A exposição Ainda que não recorde abre na próxima terça-feira (25), às 19h, no Centro Cultural da Ufrgs. É uma mostra para revelar uma outra face da história da ditadura brasileira (1964-1985) e da Operação Condor, envolvendo repressores militares do Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile nos anos 1970.
O sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Diaz (já falecido) por militares uruguaios, com ajuda de brasileiros, ocorreu em um domingo tranquilo, 12 de novembro de 1978, e se tornou em grande “furo”* da revista Veja, obra do jornalista Luiz Cláudio Cunha e do fotógrafo João Batista Scalco (já falecido). Aconteceu por acaso através de um telefonema anônimo.
Junto com Lilian e Universindo estavam os filhos dela, Camilo (8 anos) e Francesca (3). Lilian foi casada com outro revolucionário, Hugo Casariego. Ela e Universindo, integrantes e militantes do Partido por la Victoria del Pueblo (PVP), marxista, estavam aqui instalados com a tarefa de denunciar violações dos direitos humanos no Uruguai.
A exposição é justamente da uruguaia Francesca Cassariego, artista, cineasta e estudiosa das artes, e apresenta obras que traduzem em gesto artístico o trauma do sequestro sofrido pela artista, na rua Botafogo do bairro Menino Deus, em Porto Alegre. “Minha pouca idade me tornou privilegiada por não recordar desta história. A ausência de memória me ajudou a crescer em paz. Ainda assim, essa experiência me constitui”, diz a artista Francesca. “Não tinha idade para entender”, afirmou.

A mostra propõe um olhar, uma viagem e um reencontro com a violência política que atingiu a América do Sul na metade do século 20. Será um episódio de reconstrução simbólica da memória, “para transcender o horror e propor uma experiência estética que produza memória e construa o futuro”, disse Francesca em entrevista para o evento.
Ainda que não recorde apresenta três obras interligadas: um painel de papel alumínio com inscrições em alto relevo rememora a maneira como a mãe de Francesca se comunicava durante o cativeiro; tapetes simbolizam o relato do irmão sobre as transferências forçadas de crianças durante os regimes ditatoriais; e um vídeo conduz o público até o presídio de Punta de Rieles, no Uruguai, conectando passado e presente em uma travessia silenciosa e poética, conforme relata a apresentação do evento.
A mostra é uma parceria do Centro Cultural da Ufrgs com o Programa de Pós-Graduação em História, e tem apoio do Consulado-Geral do Uruguai em Porto Alegre, da Facultad de Artes, Udelar e da Viação EGA. A exposição fica aberta à visitação na Sala Laranjeira até o dia 10 de março de 2026, de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, com entrada franca.
Quem é Francesca Cassariego
Francesca Cassariego nasceu em Milão, Itália, em 1975, numa das andanças de “fuga” da repressão, mas é uruguaia de coração. É doutoranda em Artes pela Faculdad e Arte da Universidad Nacional de La Plata (UNLP) e mestra em Arte e Cultura Visual pela Facultad de Artes da Universidad de la República (UdelaR). Atua como docente na Facultad de Artes da UdelaR e como diretora do Tenemos Que Ver – Festival Internacional de Cinema e Direitos Humanos do Uruguai, do qual também é co-fundadora.
Em 2024, recebeu o Gran Premio Adquisición del MEC, no Prêmio Nacional de Artes Visuales Clever Lara, com a obra Envueltos. Em 2023, realizou sua primeira exposição individual no Espacio de Arte Contemporáneo (EAC), no Uruguai, e foi selecionada no 51º Prêmio Montevideo de las Artes Visuales. Participou da exposição coletiva Presencias ausentes, junto ao colectivo Jacarandá Cultura de la Memória, como artista e curadora. Também foi selecionada no 59º Prêmio Nacional de Artes Visuales Margaret Whyte.
Participa de grupos de pesquisa e extensão, na comissão da Cátedra Unesco da UdelaR, e integra o Grupo Interdisciplinario de Mujeres sobre Memoria en Uruguay (GIMMUR). Trabalhou ainda como produtora audiovisual e como jurada em diferentes festivais de cinema. Também atua como ativista, designer gráfica e gestora cultural.
Como diretora do Tenemos que Ver, Francesca é uma cineasta dedicada aos direitos humanos e às migrações, segundo entrevista que concedeu a um site de Montevidéu. Lá ela disse que “os filmes não podem mudar o mundo, mas as pessoas que os assistem sim…”
Ela enfatiza que acredita que o cinema é uma ferramenta poderosa na hora de mostrar diferentes realidades. Ele nos coloca em situações a partir de outro lugar, de outra sensibilidade, e assim nos aproxima da vida do “outro”, derrubando barreiras que em alguns lugares nos colocam como intransponíveis.
“O cinema que nós propomos nos convida à reflexão, a questionar como seres humanos, a nos desafiar, e nos define capazes de construir novas realidades, posicionando-nos como responsáveis e não como meros espectadores da vida política e social que vivemos.”
Com relação às migrações, reafirma que as ondas migratórias são potencializadas pela midiatização. “Entendo como fundamental tratar a migração como um direito humano, não só em relação ao direito de escolher onde viver, mas também porque na maioria dos casos a migração está associada à violação dos direitos essenciais.”
Segundo a cineasta, o primeiro é o direito à vida, a qual em muitos casos é perdida na tentativa de chegar ao lugar de destino, mas também o direito à dignidade, saúde, educação, ao trabalho, entre muitos outros. “Proponho voltar o olhar para migração como um enriquecimento da diversidade cultural local e também como caminho real para o desenvolvimento global. Apelamos para a construção de uma atitude positiva das pessoas que recebem, consolidando o respeito pela diversidade em uma cultura de direitos humanos.”
O sequestro
O evento de “sequestro dos uruguaios em Porto Alegre” transformou-se em um caso histórico notável ocorrido em novembro de 1978, durante a ditadura militar brasileira, no contexto da Operação Condor.
O caso envolveu o sequestro dos ativistas políticos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Rodríguez Díaz e as duas crianças por forças militares e policiais conjuntas do Brasil e do Uruguai, que agiam clandestinamente em Porto Alegre. Aqui na capital gaúcha, destacaram-se na operação os policiais Pedro Seelig e ‘Didi Pedalada’, ex-jogador de futebol. Lilian não era companheira de Universindo, mas sim militantes marxistas.
O sequestro foi desvendado graças a um telefonema anônimo que alertou o jornalista Luiz Cláudio Cunha, da revista Veja. A cobertura da imprensa brasileira e a mobilização de advogados da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e entidades de direitos humanos foram cruciais para que o crime não ficasse impune, trazendo o caso à atenção pública e forçando a libertação das vítimas.
Em 2022, 44 anos após o ocorrido, militares uruguaios envolvidos no sequestro foram presos no Uruguai, em um ato considerado uma “reafirmação democrática” por Lilian Celiberti.
Serviço
Encontro com Lilian Celiberti e os filhos Camilo Casariego e Francesca Cassariego, com mediação de Carla Rodeghero
Data: 25 de novembro (terça-feira)
Horário: 17h
Local: Centro Cultural da Ufrgs – Sala Ipê (Rua Eng. Luiz Englert, 333 – campus centro, acesso pelo andar térreo)
Evento tem entrada gratuita e não requer inscrição prévia.
Visitação até dia 10 de março de 2026, de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h.
* Furo no jargão jornalística significa notícia exclusiva, que só um jornalista ou veículo de comunicação têm.
