. Mas isso não significa que haja risco de qualquer tipo de confronto entre as superpotências, nem de uma invasão chinesa ao território de Taiwan. Afinal de contas, uma postura assim não ornaria com um país que cumpre hoje um papel importante na mediação de conflitos internacionais.

"No caso do Oriente Médio, é nítido que os EUA estão perdendo seu papel de mediador e a China está se colocando no lugar", afirma Bruno Hendler, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que fez doutorado sanduíche na Universidade Renmin, em Pequim. Ele cita como exemplo a participação chinesa em acordos de cooperação de segurança no Golfo Pérsico, envolvendo países da Península Arábica e o Irã, algo impensável até algum tempo atrás. "Então, se a China tem essa aspiração de se colocar como potência mediadora e responsável, ela não vai armar uma operação de invasão a Taiwan. Isso para mim está bem claro".

"Concordo que orquestrar uma invasão de Taiwan seria, além de altamente custoso para Pequim, também um problema para a sua imagem no cenário global", avalia a cientista política Luana Margarete Geiger, coordenadora de pesquisa do Observa China. Segundo ela, é importante considerar que a China oficialmente apoia resoluções pacíficas para a questão de Taiwan.

A guerra na Ucrânia, diz Geiger, tornou o cenário de conflito armado mais tangível, elevando os ânimos do espectro político. E pode até existir a possibilidade de uso da força "caso alguma das linhas vermelhas envolvendo a declaração de independência de Taiwan seja cruzada". No entanto, ela acredita que "a conjuntura global já inflamada torna menos provável que as partes considerem adicionar mais um conflito que, neste caso, teria proporções globais e afetaria de forma intensa a economia global". Inclusive porque o bloqueio econômico imposto à Rússia serve de lição para Pequim sobre o custo do envolvimento direto em uma guerra contra as potências ocidentais desenvolvidas.

Por falar em impacto econômico, no último sábado, o secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, afirmou que uma guerra seria "devastadora" e afetaria a economia global "de maneiras que sequer podemos imaginar", ao enfatizar o apoio de seu país à independência de Taiwan.

Bruno Hendler acha necessário mudar o foco ao analisar essa questão. "Tem gente que diz 'A Rússia invadiu a Ucrânia, então isso é um precedente para a China invadir Taiwan'. Mas a analogia que temos que fazer é com a relação entre EUA e Cuba". Para ele, Washington usou com Havana duas armas do imperialismo clássico: força militar e estrangulamento econômico. De certa forma, a Rússia também faz isso com os vizinhos. Mas no caso chinês, por mais que haja "esse teatro de operações militares", a longo prazo Taiwan vai ser incorporada à China "via atração econômica", ele acredita. Taiwan se tornaria um país de sistema híbrido, com certo grau de autonomia, mas economicamente incorporado ao território chinês. "A abordagem da China, em vez de estrangulamento econômico, é de atração".

O professor da UFSM acha que essa diretriz seria posta em prática por meio de cadeias globais de valor, drenagem de cérebros e tecnologia dos semicondutores, entre outras estratégias. "Já se veem ensaios assim. Por exemplo, a isenção de visto para circulação de pessoas, a autorização para profissionais liberais trabalharem dos dois lados do Estreito de Taiwan, uma espécie de área de livre comércio em determinados setores".

Taiwan representa, na avaliação de Luana Geiger, uma das questões de maior complexidade de resolução para as relações internacionais contemporâneas, pois funciona como um dos principais termômetros para o estado das relações entre Estados Unidos e China. "A população está acostumada às regulares crises no Estreito de Taiwan. É possível observar, contudo, que desde a visita de Nancy Pelosi — então presidente da Câmara dos Deputados dos EUA — a Taipei, em agosto de 2022, quando as tensões alcançaram níveis sem precedentes, uma espécie de novo normal foi inaugurado, elevando a frequência e o nível das tensões".

Pior cenário possível

Na semana passada, o presidente da China, Xi Jinping, alertou sua Comissão de Segurança Nacional para que esteja pronta para "o pior cenário possível". Segundo a cientista política, a fala do líder chinês demonstra que o país está ciente de que a competição estratégica com os Estados Unidos irá marcar o século 21 e, especialmente, que o país prioriza a sua preparação para o cenário de crescente antagonismo. "A China busca demonstrar visão de longo prazo e posição de força".

Ucrânia

Tal visão mantém a China afastada da guerra na Ucrânia, pelo menos de modo individual. "É possível que a diplomacia chinesa proponha ou endosse propostas de pacificação que representem um mundo multipolar, ou seja, que distribua a função de mediação com demais países. Nesse sentido, acredito que o espaço para a China atuar como mediadora seja maior caso se apresente como uma proposta coletiva, que reflita uma ordem internacional com características multipolares e inclua mais atores".

::Planos de paz do Sul Global são relevantes, mas só serão levados a sério se a China aderir::

Neutralidade

Caso os especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato estejam errados e haja um conflito entre China e EUA, a maioria dos europeus (62%) prefere que seus países fiquem neutros, ante 23% que prefeririam apoiar os EUA. É o que mostra uma pesquisa do Conselho Europeu de Relações Exteriores, que mostra que muitos cidadãos europeus (43%) veem a China como um parceiro necessário. O estudo entrevistou 16.168 pessoas em 11 países (Áustria, Bulgária, Dinamarca, França, Alemanha, Hungria, Itália, Holanda, Polônia, Espanha e Suécia) em abril.

Edição: Thales Schmidt