Sem credibilidade

‘O projeto hiperpresidencialista de Noboa sofreu um duro golpe’, diz analista

Em plebiscito, equatorianos rechaçaram convocação de Constituinte e instalação de bases militares dos EUA no país

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Após derrota no plebiscito, presidente do Equador, Daniel Noboa, disse nas redes que respeita "a vontade do povo equatoriano"
Após derrota no plebiscito, presidente do Equador, Daniel Noboa, disse nas redes que respeita “a vontade do povo equatoriano” | Crédito: Marcos Pin/AFP

O presidente do Equador, Daniel Noboa, sofreu, neste domingo (16), uma derrota nas urnas, após convocar um plebiscito elaborar uma nova Constituição e autorizar a instalação de bases estrangeiras em território equatoriano. Além disso, a população deveria responder se queria a redução do número de parlamentares e o fim do financiamento público de campanhas.

As quatro propostas foram rejeitadas por cerca de 60% dos equatorianos. Apenas a pergunta sobre a redução do total de parlamentares ficou um pouco abaixo da média, com 53% de votos contrários.

Ainda que algumas pesquisas indicassem vitória de Noboa, o economista e cientista político equatoriano Juan Pablo Jaramillo Ramón havia dito ao Brasil de Fato, na sexta-feira (14), que a oposição aos planos do presidente direitista vinha crescendo, e que não se surpreenderia se Noboa sofresse um revés nas urnas.

“As pesquisas, no início, mostravam um cenário favorável para o presidente Noboa. No entanto, essas pesquisas diziam que cerca de 30% da população poderia mudar de opinião”, disse Ramón.

“As pessoas, no fim das contas, vão querer um governo que entregue resultados. O que não existiu nesses dois anos de governo. Os indicadores de segurança, por exemplo, estão piores do que antes”. O Equador enfrenta uma crise de segurança sem precedentes e lidera a taxa de homicídios entre os países latino americanos. Foram 39 homicídios para cada 100 mil habitantes em 2024, segundo o site Insight Crime.

‘Campanha atrapalhada’

Além desses fatores, o cientista político acredita que Noboa fez uma campanha atrapalhada, com discursos contraditórios. Isso ocorreu, por exemplo, na discussão sobre as bases militares. Em um primeiro momento, Noboa havia dito que tinha a intenção de abrir as Ilhas Galápagos para a instalação de bases militares estrangeiras. Depois da repercussão negativa, recuou e disse que as bases seriam instaladas em Manta (onde os Estados Unidos mantiveram uma base de 1999 a 2009) ou Santa Elena. As duas províncias onde as cidades estão localizadas foram as que rechaçaram as bases estrangeiras de forma mais contundente – 70,61% e 66,7% votos para o “Não”, respectivamente.

“Isso fez com que o presidente perdesse credibilidade. No tema, por exemplo, da Constituinte, que era um assunto complexo de explicar, o presidente decidiu dizer: ‘Votem primeiro e depois eu explico as mudanças'”, destacou Ramón.

“Além disso, na campanha presidencial, ele disse que manteria os subsídios aos combustíveis e eliminou os subsídios aos combustíveis. Disse que não iria aumentar impostos e aumentou impostos. Então, a imagem e a credibilidade do presidente estão muito desgastadas”, afirmou Ramón.

Após a derrota, presidente de 37 anos publicou uma curta mensagem na rede social X: “Respeitamos a vontade do povo equatoriano. Nosso compromisso não muda”.

No poder desde o fim de 2023, a convocação do plebiscito se deu como uma forma de tentar driblar a Suprema Corte do país, que barrou alguns de seus projetos, sobretudo na área da segurança – como a castração química para estupradores – por entender que direitos fundamentais poderiam ser violados.

Fredy Rivera Vélez, o professor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) no Equador e especialista em segurança internacional, aposta que Noboa vai tentar, a partir de agora, usar de sua maioria parlamentar para impor sua agenda. Contudo, sem a reforma constitucional, haverá alguns limites que não poderão ser ultrapassados – a implementação de bases militares estrangeiras, por exemplo.

“O projeto de hiperpresidencialismo de Noboa acaba de sofrer um duro golpe”, disse Vélez, que não descarta a possibilidade de uma reforma ministerial por conta da derrota.

Marco Rubio teve uma reunião com Daniel Noboa em Quito para discutir a instalação de uma base militar em Manta | Crédito: Martin / AFP

Relação com os EUA

Em setembro deste ano, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, foi a Quito para reunir-se com Noboa. Perguntado sobre a possibilidade de reativação de uma base militar, disse que “o Equador é um país soberano. Se nos convidarem, vamos considerar.”

Na semana passada, poucos dias antes da votação, Noboa recebeu a secretária de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Kristi Noem. Juntos, eles percorreram alguns pontos das bases militares de Manta e Salinas, onde as bases estadunidenses seriam instaladas em caso de vitória no plebiscito.

Apesar do contratempo, Vélez acredita que o presidente equatoriano vai conseguir ajudar Washington a aumentar sua influência na região, por meio de acordos bilaterais de cooperação militar, principalmente no setor marítimo. “Isso o Noboa pode fazer, e os acordos desse tipo vão aumentar”, disse.

O professor da Flacso diz que Washington tenta usar a sua aliança com o governo equatoriano para minar a influência chinesa na região. “O aumento da presença militar dos Estados Unidos representa uma perda da capacidade de autonomia do Peru, da Colômbia, do Equador e do Chile. O interesse está no Pacífico Sul, devido à presença cada vez maior da China no porto de Chancay [no Peru], nos acordos bilaterais que ela tem com o Chile, etc. Então, o objetivo é tentar pressionar os países do Pacífico Sul da América do Sul para que não tenham tanta vinculação com a China”.

Editado por: Luís Indriunas

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