Cinco jovens de favelas e periferias da região metropolitana do Rio de Janeiro participaram do evento denominado Pré-COP, em Brasília, na última semana. O evento antecede a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada entre os dias 10 e 21 de novembro, em Belém (PA).
Como parte do evento, o grupo formado por Isabelly, Nicole, Maya, Luciane e Francisca se uniu a outras meninas e mulheres de todos os biomas brasileiros para debater como gênero e território se cruzam na crise climática.
As jovens apresentaram um manifesto por Educação Ambiental Popular, Interseccional e Antirracista, e uma pesquisa sobre como a crise climática atravessa a vida cotidiana nas periferias. A partir de entrevistas nos territórios, a publicação destaca os desafios em transporte, saneamento e alimentação, além de impactos na saúde e na ansiedade climática das comunidades. Leia completo neste link.
Elas fazem parte do projeto Manas – Jovens Lideranças por Justiça Climática, do Instituto Decodifica, que fortalece a atuação de mulheres negras e periféricas na agenda climática. A presença delas em Brasília foi resultado de um processo de formação e incidência política que busca colocar as vozes das favelas e periferias no centro das decisões sobre o clima.
Para Mariana de Paula, diretora do Instituto Decodifica, a nova geração se posiciona no debate climático a partir da experiência de quem vive as consequências. “Num mundo em que 80% das pessoas deslocadas por desastres climáticos são mulheres, falar de justiça climática é falar de justiça de gênero e raça. Ao reunir vozes de jovens mulheres indígenas, quilombolas, periféricas e ribeirinhas de todos os biomas do Brasil, reafirmamos que não existe transição justa sem escuta, reparação e participação real dos territórios que sustentam a vida”, afirma.
Jovens protagonistas
Vindas de diferentes favelas e periferias, as jovens fazem parte de coletivos e movimentos que atuam no Rio de Janeiro com causas sociais e ambientais. É o caso da gonçalense Isabelly Damasceno, de 24 anos. Moradora de Quintino, bairro da zona norte, a pós-graduanda em sociologia faz parte da Movimentos, organização situada na favela do Parque União, na Maré.
Da Vila Cruzeiro, na Penha, a estudante de História Luciane Baptista, de 24 anos, participa de iniciativas relacionadas a meio ambiente, saúde e justiça social. Ao Brasil de Fato, ela ressalta que a insegurança hídrica é uma forma de racismo ambiental nas favelas.
“A Justiça ambiental é o que mais me move hoje. Entender e enfrentar como o racismo ambiental se manifesta nas favelas, seja na falta de saneamento, na insegurança hídrica ou nos desastres climáticos, é fundamental para garantir uma justiça climática que inclua de verdade os nossos territórios”, afirma.
:: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? ::
A bióloga Francisca Cardoso do Prado Maciel, de 25 anos, moradora do bairro Colubandê, em São Gonçalo, também pontua que o esgotamento e o acesso à água limpa são problemas graves do seu município.
“São Gonçalo tem uma porcentagem de tratamento de esgoto e acesso à água tratada ínfimos quando comparado com o número populacional, já que é a 2ª maior cidade do estado do Rio de Janeiro. A maior parte do esgoto é, inclusive, jogada na Baía de Guanabara, o que conecta nossas águas de forma muito sensível, até por conta dos impactos da crise climática que já são uma realidade, seja com as ondas de calor ou pelas enchentes”, afirma a militante do Movimento Baía Viva.
Também participaram da iniciativa a educadora perinatal Mayara Antunes Maciel, de 24 anos, da Pavuna, que é doula e idealizou o coletivo Maternidade Favelada; e Nicole Calheiros do Nascimento, de 26, moradora do Morro da Iapetec, em Ramos. Ela faz parte dos coletivos Recriando Maré e Leopoldina Unida por Transformação Ambiental (LUTA).
“No projeto Manas tive o primeiro contato com termos como justiça climática e racismo ambiental. A partir disso, reconheci que meu território era um espaço muito vulnerabilizado e negligenciado pelo Estado, e isso me motivou a começar a participar de projetos que pautem políticas públicas de justiça climática, adaptação e direitos básicos nos territórios periféricos”, conta Nicole.
