Tarifaço

Recuo de Trump mantém prejuízo à indústria e exige transparência nas negociações, diz economista

Paulo Kliass alerta para possíveis concessões brasileiras ainda não reveladas e vê bolsonarismo isolado

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EUA retiraram tarifas sobre commodities brasileiros, mas setor industrial não foi contemplado
EUA retiraram tarifas sobre commodities brasileiros, mas setor industrial não foi contemplado | Crédito: Divulgação/SM Gesso

O recuo do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no tarifaço contra produtos brasileiros trouxe um alívio imediato para setores do agronegócio e de exportação mineral brasileiros, mas mantém prejuízos importantes para a indústria nacional, alerta o economista Paulo Kliass, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

“Esses setores continuam sendo prejudicados, porque ainda mantém as tarifas norte-americanas muito altas”, explica Kliass. Diferentemente das commodities, produtos industrializados têm pouca flexibilidade para reorganizar mercados. “Você não pode arranjar outro cliente que vai comprar esse meu avião”, exemplifica.

O economista alerta ainda que os EUA podem ter solicitado contrapartidas pouco transparentes. “Será que o Brasil está oferecendo alguma coisa interessante para eles?”, questiona, citando possíveis pressões envolvendo terras raras, petróleo na Foz do Amazonas e big techs estadunidenses.

Por isso, ele defende que haja uma máxima vigilância enquanto o governo brasileiro não detalhar o que vem sendo negociado com os EUA. “Enquanto não tiver transparência, luz e oxigênio nesse debate, ainda temos que ficar bastante cautelosos e ressabiados”, aponta.

Kliass sintetiza o momento com a metáfora do “bode na sala”. “A situação está muito ruim. Você bota o bode na sala, fica pior. Aí você tira o bode, e todo mundo acha que está uma maravilha. Só que você só voltou à situação anterior. E nem tiramos o bode inteiro, porque a sala ainda está muito fechada e fedida”, diz.

Acreditar em Bolsonaro ‘foi roubada’

Segundo o economista, a reversão das sobretaxas não pode ser vista apenas como um resultado da diplomacia brasileira. Há uma combinação de fatores, e Trump tende a “recuar ainda mais”. Kliass lembra que o republicano costuma adotar medidas ruidosas e generalizadas, mas gradualmente volta atrás diante da pressão internacional. “Ele dá tiro para tudo quanto é lado, muito mais uma coisa até verborrágica do que efetivamente de decisões de governo”, afirma.

Mas, além disso, observa, o presidente dos EUA abandonou a leitura da política brasileira pautada pelo bolsonarismo. “Ele perdeu esse encanto todo que ele tinha com o [ex-presidente Jair] Bolsonaro e está convencido de que foi uma roubada ter comprado a versão de Bolsonaro a respeito da realidade brasileira”, diz.

Com isso, figuras bolsonaristas, já isoladas nacionalmente, também perderam espaço em Washington. “O filho dele, o [deputado] Eduardo Bolsonaro, provavelmente vai ser preso, ele não pode mais voltar para o Brasil; Paulo Figueiredo [blogueiro bolsonarista] também. Eles deixaram de ser interlocutores junto à Casa Branca”, analisa.

Na leitura de Kliass, a mudança fortalece a atuação institucional do governo brasileiro em temas comerciais. “O chanceler Mauro Vieira, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o próprio presidente Lula recuperaram protagonismo”, indica. Ainda assim, ele ressalta que Trump continua sendo “uma figura de extrema direita, super conservador, muito autoritário”, guiado por forte pragmatismo.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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