Resistência

Moradores e ONGs repudiam estigma de ‘rota do crime’ da Serra da Misericórdia após chacina no Rio com 121 mortos

Área de proteção ambiental abriga projetos que incentivam agroecologia e reflorestamento

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Serra da Misericórdia
Serra da Misericórdia, na Penha, é o quarto maior maciço urbano da cidade | Crédito: Divulgação/CEM

A Serra da Misericórdia, no Complexo da Penha, zona Norte do Rio de Janeiro, figurou nos principais meios de comunicação do país como palco da maior chacina na história, resultado de uma operação policial desastrosa na última semana. O local, no entanto, abriga uma série de projetos que tentam compensar o abandono do Estado a partir da construção coletiva. 

Um deles é o Centro de Integração da Serra da Misericórdia (CEM) que atua desde 2011 com projetos de educação ambiental, saúde popular e horta agroecológica, que incentiva a alimentação saudável na comunidade, trabalhando principalmente a integração com as crianças.

A reportagem do Brasil de Fato esteve na Penha ano passado para conhecer a iniciativa de agroecologia. “Onde as crianças só veem armas, mortes, dificuldades, a gente tem um lugar diferente para dar orgulho ao bairro, para as crianças se sentirem pertencentes ao local. Aqui era chamado de pedreira, hoje já estão chamando de Serra da Misericórdia, então, estão dando mais valor”, contou Marcelo Correa, cofundador da ONG.

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O projeto de produção de alimentos conta com voluntários e parcerias com diferentes coletivos, redes e instituições, para garantir a soberania alimentar da comunidade. “Serra da Misericórdia é lugar de reflorestamento, não de desova”, exclamava uma das faixas na manifestação na Penha depois da ação policial com mais de 120 mortos.

Depois da chacina, moradores e ONGs foram às redes sociais repudiar o estigma de ‘rota do crime’ que a mídia passou a divulgar sobre o local. Além de área de lazer e abrigar projetos, a Serra da Misericórdia configura o quarto maior maciço urbano da cidade, depois da Floresta da Tijuca, Mendanha e Pedra Branca.

Alimentação saudável, reflorestamento e escolinha de agroecologia são algumas atividades que acontecem na Serra da Misericórdia

A luta pela preservação do maciço remonta os anos 1997 com a criação do Horto Chico Mendes e uma horta comunitária pela ONG Verdejar Socioambiental. Desde então já havia a defesa da Serra da Misericórdia como Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana (APARU) que veio nos anos 2000.

A Serra se estende por 27 bairros, sendo a última área de Mata Atlântica ainda presente na zona Norte do Rio de Janeiro. Posterior ao reconhecimento da área como APARU, surgiu ainda a proposta de criar um parque no local, mas o projeto não saiu do papel.

Em 2010, um decreto renomeou a área de 3.598 hectare como Parque Municipal Urbano da Serra da Misericórdia. Sem apoio do poder público, na prática, são os próprios moradores e as organizações populares que realizam atividades de preservação ambiental.  

A ativista Ana Tobossi, moradora da Vila Cruzeiro, uma das 13 comunidades que fazem parte do complexo, defende que o local é de agroecologia e solidariedade. “Essas iniciativas garantem alimento saudável, fortalecem a comunidade e mostram que é possível viver em harmonia com a natureza, mesmo quando o poder público vira as costas”, disse. 

“Vimos na reportagem do Fantástico [da TV Globo] uma terrível tentativa de criminalizar a Serra da Misericórdia. É inadmissível, às vésperas da COP30, que o Estado e grandes meios de comunicação tentem criminalizar e estigmatizar esse território tão precioso de proteção urbana, de vida e de resistência”, rebate Tobossi. 

“Mesmo sem saneamento básico, sem escolas, sem pronto-socorro e sem moradia digna, existem ali organizações populares incríveis como o CEM, Telhado Verde Agroecológico e tantas outras que há anos realizam ações de reflorestamento, agricultura urbana e preservação ambiental”, completa.

Centro de Integração da Serra da Misericórdia (CEM) atua com projetos de educação ambiental e agroecologia

Ela, que acompanhou mulheres resgatando corpos de familiares, afirma que nunca viu algo “tão bárbaro” quanto o que aconteceu na Penha. “Ainda ouço os gritos ecoando dentro de mim”, lembra Tobossi que se coloca no lugar das mães por ser ela mesma mãe solo. 

O ativista do complexo do Alemão Raull Santiago pontuou que o abandono na Serra da Misericórdia evidencia o racismo ambiental nas favelas, o que perpetua o ciclo de violência. “A serra onde aconteceu a maioria das execuções na chacina, eu brinquei muito, encontrei as nascentes. Fiquei muito triste com a matéria do Fantástico que chamava nossa serra, esse resquício de Mata Atlântica no coração da zona Norte, de serra do crime”, disse.

“A serra é uma APARU de responsabilidade pública. Outra APARU é o Alto da Boa Vista, e olha o tratamento diferenciado, o investimento, o cuidado, o relacionamento com aquela realidade. É um ciclo contínuo de racismo ambiental”, completou. Santiago também lembrou o falecido poeta Luiz Carlos, conhecido por exaltar a serra nos seus versos mais conhecidos: “O seu verde precisa verdejar esta redondeza / De paz, pálida e poluída / Te amo Serra da Misericórdia”.

A vereadora Maíra do MST (PT) também saiu em defesa do território e dos projetos sociais que a Serra da Misericórdia abriga. “Enquanto imprensa e Estado só enxergam crime, quem vive na Penha recupera a floresta, produz alimentação saudável e constrói agroecologia. E se os olhares para a Serra da Misericórdia fossem para incentivar essas ações? Para garantir infraestrutura, assistência técnica, e fomentar as políticas de agricultura urbana na região”, questionou Maíra.

“Nós sabemos o valor da Serra. Sabemos o que ela representa para quem vive e planta ali. A Serra é vida. A Serra é natureza. A Serra não é do crime”, defende a moradora da Penha. Saiba mais sobre a história da Serra da Misericórdia no WikiFavelas neste link.

O Brasil de Fato perguntou a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal do Ambiente e Clima do Rio (SMAC) se a pasta tem projetos voltados para a preservação ambiental na Serra da Misericórdia e aguarda um retorno.

Editado por: Vivian Virissimo

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