No ano em que Frantz Fanon completaria 100 anos, Mireille Fanon Mendés-France, presidente da Fundação Frantz Fanon e filha do médico, psiquiatra e revolucionário martinicano, realizou uma série de atividades no Brasil. No Rio Grande do Sul, participou de uma conferência promovida pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS/Ufrgs) e pela Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe), realizada na segunda-feira (24), que lotou o auditório de Arquitetura da universidade, em Porto Alegre.
Além de Mireille, o encontro contou com a participação do pesquisador Deivison Faustino (USP) e mediação do professor Handerson Joseph (PPGAS/Ufrgs). A abertura teve representantes da Reitoria e da Pró-Reitoria de Ações Afirmativas e Equidade (Proafe/Ufrgs), Alan Alves e Rita Camisolão. A programação também incluiu apresentações artísticas de Nina Fola e Loua Paco.
“Fanon vem de um território colonizado”
Jurista, consultora da Organização das Nações Unidas (ONU) e ativista de direitos humanos, Mireille Fanon Mendés-France iniciou sua fala contextualizando a trajetória do pai. Explicou que, apesar de a Martinica ser comumente descrita como “território ultramarino francês”, a expressão oculta que se trata, na verdade, de um território colonizado, assim como Guadalupe, Reunião, Polinésia e Kanaky.
Segundo ela, Fanon não pode ser compreendido como “um homem no ar”, cuja vida começaria ao chegar à Argélia. “Antes disso, ele já havia experimentado diversas manifestações de racismo e dominação colonial”, afirmou.
Ainda jovem, Fanon presenciou crianças descendentes de pessoas escravizadas serem obrigadas a homenagear Josefina de Beauharnais, esposa de Napoleão, o mesmo Napoleão que reinstaurou a escravidão em 1802 após pressões de proprietários de escravizados. Aos 17 anos, Fanon decidiu se alistar para lutar contra o nazismo. “É interessante pensar nisso: um jovem colonizado que luta para libertar o país colonizador”, disse Mendés-France.
O próprio Fanon mais tarde reconheceria o equívoco dessa escolha. Ele e outros jovens tentaram atravessar o mar até a ilha da Dominique sem autorização, foram detidos durante uma tempestade e enviados para treinamentos militares na Argélia, junto a soldados senegaleses, deixando evidente que não eram considerados franceses.

A crítica à psiquiatria colonial
Ao começar a trabalhar como psiquiatra, Fanon percebeu que os métodos vigentes eram expressão direta do pensamento colonial. “Fragmentava-se o sujeito, apagava-se o contexto social e tratava-se a pessoa como um indivíduo isolado”, explicou Mendés-France. Na Argélia, isso se agravava com teorias racistas que defendiam que argelinos tinham “cérebro menor” e seriam incapazes de sair da doença mental.
No hospital de Blida-Joinville, Fanon rompeu com tal lógica ao integrar médicos, pacientes, trabalhadores e atividades coletivas no tratamento. Para ele, a doença mental era uma tríade entre sujeito, sociedade e cotidiano, nunca um fenômeno individualizado. Essa posição radical também fez com que sua tese crítica à psiquiatria tradicional fosse rejeitada na França, sendo aprovada apenas após modificações.
“Desfragmentar o saber é compreender o sujeito em sua relação com o mundo”, afirmou Mireille, defendendo que essa postura permanece atual frente ao avanço de ideologias fascistas que dependem da fragmentação do pensamento.
Mendés-France também criticou a forma como a categoria “negritude” é frequentemente utilizada. Para ela, muitas vezes funciona como tentativa de “se arranjar com o fato de ser negro”, quando, na verdade, deveria ser compreendida como identidade e forma de resistência, como defendeu Aimé Césaire. Segundo ela, Aimé Césaire acreditava na participação política e na convivência, mas a integração plena jamais foi possível porque o Estado e a economia não admitiam essa possibilidade.

Distorções contemporâneas do pensamento de Fanon
Mendés-France ressaltou sobre o uso distorcido de Fanon em análises recentes. Um exemplo citado foi o texto de Louis Bordon, que afirmou que Fanon “não teria apoiado o Hamas, teria apoiado Israel”. Ela classificou essa interpretação como uma inversão grave. “É como se, de repente, o direito de resistir ao ocupante tivesse se tornado ilegítimo.”
Outro caso foi o artigo do ensaísta Adam Schatz, publicado no New York Times, que descreveu a violência palestina como “barbárie”, sem reconhecê-la como resistência anticolonial. Para Mendés-France, tais leituras normalizam narrativas que servem aos aparelhos de repressão.
Ela criticou também discursos oficiais, como declarações de Emmanuel Macron, descrito como representante de um sistema financeiro racista, incompetente e alheio ao sofrimento popular, e manipulações promovidas por entidades como a Fundação Jean-Jaurès. Segundo Mendés-France, ao citar seletivamente Fanon para rejeitar reparações, a instituição distorce intencionalmente sua obra. “Fanon falava de reparação coletiva, da devolução do que a Europa roubou dos povos colonizados.”
Colonialismo, capitalismo global e Gaza
Ao discutir as violências contemporâneas, Mendés-France situou o caso palestino como continuidade direta do colonialismo e do capitalismo mundial. Para ela, a comunidade internacional é essencialmente responsável pelo que ocorre em Gaza. “A criação do Estado de Israel é uma criação fictícia, construída contra um povo, contra o direito à autodeterminação.”
Ela lembrou que pressões econômicas e políticas, especialmente dos Estados Unidos e da França, foram decisivas na aprovação da criação do Estado israelense. “Esse é o modo de funcionamento do sistema capitalista: chantagem, coerção e imposição.”
Comparou o processo ao envio de fragatas francesas ao Haiti para forçar o país a reconhecer uma dívida ilegal após sua independência. “Olhem como opera a força até hoje”, disse. Da mesma forma, afirmou, nenhum cessar-fogo em Gaza ocorre sem a aprovação dos Estados Unidos.
Segundo Mendés-France, crimes como escravização, colonização e imperialismo jamais receberam julgamentos equivalentes aos de Nuremberg. “É impossível, porque a violência continua. Há povos camponeses e indígenas que seguem sendo explorados.”
A filha de Fanon destacou que libertar-se do colono é distinto de libertar-se da ideologia colonial, algo ainda não alcançado em muitos países africanos. “Todos os povos são empurrados a aderir ao modelo eurocêntrico, baseado na democracia liberal, que falhou em libertá-los.”
Para a pesquisadora, quem denuncia o caráter colonial do Estado de Israel enfrenta repressão: cancelamentos de eventos, proibições de viagem e censura. “Quando você diz que Israel é um Estado colonialista, é proibido de se reunir ou falar.”
Ela relacionou essa repressão ao controle crescente da internet por interesses financeiros. Se antes a rede estimulava resistência e convergência, agora é alvo de vigilância e controle. Mendés-France questionou as possibilidades de uma transformação radical. “Quais seriam hoje os motivos para uma ruptura absoluta? E será que os povos estariam dispostos a ela?”
A pergunta permanece sem resposta, mas é essencial para pensar resistência no presente.

Fanon e a inseparabilidade entre capitalismo e racismo
Mendés-France reforçou a relevância do pensamento anticolonial de Fanon para compreender os desafios contemporâneos. Segundo ela, Fanon “ultrapassou composições”, sendo movido simultaneamente pela dor, pelo ressentimento e pela resistência. Lembrou que, mesmo quando atuava como representante do governo argelino na França, “uma espécie de embaixador”, ele não abandonou a psiquiatria. “Foi expulso da Argélia, mas continuou a exercer. Isso é essencial: não podemos agir sobre o mundo se permanecermos numa posição infantil”, afirmou.
Fanon desafiou a fragmentação produzida pelo sistema colonial e sua experiência oferece uma orientação fundamental. “Ele nos engajou a jamais ceder, a jamais renunciar”. Para Mendés-France, não há respostas simples, pensar a decolonialidade aprofunda o combate anticolonial, colocando no centro a pergunta sobre o que significa ser humano no mundo.
Segundo ela não existe capitalismo sem racismo e não existe racismo que não esteja imbricado no capitalismo. “O que nos exige hoje é reconstruir a voz negra para estabelecer uma relação de força capaz de confrontar o mandamento colonial.”
Conferência de 1956: mensagem ainda atual
Mendés-France compartilhou um texto pouco conhecido, encontrado por um jovem pesquisador em documentos dos serviços secretos franceses, da Conferência Internacional da Juventude em 1956. Ela destacou que a mensagem permanece atual, e que substituindo “Argélia” por “Palestina”, percebe-se sua pertinência para conflitos contemporâneos:
“Eu me dirijo a vocês, todos jovens, porque 100 mil soldados africanos podem ser substituídos pelos franceses convocados. Os 100 mil soldados africanos retirados não são suficientes para fazer triunfar nosso direito à liberdade. Esse triunfo será assegurado pelas ações conjuntas de todas as nações do mundo, de todas as juventudes do mundo. (…) Mas a guerra da Argélia continua e desfigura, a cada dia, um pouco mais, o ser humano. Nós nos salvaremos todos ou seremos todos aniquilados. (…) A tortura da liberdade de um povo, na Argélia… como imaginar que podemos ficar indiferentes? Salvar o mundo com vocês, é isso, em definitiva, o imperativo moral.”

A recepção de Fanon no Brasil e no mundo
O professor Deivison Faustino apresentou um panorama histórico da recepção de Fanon. Destacou como sua obra foi apropriada por correntes antirracistas, marxistas, decoloniais e pós-coloniais, refletindo também no Brasil. Segundo ele, compreender Fanon no país exige inseri-lo na trajetória das esquerdas do século 20 e das lutas de libertação na África, Ásia e Caribe.
“É nesse cenário que entendemos como Fanon era lido e como passa a ser lido recentemente”, explicou Faustino, observando que a análise de quem lê Fanon em cada época ajuda a entender disputas em torno de seu legado.
De acordo com o professor, Fanon foi um revolucionário anticolonial que analisou o capitalismo a partir de sua dependência do colonialismo, propondo as lutas anticoloniais como caminho para a emancipação. Segundo ele, Fanon foi “filho, e filho rebelde, do movimento da negritude, das lutas anticoloniais e do pan-africanismo anti-imperialista”, influenciado por eventos como a Conferência de Bandung e diversas lutas de libertação nacionais do século 20.
Durante as décadas de 1960 a 1980, Fanon foi amplamente lido como pensador da revolução. Intelectuais e movimentos do terceiro-mundismo, da América Latina ao Oriente Médio, encontraram em Os Condenados da Terra um instrumento para pensar rupturas radicais com o colonialismo. Sua influência alcançou desde setores das esquerdas latino-americanas até a Revolução Iraniana, além de líderes africanos como Amílcar Cabral e Thomas Sankara.
Nos anos 1980 e 1990, com a crise do socialismo e o neoliberalismo emergente, Fanon perdeu espaço nas leituras revolucionárias, mas foi “redescoberto” por autores dos estudos culturais britânicos, subalternos e pós-estruturalistas franceses. Homi Bhabha (estudioso e teórico crítico indiano-britânico), Stuart Hall ( teórico cultural e sociólogo britânico-jamaicano ), Spivak (Gayatri Chakravorty Spivak – crítica e teórica da literatura indiana), Achille Mbembe e outros passaram a lê-lo como crítico da identidade, da razão e da universalidade, deslocando o foco de Os Condenados da Terra para Pele Negra, Máscaras Brancas.

A recepção no Brasil
No Brasil, essa mudança também se manifesta. Os primeiros contatos com Fanon remontam aos anos 1950, quando intelectuais brasileiros participaram dos Congressos de Escritores e Artistas Negros em Paris (1956) e Roma (1959). Segundo Faustino, esse é um dos possíveis caminhos de entrada de sua obra no país.
O professor aponta que, na década de 1960, intelectuais brancos de esquerda tornaram-se os primeiros a mencionar Fanon. Paulo Freire desempenha papel central: em cartas, afirmou que Os Condenados foi fundamental para elaborar Pedagogia da Autonomia, especialmente ao pensar a relação oprimido/opressor. Outros nomes como Florestan Fernandes, Octavio Ianni e Renato Ortiz também dialogaram com Fanon, ainda que com ênfase nas análises de classe.
Fanon passou a ser mencionado por intelectuais negros apenas nos anos 1980, com o surgimento do Movimento Negro Unificado (MNU). Isso se deve à histórica exclusão de pesquisadores negros da academia e da publicação de livros. Autores como Clóvis Moura e Lélia Gonzalez foram fundamentais para introduzir Fanon na discussão racial brasileira, aproximando sua análise do par colonizador/colonizado das categorias negro/branco.
Uma exceção precoce foi Neuza Santos Souza, que em 1983 leu e mobilizou Pele Negra, Máscaras Brancas, enquanto o restante do debate brasileiro permanecia concentrado em Os Condenados da Terra.
Crise, silenciamento e retomada
No final do século 20, Fanon perdeu espaço diante das políticas públicas, do neoliberalismo e da institucionalização da luta antirracista. Somente na década de 2000, com a chegada de estudantes negros às universidades via ações afirmativas, houve um renascimento do interesse por Fanon, impulsionado por coletivos como o Coletivo Fanon, que distribuía textos pirateados.
A partir de 2010, sua obra passou a ser lida sob múltiplas perspectivas: pós-colonial de língua inglesa, pensamento decolonial latino-americano, afrocentricidade, afropessimismo e afropolitanismo. Cada corrente reivindica um “Fanon” diferente.
Hoje, com toda a obra traduzida para o português, o debate gira em torno de qual Fanon está sendo lido e para quê. Faustino questiona: “A grande pergunta hoje é: que Fanon estamos lendo? Ele é só um nome famoso e bonito, ou inspira rebeldias, não apenas epistêmicas, mas rebeldias em todas as ordens da vida?”
Identidade, luta e tecnologia
Faustino retomou a crítica fanoniana à negritude: Fanon produziu uma crítica radical, porém dialética, que compreende que identidades subalternizadas podem se tornar instrumentos de aliança contra a opressão. O problema, segundo ele, é a leitura essencialista burguesa que se limita a afirmar “raízes do passado” para dissolver a dor do presente.
Fanon propõe que o colonizado se reconheça como sujeito e vincule sua emancipação ao combate a todas as formas de injustiça. “Esse ponto é fundamental para pensar o lugar da identidade nas lutas contemporâneas”, disse Faustino.
O professor também destacou a relação entre colonialismo e tecnologia. Fanon via a tecnologia como instrumento material e conjunto de saberes coloniais, que desqualificavam os conhecimentos locais. Ele mencionou o uso do rádio na Argélia como ferramenta colonial, posteriormente apropriada pela Frente de Libertação Nacional: “Todo conhecimento humano pertence também ao colonizado, e apropriar-se dele é condição para a luta.”
Capitalismo, racismo e descolonização
Faustino enfatizou que a modernidade europeia universalizou o capital negando a universalidade do humano. A escravidão foi condição para a circulação do capital global. “A democracia burguesa nasce no ventre da escravidão”, afirmou, citando exemplos como a Revolução Francesa e Americana.
Para o professor, Fanon continua relevante para compreender colonialismo e racismo contemporâneos, como na declaração de um ministro israelense em 2023: “Cortar água, comida e eletricidade de palestinos por considerá-los ‘animais’”.
O professor advertiu também para o risco de identidades se tornarem mercadorias, black money, pink money, desconectadas das estruturas que produzem opressão, como a especulação imobiliária que expulsa comunidades quilombolas no Rio Grande do Sul.
Emancipação e futuro
Para o professor, Fanon oferece instrumentos para pensar uma identidade que não seja liberal, essencialista ou fantasmagórica, mas que se constrói e se transforma na luta, aberta ao futuro. Afirma que o desafio atual é vivermos um movimento em que diferenças identitárias são mobilizadas sem mediação com as estruturas mais amplas que produzem opressão, levando inclusive a conflitos entre setores oprimidos. Fanon, ao contrário, defendia que a consciência de si é pressuposto para a comunicação e que o “eu” se constitui na relação com o outro.
Faustino lembrou ainda as críticas de Fanon às burguesias africanas que instrumentalizaram a identidade negra para manter privilégios e ocupar o lugar dos antigos opressores. Para Fanon, a descolonização deveria ser radical, implicando inclusive a superação das identidades que surgiram como armas de luta.
Por fim, o professor destacou a dimensão temporal da obra de Fanon. Embora profundamente ligado ao seu tempo, Fanon rejeitava a ideia de um presente fechado e convocava à invenção de um novo futuro. “Talvez esse seja o maior desafio que nos deixa: rasgar o tempo presente na direção de um outro momento histórico”, afirmou. Para Faustino, em um momento de crise climática generalizada, instabilidade econômica e ameaças à vida, Fanon continua sendo um autor indispensável para pensar emancipação e futuro.
