A prisão do presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro — um banqueiro bilionário ligado a um esquema criminoso que movimentava títulos falsos dentro do Sistema Financeiro Nacional — escancarou algo que a esquerda vem denunciando há meses: há setores do bolsonarismo que simplesmente não querem que a Polícia Federal tenha autonomia e instrumentos para seguir o rastro do dinheiro.
A Operação Compliance Zero não nasceu do nada. Ela é mais uma peça de um quebra-cabeça que revela como facções criminosas, operadores financeiros e políticos de direita se articulam para blindar interesses que vão muito além do crime comum. Quando a investigação chega perto da Faria Lima — ou dos governos bolsonaristas estaduais — a reação é sempre a mesma: enfraquecer a PF, mutilar projetos de lei e fabricar atalhos jurídicos para impedir o confisco de bens de quem lucra com o crime organizado.
É nesse contexto que volta à cena o deputado Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança do governador Tarcísio de Freitas. Tarcísio não tirou seu secretário do governo à toa: articulou, junto com Hugo Motta, a volta de Derrite à Câmara exatamente para assumir a relatoria do PL Antifacção, um projeto estruturante do governo Lula para acabar com o motor financeiro das facções.
O resultado? O relatório apresentado pelos bolsonaristas descaracteriza o projeto, cria brechas para blindar operadores do sistema financeiro e tenta amputar o poder da Receita e da Polícia Federal para recuperar bens do crime — justamente o que permitiu apreender R$ 1,2 bilhão e quatro navios da Refit na Operação Carbono Oculto.
Não se trata de divergência técnica. É política pura. É ação coordenada. É medo.
A cada operação da Polícia Federal que atinge grandes fortunas, atravessadores financeiros e agentes públicos suspeitos, cresce a ofensiva da direita para desmontar o PL Antifacção. E fica cada vez mais evidente o motivo: fortalecer o projeto original significa abrir caminho para investigações que mexem com gente poderosa.
Quando a PF chega, não caem apenas milicianos ou chefes do tráfico: caem também políticos, banqueiros, investidores da Faria Lima e governantes que fazem a engrenagem girar. É por isso que eles se desesperam. É por isso que tentam cortar R$ 360 milhões da PF e destruir o mecanismo de confisco de bens.
O que está em jogo não é apenas o enfrentamento às facções, mas a disputa por quem controla o Estado brasileiro: o Brasil republicano, que investe em investigação e protege o interesse público, ou o Brasil capturado, onde a lei só vale para pobres, enquanto o colarinho branco e seus aliados políticos seguem intocados.
A esquerda precisa manter firme a defesa do texto original do governo Lula. Sem blindagens. Sem atalhos. Sem proteção para banqueiros, governadores e operadores do bolsonarismo.
Fortalecer a PF é fortalecer o Brasil — e é exatamente isso que eles querem impedir.
*Everton Gimenis é vice-presidente da CUT/RS
**A opinião contida neste texto não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
