A campanha “Eu não ando só!” nasceu em meio às consequências das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, quando 90% dos municípios foram afetados e mais de 2,3 milhões de pessoas sentiram os impactos diretos da tragédia climática, segundo dados da Defesa Civil do estado.
A iniciativa integra o projeto “Atenção e Fortalecimento de Mulheres para o Enfrentamento às Violências”, coordenado pela Associação Estadual Carlos Dorneles (Asecad), com recursos viabilizados por emenda parlamentar da deputada federal Daiana Santos (PCdoB-RS) por meio do Ministério das Mulheres, em parceria com o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD/RS).
A proposta partiu da escuta de mulheres em territórios atingidos pelas cheias, que relataram medo, isolamento e dificuldades de acesso a serviços de proteção. Para Renata Teixeira Jardim, coordenadora do projeto e assessora da Asecad, “‘Eu não ando só!’ é um chamado coletivo que fortalece vínculos de solidariedade e mostra que nenhuma mulher precisa enfrentar a violência sozinha”.

Violências ampliadas em meio à crise climática
Relatos de assédio e violência nos abrigos emergenciais marcaram os primeiros dias da calamidade no estado, segundo organizações feministas. A situação confirmou alertas já presentes em estudos internacionais sobre a relação entre crises ambientais e desigualdades de gênero.
Um relatório da ONU destaca que “as mulheres têm 14 vezes mais chances de morrer em uma catástrofe climática do que os homens” (Alsalem, 2022). Outro documento, “Feminist Climate Justice: A Framework for Action”, da ONU Mulheres, mostra como, durante a seca de 2022 no nordeste da África, os casamentos infantis cresceram quase quatro vezes na Etiópia, enquanto na Somália os estupros contra parceiras aumentaram em 20% (Turquet et al., 2023).
No Brasil, os impactos também se refletiram na economia. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou que 334,6 mil postos de trabalho foram diretamente atingidos nos municípios em situação de calamidade ou emergência, o que equivale a 13,7% das vagas registradas nessas localidades (Pereira et al., 2024). Para as mulheres, essa perda de renda intensifica a vulnerabilidade social e aumenta o risco de violências.
Segundo Teixeira Jardim, “a campanha foi construída a partir desse diagnóstico: a violência de gênero se agrava em contextos de crise climática, somando-se às desigualdades pré-existentes. Daí a urgência em articular prevenção, empoderamento legal e redes de apoio comunitárias”.
Justiça climática e de gênero
A conexão entre os dois conceitos é central para o projeto. Renata explica: “A crise climática não é neutra, seus impactos recaem de forma desproporcional sobre mulheres e meninas, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade social, econômica e racial”.
No caso do Rio Grande do Sul, mulheres negras, indígenas, periféricas, mães solo, LGBTQIA+ e com deficiência foram as mais atingidas, seja pela falta de estruturas adequadas de acolhimento, pela insegurança nos abrigos, pela perda de renda ou pela sobrecarga de cuidado.
O documento da ONU Mulheres reforça essa relação ao afirmar que não há justiça climática sem justiça de gênero, já que as crises ambientais acentuam desigualdades e riscos de violência. Para Renata, “a reconstrução dos territórios só será efetiva se garantir também a proteção, autonomia e igualdade das mulheres”.
Formação de agentes legais comunitárias
Uma das frentes centrais da campanha é a formação de agentes legais comunitárias, voltada para mulheres lideranças locais. O curso de empoderamento legal reúne 25 participantes de Porto Alegre, Eldorado do Sul e da região Metropolitana, em seis encontros presenciais.
Teixeira Jardim explica que “a proposta é formar mulheres que conheçam seus direitos, compreendam como o Estado funciona e sejam capazes de atuar de forma crítica e organizada em seus territórios”.
Além do curso, oficinas educativas e rodas de conversa fazem parte do processo, ampliando o alcance das informações e construindo vínculos de solidariedade. A campanha se apoia em metodologias participativas, como mapas comunitários e dinâmicas coletivas, que estimulam a identificação de recursos locais e a criação de respostas em rede.
Escuta ativa e demandas dos territórios
Outro eixo estruturante é a escuta ativa, realizada diretamente nos territórios onde o MTD atua, especialmente nas cozinhas solidárias. Um formulário de levantamento de demandas orienta as rodas de conversa e visitas técnicas feitas pela Asecad.
“Nas rodas de conversa, criamos um pacto de sigilo entre as participantes, o que permite que relatos de violência – tanto atuais quanto vividos durante as enchentes – sejam compartilhados em um ambiente seguro”, relata Teixeira Jardim.
As demandas levantadas são encaminhadas tanto para a rede institucional (como Ministério Público, delegacias, centros de referência, saúde e assistência social) quanto para iniciativas comunitárias, como projetos de geração de renda. Dessa forma, o processo cumpre duplo papel: proteger mulheres em situação de violência e gerar insumos para incidência em políticas públicas.

Comunicação e identidade visual
A campanha também se manifesta no campo da comunicação popular. Sua identidade visual traz mãos unidas, representando solidariedade; um círculo amarelo, simbolizando esperança e rodas de diálogo; e colagens e folhagens, remetendo ao fazer artesanal e à criatividade coletiva.
Esse processo teve participação de mulheres dos territórios, cujas percepções ajudaram a moldar os elementos estéticos. Para Teixeira Jardim, “a estética da campanha nasce de um processo coletivo, que traduz a experiência concreta dos territórios em símbolos de cuidado, solidariedade e enfrentamento à violência”.
Além das formações, a mensagem circula nas redes sociais e em espaços comunitários, com cartazes, folders e materiais impressos. A campanha também estará presente em atividades coletivas, como eventos da Rede Lilás, reforçando a articulação com a rede de enfrentamento à violência.
Expansão para outros municípios
Inicialmente implementada em Porto Alegre e na região Metropolitana, a campanha prevê a realização de ações em outros municípios do estado onde o MTD mantém atuação. A expansão dependerá da construção de novas parcerias institucionais e comunitárias.
Teixeira Jardim conclui: “a campanha foi pensada para ser levada a novos territórios conforme parcerias e apoios sejam construídos. Cada mulher fortalecida torna-se elo de uma rede que salva vidas”.