O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou nesta terça-feira (18) que a equiparação de crime organizado com terrorismo é problemático para a atuação da corporação. Em depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o crime organizado, ele destacou a importância de mais recursos para a PF e reforçou ter estado em desacordo com a operação no Rio de Janeiro.
Um dos principais temas abordados foi a equiparação entre grupos criminosos e terroristas. Durante a CPI, o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) questionou a ligação entre essas duas estruturas. Essa tem sido uma bandeira levantada pela extrema direita nas últimas semanas, especialmente com o Projeto de Lei 1.283 de 2025, que busca equiparar organizações criminosas com grupos terroristas.
Rodrigues negou qualquer envolvimento e disse que as investigações da Polícia Federal não indicam uma cooperação entre esses diferentes grupos em qualquer região, inclusive na fronteira. Segundo ele, houve reuniões com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB) e com o relator Guilherme Derrite (PP-SP) para alertar os riscos do texto.
O diretor-geral da PF foi o primeiro a depor na CPI. A comissão foi instalada depois da chacina que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro, em outubro, e pretende ouvir autoridades ligadas a segurança pública não só em território nacional, mas também nos estados.
Ele também mencionou a operação policial realizada no Rio. Segundo Rodrigues, as autoridades fluminenses entraram em contato com a PF, que afirmou não ter “convergência” com a operação em alguns quesitos.
Rodrigues afirmou que hoje são 49 mil operações e investigações da corporação em andamento. Ele, no entanto, disse não ter os dados precisos sobre quantos desses inquéritos estão ligados a políticos a nível municipal, estadual ou federal.
A atuação de organizações criminosas brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) em outros países também não é algo mapeado com detalhes pela PF. A corporação considera que há uma série de crimes diferentes que podem ser cometidos e que é difícil identificar a atuação de um grupo fora do país.
“A atuação em outros países depende do conceito. Alguém que se diz de uma organização e comete um crime em outro país não pode dizer que essa organização está em outro país. Eu não sei o número exato por essa dificuldade de conceituação. São vários tipos de crimes: ambiental, tráfico de armas, drogas”, disse.
Ainda durante o depoimento, Rodrigues afirmou que há cooperações com outras polícias ao redor do mundo para a investigação e atuação em rede. A PF hoje tem uma atuação conjunta com os países vizinhos, especialmente o Mercosul, para identificar pessoas ligadas aos grupos criminosos em outros territórios.
O diretor-geral também reafirmou uma demanda antiga dos policiais federais: o aumento dos investimentos na corporação e a valorização dos profissionais. De acordo com ele, é preciso ter recursos para “fazer segurança pública”.
O presidente da CPI, Fabiano Contarato (PT-SE), reforçou a necessidade de “subir o andar” das investigações e começar a apurar a participação de políticos em grupos ligados ao crime organizado.
A CPI vai apurar a estrutura e o funcionamento do crime organizado no Brasil, especialmente as milícias e os grupos de tráfico de drogas. A comissão foi idealizada pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE). A comissão deve durar 120 dias.
A próxima sessão da CPI será realizada nesta quarta-feira (19) e vai ouvir Antônio Glautter de Azevedo Morais, diretor de Inteligência Penal da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen).
