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Reciclagem popular: saiba como foram tratados os resíduos da feira do MST em MG

Em parceria com cooperativas de catadores de BH, MST destina corretamente todo o lixo produzido nos três dias de evento

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Uma das novidades da 5ª edição da Feira Estadual da Reforma Agrária e Agricultura Familiar de Minas Gerais, que aconteceu entre os dias 17 e 19 de outubro, em Belo Horizonte, foi a gestão dos resíduos produzidos. 

Baseada em uma metodologia popular de reciclagem, a política desenvolvida no evento foi de “lixo zero”, destinando corretamente mais de 20 toneladas de descartes produzidos em todos os ambientes da feira, que foi organizada pelo Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). 

Além de um estande sobre o tema, o evento contou com uma central de triagem de resíduos, para onde era levado e dividido todo o lixo de forma correta. A estrutura da feira contou ainda com diversas lixeiras separadas por categorias de triagem, mobilizando a colaboração do público. 

“Nos fortalecemos com a parceria entre trabalhadores do campo e da cidade, ou seja, os movimentos populares caminhando junto aos movimentos e as organizações catadoras. Por meio dessa ponte, temos consolidado a relação campo e cidade e esse evento é um símbolo disso”, explica Priscilla Araújo, coordenadora do projeto Mãos Solidárias em Minas Gerais e membro da direção do MST.

Para os catadores, o fortalecimento é mútuo, como afirma o diretor da Associação de Catadores de Papel, Papelão e Materiais Reaproveitáveis (Asmare) Getúlio Andrade.

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 “Essa parceria com o MST é bem legal porque é uma coisa que engloba o cuidado com o meio ambiente. O MST com a alimentação e o cuidado da terra; e nós tomando conta do meio ambiente por meio da retirada dos resíduos que a população descarta. É muito gratificante essa junção”, explica. 

A iniciativa conta com a parceria de várias entidades de reciclagem que atuam na capital mineira como Cooperativa de Reciclagem dos Catadores da Rede de Economia Solidária (Cataunidos), Cooperativa Solidária dos Recicladores e Grupos Produtivos do Barreiro e Região (Coopersoli-Barreiro), a Cooperativa Central Rede Solidária dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis de Minas Gerais (Redesol-MG), Cooperativa Solidária de Trabalhadores e Grupos Produtivos da Região Leste (Coopesol-Leste) e a Associação de Catadores de Papel, Papelão e Materiais Reaproveitáveis (Asmare).

“Mostramos que juntos somos bem mais fortes. Além disso, a cozinha solidária que vem dessa parceria fez a diferença para nós, dando direito a todos trabalhadores um prato bonito na mesa”, destaca Silvana Maria de Assis, da Coopersol. 

Outras ações comuns

A Asmare é a segunda mais antiga associação de catadores do Brasil e fica no centro de Belo Horizonte. Lá também é desenvolvida a Cozinha Solidária Maria Brás, vinculada ao projeto Mãos Solidárias. Getúlio Andrade reforça como a cozinha tem contribuído na promoção da dignidade dos catadores, ao oferecer refeições solidárias duas vezes na semana.

“Uma parceria dessa, que traz uma alimentação de qualidade, sem agrotóxico, vinda do campo, e natural, é ainda mais importante para quem realiza um trabalho pesado, como os catadores. Alimento é vida”, celebra. 

Transição agroecológica 

Em marcha para consolidar a transição agroecológica em todos os seus territórios, o MST decide construir esse modelo de gestão dos resíduos a partir da interpretação de que sistemas alimentares sustentáveis deveriam se preocupar não só com a produção, agroindustrialização e distribuição dos alimentos, mas também com o descarte adequado.

Uma equipe pedagógica composta por militantes de todas as regiões do estado trabalhou durante todos os dias da feira, conscientizando a quem compareceu sobre o objetivo da iniciativa e a separação adequada. Nesse sentido, o evento se consolidou também como uma atividade formativa.

“Para nós, do MST, essa ação é muito importante, porque fechamos o ciclo da produção do alimento. Também unimos a classe trabalhadora do campo, com o tema da alimentação saudável e abundante, e a classe trabalhadora da cidade, representada nos catadores, com o tema dos resíduos. É um ponto que nos une”, afirma Kallen Oliveira, da equipe pedagógica de reciclagem da feira. 

Ao construir um evento de grandes proporções como são as feiras, o MST se responsabiliza por reduzir ao máximo os impactos ambientais gerados, conectando a reciclagem popular, a agroecologia e a justiça socioambiental. Além disso, com a produção dos bioinsumos a partir do material orgânico, fortalece o plantio saudável em larga escala.

“A terra adubada faz a diferença para o alimento  saudável, que depois será destinado, em parte, para os próprios catadores. Essa parceria planta um universo de cuidado com a natureza. Nós todos temos direito a um ar mais puro, um mundo sustentável, onde não há rios poluídos e as pessoas estão saudáveis”, reforça Silvana .

Uma equipe pedagógica composta por militantes de todas as regiões do estado trabalhou durante todos os dias da feira, conscientizando a quem compareceu sobre o objetivo da iniciativa e a separação adequada.

Como surgiu a parceria 

A ideia de um centro de triagem de resíduos durante os três dias de feira vem após a experiência bem sucedida da Feira Nacional da Reforma Agrária, que aconteceu em maio de 2025, na cidade de São Paulo (SP). Mas a parceria com os catadores em Belo Horizonte já vem de longa data, como explica Priscilla Araújo. 

“Em 2023, convidamos as catadoras para um encontro, no Dia do Meio Ambiente, no qual elas mesmas indicaram que fosse entre mulheres sem terra e mulheres catadoras, a imensa maioria de quem faz a gestão dos resíduos nas cidades. Dessa conversa, saíram as ações conjuntas concretas que poderíamos realizar em parceria”, relembra.

Surgiu daí a ideia de casar a agroecologia com a reciclagem como forma de preservação do meio ambiente, por meio das iniciativas de alimentação. Os bancos de alimentos e a cozinha solidária estão ativos desde julho de 2024 no galpão da Asmare, iniciativa a qual Nogueira reforça a importância.

“A feira do MST é uma oportunidade de juntar campo e cidade. A parceria que vem acontecendo entre MST e Asmare tem aproximado de forma concreta o campo e a cidade, beneficiando trabalhadores do campo e da cidade, por vezes em situação de vulnerabilidade social”, destaca. 

Para Silvana, a cozinha é de “uma grandiosidade sem tamanho”, uma vez que produz e distribuí “alimento de qualidade, que não tem agrotóxico”.

Como foi a gestão de resíduos

Os resíduos foram triados separando os recicláveis, destinados às associações e cooperativas de catadores parceiras no projeto e somados à catação dos associados, incrementando sua renda. Os orgânicos serão convertidos em bioinsumos pela ação da Coopersol Leste. 

Das 20 toneladas que o movimento e as cooperativas coletaram, ao menos 60% era  composto de materiais orgânicos, que, ao ser transformado em bioinsumos, um elemento essencial para a produção agroecológica em larga escala, fecham um ciclo virtuoso. 

“A parceria com as cooperativas de catadores fecha o ciclo da produção agroecológica que respeita o meio ambiente, com relações justas de trabalho, e que faz chegar esse alimento à cidade para quem trabalha cotidianamente para que tenhamos cada vez menos resíduos e defende o meio ambiente.”, finaliza Araújo.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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