A China pediu, durante debate na Assembleia Geral das Nações Unidas nesta terça-feira (28), que os Estados Unidos acabem imediatamente com o embargo econômico, comercial e financeiro imposto a Cuba há mais de seis décadas, descrevendo as sanções unilaterais como “bárbaras”.
Fu Cong, representante permanente da China nas Nações Unidas, afirmou que o bloqueio contra Cuba traz profundos sofrimentos ao povo cubano e tem sido quase unanimemente condenado pela comunidade internacional. O diplomata chinês lamentou que, apesar de 2025 marcar o 80º aniversário da vitória na Guerra Anti-Fascista Mundial, a segunda guerra, e da fundação da ONU, “a mentalidade da Guerra Fria e o hegemonismo ainda persistem”, e que o progresso na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável esteja “seriamente atrasado”.
“De acordo com estatísticas disponíveis, o bloqueio bárbaro dos Estados Unidos, que dura há mais de 60 anos, causou perdas acumuladas superiores a 170 bilhões de dólares [R$ 977,5 bi] a Cuba, abrangendo combustível, alimentos, bens de consumo, medicamentos e praticamente todas as outras áreas da vida, trazendo sofrimentos profundos ao povo cubano”, declarou Fu durante o debate.
O representante chinês condenou países ocidentais que perseguem políticas de unilateralismo, protecionismo e intimidação, e que se negam a cumprir seus compromissos de ajuda e impondo sanções unilaterais ilegais de longo prazo contra Cuba. Fu denunciou ainda que as medidas violam seriamente a Carta da ONU e o direito internacional, prejudicando o direito do povo cubano à subsistência e ao desenvolvimento.
Relatório cubano aponta recrudescimento sem precedentes do bloqueio
Em setembro, o Ministério de Relações Exteriores cubano apresentou um relatório que realiza anualmente sobre os impactos do bloqueio, neste caso do período de março de 2024 a fevereiro de 2025. O levantamento destaca que as perdas materiais nesse período atingiram US$ 7,556 bilhões (R$ 43,4 bilhões), o que significa um aumento de 49% em relação ao período anterior.
Os maiores impactos registrados foram em relação à renda não arrecadada por exportações de bens e serviços (exportações não realizadas), estimada em US$ 2,608 bilhões (R$ 15 bi), e pela relocalização do comércio, no valor de US$ 1,213 bilhões (R$ 6,97 bi).
Essa relocalização ocorre porque os Estados Unidos sancionam empresas, navios e bancos de terceiros países que realizarem negócios com Cuba. Assim, a ilha é forçada a desenvolver diferentes estratégias para realizar negócios com empresas de diferentes países, tendo que arcar com custos extras para fazer transações comerciais normais.
Outro fator de impacto significativo foi a política do governo estadunidense de promover e incitar a emigração de profissionais e técnicos cubanos. O governo cubano calculou que essa política gerou danos estimados em US$ 2,570 bilhões (R$ 14,8 bi).
A preços atuais, os danos acumulados durante mais de seis décadas chegam a US$ 170,677 bilhões (R$ 981,4 bi). Quando os valores históricos são corrigidos pela desvalorização do dólar em relação ao ouro, os prejuízos saltam para US$ 2,104 trilhões (R$ 12,1 trilhões), mais de 12 vezes o montante nominal.
O relatório estima que, sem o bloqueio, o PIB de Cuba a preços correntes poderia ter crescido cerca de 9,2% em 2024.
Assembleia Geral debate impacto humanitário enquanto furacão ameaça o Caribe
Durante o debate na Assembleia Geral, delegados de diversos países enfatizaram o impacto do bloqueio na vida cotidiana dos cubanos comuns, particularmente enquanto a região caribenha se prepara para a chegada do furacão Melissa.
O Melissa se aproxima da costa sul da região oriental de Cuba como um ciclone de categoria quatro na escala Saffir-Simpson, com ventos máximos de 215 quilômetros por hora e rajadas superiores. Segundo o Centro de Previsões do Instituto de Meteorologia de Cuba, o fenômeno chegou primeiro ao município de Guamá, na província de Santiago de Cuba, na madrugada desta quarta-feira (29).
Na terça-feira, Melissa se tornou o terceiro furacão mais intenso já registrado na bacia do Atlântico Norte, ao alcançar ventos máximos de 295 quilômetros por hora. O fenômeno fica atrás apenas dos furacões Wilma (2005) e Gilbert (1988) no ranking histórico. Fortes ressacas e inundações costeiras já foram reportadas no litoral sul das províncias de Granma, Santiago de Cuba e Guantánamo, com ondas chegando a oito metros de altura.
Burhan Gafoor, o delegado de Singapura destacou durante o debate na ONU que as restrições do embargo prejudicam a capacidade de Cuba de lidar eficazmente com desastres naturais dessa magnitude, dificultando a aquisição de equipamentos de emergência e suprimentos essenciais para a população afetada.
Gafoor, que falou em nome da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), destacou que o embargo restringiu severamente as importações, exportações e transações financeiras de Cuba, afetando sua capacidade de acessar investimentos estrangeiros diretos, comprar suprimentos de combustível e matérias-primas. “Para os cubanos comuns, isso se traduziu em escassez de bens essenciais, cortes de energia e dificuldades no acesso a serviços médicos vitais”, afirmou.
Governo estadunidense ataca Cuba durante Assembleia
O embaixador estadunidense na ONU, Mike Waltz, pediu que os delegados votassem contra a resolução, descrevendo o debate anual como “teatro político”.
Waltz disse que “não há bloqueio” e que Cuba pode comerciar livremente com qualquer país, negando a existência das leis que seu próprio governo impõe, como a Lei Helms-Burton, a Lei Torricelli e a “regra dos 180 dias” que restringe navios de atracar em portos estadunidenses após tocar em Cuba.
Waltz também caracterizou a cooperação médica cubana como “trabalho forçado”.
Segundo levantamento feito pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), só no Brasil, o programa Mais Médicos (antes de ser eliminado por Bolsonaro), levou profissionais cubanos a mais de 2.800 cidades e nos 34 distritos de saúde indígenas.
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde de Cuba indicam que em cinco anos de trabalho, cerca de 20 mil médicos cubanos atenderam 113.359.000 pacientes em mais de 3.600 municípios. Estes profissionais chegaram a cobrir um universo de 60 milhões de brasileiros na época em que constituíram 80% de todos os médicos participantes do programa.
O ministro de Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, interrompeu o discurso de Waltz com uma questão de ordem, acusando Waltz de mentir, desviar-se substancialmente do tema e expressar-se de forma “incivilizada, crua e grosseira” contra a dignidade da Assembleia Geral.
“Sr. Waltz, esta é a Assembleia Geral das Nações Unidas – não é uma conversa no Signal, nem na Câmara de Representantes”, disse o chanceler cubano.
China reafirma compromisso com multilateralismo e com Cuba
Fu Cong enfatizou que a China reitera seu firme compromisso com o multilateralismo e o sistema internacional com as Nações Unidas como centro, e sua firme oposição à hegemonia. O diplomata chinês expressou elevada apreciação pela contribuição de Cuba na defesa da justiça internacional e promoção da cooperação global, manifestando disposição para aprofundar ainda mais a cooperação em todas as áreas.
“A China insta mais uma vez fortemente os Estados Unidos a levantarem imediata e completamente seu bloqueio econômico, comercial e financeiro contra Cuba, removerem Cuba da lista de supostos ‘Estados patrocinadores do terrorismo’, e se absterem de continuar traindo a comunidade internacional e a consciência humana”, declarou Fu.
Histórico das votações: 32 anos de condenação internacional ao bloqueio
A votação desta quarta-feira (29) é a 33ª vez que a Assembleia Geral das Nações Unidas se pronuncia sobre o embargo estadunidense a Cuba. Desde 1992, quando o projeto de resolução foi apresentado pela primeira vez e submetido à votação, a comunidade internacional tem demonstrado apoio crescente à posição cubana.
Na primeira votação, em 1992, apenas 59 países votaram a favor da resolução, com três votos contrários (Estados Unidos, Israel e Romênia) e 71 abstenções. O apoio cresceu consistentemente ao longo dos anos: em 1998, já eram 157 votos favoráveis; em 2000, 167; e em 2010, já 187 países apoiavam a resolução.
Um marco significativo ocorreu em 2016, quando pela primeira vez os Estados Unidos e Israel se abstiveram, resultando em 191 votos favoráveis sem nenhum voto contrário. No entanto, em 2017, ambos os países retomaram sua oposição à resolução.
Historicamente, Israel e os Estados Unidos têm sido os únicos países a votar consistentemente contra a resolução ao longo de todas as votações. Pequenos Estados insulares do Pacífico, como Palau, Ilhas Marshall e Micronésia, ocasionalmente se juntaram à oposição ou se abstiveram.
A quase unanimidade da comunidade internacional reflete o consenso de que o embargo viola princípios fundamentais do direito internacional, incluindo a não interferência em assuntos internos de Estados soberanos e o respeito à autodeterminação dos povos.
*Com informações de CCTV e Prensa Latina.
