O ciclo Memória da Luta Antirracista, promovido pelo Centro de Documentação e Memória Política Sérgio Buarque de Holanda da Fundação Perseu Abramo, em parceria com o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, Indígenas e Africanos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Neabi/Ufrgs) e a Escola Nacional de Formação Política (ENFPT), realizou nesta quarta-feira (5) a mesa “A construção do feminismo negro: mulheres em luta – pensamento e militância de Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento”.
O encontro, realizado no Centro Cultural da Ufrgs, reuniu a socióloga e professora Luciana Garcia de Mello (Ufrgs), Iya Sandrali Bueno, do Movimento Negro Unificado, e a servidora Tamyres Filgueira (Ufrgs), na mediação.
A abertura contou com falas de Alan Alves Brito, pró-reitor de Ações Afirmativas da Ufrgs, Ellen Coutinho, da direção executiva da Fundação Perseu Abramo, e Isadora Trajano, da Escola Nacional de Formação Política do PT.
O ciclo busca preservar a memória e o pensamento político negro como parte da construção democrática e da luta por igualdade racial no Brasil. Esta segunda mesa propôs refletir sobre a resistência e o legado das mulheres negras a partir de Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento, que abriram caminhos para compreender o feminismo negro como prática política, intelectual e ancestral. A primeira mesa ocorreu na Unifesp, em homenagem aos 100 anos de Clóvis Moura e aos 50 anos de Kabengele Munanga no Brasil.
“Ocupar espaços acadêmicos com debates críticos”
Ellen Coutinho destacou a importância de promover debates antirracistas nas universidades. “Todo ano fazemos um ciclo de disputa cultural contra-hegemônica. Já realizamos atividades em torno de Paulo Freire, Florestan Fernandes e sobre o bicentenário da independência, destacando a participação popular nas lutas, especialmente na Bahia, uma história que não é contada nacionalmente. Nessas ocasiões, também questionamos que nação é essa que se formou há 200 anos e o que desejamos dela”, afirmou.
Ela lembrou que 2025 é um ano simbólico, com os 100 anos de Frantz Fanon e Malcolm X, os 90 de Lélia Gonzalez e os 30 da morte de Beatriz Nascimento. “Também completam 30 anos da Marcha Zumbi, um marco para as políticas públicas de igualdade racial”, disse.
O ciclo homenageia ainda Kabengele Munanga e Clóvis Moura. “Chegamos a novembro com alegria, iniciando o mês na universidade com essa atividade sobre feminismos negros, em um momento de tanta violência política de gênero e contra a população negra”, afirmou Coutinho. Ela reforçou a importância de reafirmar a luta das mulheres negras “por liberdade, dignidade, cidadania e justiça social e racial”.

Juventude e organização política
A advogada Isadora Trajano, da equipe pedagógica da Escola Nacional de Formação Política do PT, e fundadora da Defesa Periférica falou sobre a articulação entre juventude, negritude e formação política. “Represento uma iniciativa de jovens advogados e advogadas, em sua maioria negros e negras, que atuam nas periferias de Porto Alegre no acolhimento jurídico”, explicou. Ela coordena, em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, o projeto Agentes de Promoção da Igualdade Racial no Rio Grande do Sul.
Segundo Trajano, a escola tem implementado uma pedagogia que vai além de Paulo Freire, dialogando com perspectivas populares, feministas e griôs. “O pensamento de Lélia Gonzalez nos motiva a sair do lugar da resistência. É preciso que a gente se organize, e o partido é um instrumento para isso. A organização do povo negro é extremamente necessária, e esse momento é um reflexo disso”, afirmou.
Ela concluiu dizendo acreditar nas mulheres “como forma de revolução, em um horizonte quilombista, para romper com o sistema que faz com que corpos negros estejam atirados nas periferias, enquanto muitos ainda defendem essa necropolítica”.
“Pensamento vivo e curativo”
O pró-reitor Alan Alves Brito ressaltou a importância de celebrar Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento, definindo-as como “referências teóricas e de vida”. “É uma alegria poder estabelecer esse diálogo sobre duas pensadoras importantes. A memória de Lélia e a de Beatriz sempre precisam ser celebradas. São mulheres que contribuíram muito para a história do nosso país”, disse.
Britto destacou que o pensamento dessas intelectuais segue como “força pulsante” nas políticas públicas da universidade e lembrou que a Pró-Reitoria de Ação Formativa e Equidade (Proafe) foi criada para garantir representatividade nas contratações e na permanência estudantil. “Temos atuado na graduação, na pós e na contratação de professores e professoras negras, indígenas, trans, travestis, quilombolas, pessoas com deficiência, corpos políticos e sujeitos que tanto Lélia quanto Beatriz trouxeram para o campo da reflexão e da garantia de direitos”, explicou.
“É novembro negro, mas é novembro todos os dias para nós. Que este seja um momento de lutas e também de cura, num tempo em que tentam tirar de nós a fé, a vontade e a alegria”, afirmou. Britto lembrou ainda que Beatriz foi vítima de feminicídio e relacionou a discussão ao debate atual no Rio Grande do Sul. “Tudo isso se conecta dentro de um projeto maior de sociedade, aquele que essas mulheres tanto sonharam.”
“O feminismo negro é ancestral porque não paralisamos”
Ìyá Sandrali Bueno destacou que a luta das mulheres negras começa no momento em que enfrentam o machismo, o preconceito e o racismo. “Não fomos nós que criamos esses ‘istas’ todos, mas aprendemos que é preciso trabalhar para termos espaços democráticos como esse, para discutir e transformar este país numa real democracia, a de corrente amorosa”, afirmou.
Ao lembrar o 8 de março, data simbólica da luta das mulheres, Iya Sandrali questionou: “Mas de quais mulheres?”. E, em seguida, ressaltou a importância da autodescrição, relacionando-a à estética capturada pelo capitalismo e à perda de sentidos sagrados das simbologias femininas.
Ela destacou o papel do pensamento do feminismo negro, a partir de Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento. “Lélia analisou e denunciou a articulação entre racismo, sexismo e classe social na formação da sociedade brasileira, ajudando a construir a identidade da mulher negra pela subjetividade. Já Beatriz trouxe o quilombo como símbolo de resistência, autonomia e continuidade da identidade negra, tendo a coletividade como chave da construção do ser-força das mulheres negras.”

Iya apresentou os cinco princípios de seu livro Pelo direito de ser quem sou: um ser coletivo (Zouk, 2022): espelho social, escudaria, radicalidade amorosa, o melhor de cada uma e projeto mítico-social. “Somos invisibilizadas, não somos invisíveis. Não dá para uma mulher de um metro e setenta ser invisível”, destacou.
Também criticou a leitura “guetizada” da população negra e a falta de protagonismo nas gestões partidárias. “Ainda há partidos que pintam algumas caras pretas para justificar regras excludentes da política brasileira”, defendeu. “Nossa caminhada é como uma onda que se soma a outras, até se transformar em um tsunami capaz de destruir os obstáculos que impedem a construção de um projeto político coletivo.”
Para ela, o feminismo negro é ancestral porque as mulheres negras ainda utilizam as mesmas estratégias de sobrevivência que suas ancestrais, baseadas em acolhimento, economia solidária e coletividade. “Enquanto não houver paridade, não há como falar em democracia. Queremos ocupar os espaços que nos foram negados, ainda controlados pela supremacia branca, heteronormativa, sexista, capacitista e cristocentrada.”
Iya encerrou prestando homenagem a suas ancestrais e a lideranças como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e Luiza Bairros. “A branquitude tem dificuldade em compreender essa força ancestral. Por mais que estudem, não conseguem entender”, disse, citando Cida Bento e o “pacto narcísico branco”. “Portanto, concluo dizendo que sempre será nós por nós”, finalizou, sob aplausos.
O legado de Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento
Em sua intervenção Mello destacou a importância singular das duas intelectuais. “São mulheres de importância ímpar no movimento de mulheres negras. Infelizmente, tiveram uma trajetória breve, mas constituíram um legado de grande relevância.”
Lélia Gonzalez chegou ao doutorado e atuou como professora na PUC-Rio. Beatriz Nascimento, graduada em História, iniciou mestrado em Comunicação, interrompido por sua morte trágica. “Mesmo assim, sua atuação foi marcante e pioneira. Ela criou na Universidade Federal Fluminense (UFF) o primeiro coletivo negro de que se tem notícia”, lembrou Mello.
Beatriz Nascimento questionava o papel da universidade e propôs refundá-la, criticando o elitismo e o racismo acadêmico. “Ela convocava a intelectualidade negra não apenas a ocupar a universidade, mas a transformar o modo como o conhecimento é produzido”, destacou.
Entre seus temas centrais estavam o conceito de quilombo como resistência, a crítica à estrutura racista da sociedade e a análise do lugar da mulher negra. “Ela já falava, nos anos 1980, sobre o racismo no mercado de trabalho e a persistência da estrutura escravocrata”, disse.
Mello ressaltou que tanto Beatriz quanto Lélia compreenderam a sociedade a partir da relação entre racismo, capitalismo e gênero. “Antes mesmo do termo ‘interseccionalidade’, Lélia já falava em tripla discriminação.”
Lélia também confrontou autores clássicos do pensamento social brasileiro e denunciou como suas narrativas sustentavam a desigualdade racial. “Ela mostrou como a mulher negra é hipersexualizada e reduzida a estereótipos, a musa do carnaval e a empregada doméstica são a mesma figura”, observou.
A professora destacou ainda que Lélia foi uma das primeiras mulheres negras a disputar eleições legislativas, afirmando o papel político das mulheres negras. “Essas intelectuais criaram o germe de uma luta que se consolida na Marcha das Mulheres Negras de 2015, que reuniu 30 mil pessoas em Brasília”, ressaltou.
“O slogan ‘Marchar contra o racismo, a violência e pelo bem viver’ sintetiza o que essas mulheres nos ensinaram. Foram precursoras: reinterpretaram a sociedade, criaram uma nova narrativa e projetaram uma utopia. É esse legado que precisamos reviver e atualizar constantemente”, finalizou.

Reconhecimento e luta
Ex-aluna e servidora da universidade, Tamyres Filgueira recordou sua trajetória marcada pela conquista das cotas raciais e pela presença como mulher negra trabalhadora em um curso ainda elitizado. “Entrei na Ufrgs através das cotas, enquanto trabalhava como cobradora na Carris. Apesar de a política já existir havia alguns anos, ainda era muito recente ver pessoas negras, e trabalhadoras, em certos cursos, como Educação Física”, contou.
Ela lembrou o cotidiano de enfrentamentos racistas dentro da instituição. “Muitas vezes eu me afirmava: ‘não estou sozinha aqui, a Lélia já esteve neste espaço’. Era um enfrentamento diário, porque o tempo todo nos diziam, de forma explícita ou não, que aquele não era o nosso lugar.”
Filgueira destacou também o trabalho do Neabi, grupo que resgatou a história da luta pela aprovação das cotas em 2007. “Quando se busca na internet sobre a luta pelas cotas na Ufrgs, não se encontra nada, e isso é vergonhoso. Foi uma conquista fundamental, resultado da mobilização do movimento negro, indígena e estudantil. Eu era secundarista e participei sem saber o quanto aquilo impactaria a minha vida”, afirmou. “A luta vale a pena. Só ela muda a vida.”
A professora Luciana Mello ressaltou que a presença negra na academia é, por si só, um ato político de transformação. “Lélia Gonzalez e Beatriz Nascimento já mostravam que estar na academia é um ato político: não basta ser estudante, é preciso transformar o espaço. Hoje vejo essa nova intelectualidade negra com a mesma postura, de transformação”, observou.
Ela relatou que, ao buscar registros sobre as cotas na universidade, o que aparecia era apenas a pichação ‘negros na Ufrgs, só se for na cozinha do refeitório universitário (RU)’. “Isso mostra qual espaço nos foi historicamente reservado. Lélia questionava qual é o lugar natural do negro, o cortiço, a favela, a moradia precária. É assim que querem nos ver. A branquitude não quer partilhar o poder, e a academia não foi pensada para nós. Mas ocupar esses espaços significa desestabilizar, abrir caminhos.”
Encerrando o debate, Iya Sandrali evocou a memória de Luiza Bairros, destacando a importância da ancestralidade e do pertencimento civilizatório africano. “Quando Luíza fez a passagem, eu disse: quero que ela tenha um enterro digno de uma estadista. E assim foi, um enterro de autoridade civilizadora das tradições de matriz africana, mesmo ela não sendo da tradição, porque ela vinha desse chão, dessa ancestralidade”, relatou.
Para ela, compreender essa dimensão é essencial para romper com o olhar colonial sobre as mulheres negras. “A branquitude não compreende isso, porque veio de outro lugar e nos fez acreditar que éramos inferiores. Mas o berço da humanidade é a África. E se a maioria do povo brasileiro é negra e mulher, é por nós que passa a revolução.”
Sandrali destacou ainda a atualidade do pensamento de Lélia Gonzalez. “Lélia já dizia que a empregada doméstica e a musa eram a mesma mulher. Hoje não são mais. A musa virou a mulher branca, enquanto as mulheres negras perderam até o espaço do samba, do carnaval, da capoeira, expressões que criamos e que agora são ensinadas nas academias. Recuperar Lélia, Beatriz e nossa história é olhar para trás, questionar o presente e garantir que o futuro saiba de onde veio. Sem isso, não há reconstrução possível.”
