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Goiás entre o passado apagado e o presente com medo: memória, segurança pública e poder político 

Passado oligárquico da família Caiado é diluído, quando não simplesmente apagado

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Ronaldo Caiado, governador de Goiás desde 1 de janeiro de 2019
Ronaldo Caiado, governador de Goiás desde 1 de janeiro de 2019 | Crédito: Agência Brasil

Há algo profundamente revelador na forma como Goiás é governado hoje: enquanto se constrói um discurso oficial de modernização, eficiência e “ordem”, o passado é reescrito, a memória coletiva é seletivamente apagada e o presente é organizado em torno do medo, da intimidação e da violência estatal.

O resultado é um estado que se apresenta como vitrine de sucesso, mas opera sob uma lógica que muitos atores locais descrevem como um estado de exceção não declarado. 

Uma família no centro da República Velha – e fora da memória oficial 

A trajetória da família Caiado não é um detalhe lateral da história goiana: ela é uma das colunas centrais da República Velha e da política regional. Pesquisas históricas mostram que o clã está presente em Goiás desde o século 18, com registros de Manoel Caiado de Souza em Vila Boa de Goiás em 1722.  

Ao longo da Primeira República, nomes como Antônio Ramos Caiado (Totó Caiado), Brasil Ramos Caiado e Leonino Di Ramos Caiado ocuparam cargos de deputado federal, senador, presidente do estado de Goiás e governador, liderando uma das mais fortes oligarquias regionais do país a partir da antiga capital, a cidade de Goiás (hoje Goiás Velha).

Esse grupo familiar participou diretamente dos conflitos em torno da Revolução de 1930 e da criação de Goiânia, que reposicionou o eixo político-administrativo do estado e mexeu com interesses enraizados na velha elite de Vila Boa. 

Apesar disso, quase nada disso aparece na comunicação oficial do governo atual. O passado oligárquico da família é diluído, quando não simplesmente apagado. No lugar, constrói-se uma narrativa em que Goiás é apresentado como um estado cuja identidade histórica se confunde com o agronegócio, a pecuária, a “vocação produtiva” do campo.

Essa leitura coincide com a principal base econômica, social e eleitoral do governador. 

Quando a memória pública deixa de mostrar que a família hoje no poder comandou o estado na República Velha, liderou coronelismos, disputou a própria configuração territorial do estado e se reacomodou após a Era Vargas, cria-se a impressão de que se trata apenas de um gestor “técnico”, bem-sucedido, nascido fora de qualquer história de poder oligárquico. Mas os dados biográficos mostram outra coisa. 

Do coronelismo ao “governador gestor”: o caminho de Ronaldo Caiado 

Ronaldo Caiado é médico ortopedista, produtor rural e fruto direto dessa linhagem política. Seu avô Totó Caiado foi deputado federal e senador; seu tio Leonino Di Ramos Caiado governou Goiás nos anos 1970.

O próprio Ronaldo projetou-se nacionalmente como liderança ruralista: presidiu a União Democrática Ruralista (UDR) nos anos 1980, entidade criada para organizar grandes proprietários rurais contra a reforma agrária, e construiu sua carreira parlamentar a partir das pautas da agricultura, da pecuária e do conservadorismo político.

Hoje, no governo estadual, sua biografia pública é frequentemente apresentada como a de um médico que “se sacrificou” pela política e “colocou Goiás nos trilhos”, com uma gestão eficiente e uma segurança pública exemplar. Em 2019 e 2022, foi eleito e reeleito no primeiro turno, consolidando uma aprovação que pesquisas recentes chegam a apontar na casa de mais de 80% de avaliação positiva.

Mas essa imagem de eficiência e modernização precisa ser confrontada com dois elementos centrais: o modelo de segurança pública adotado; e o clima de medo e intimidação que se instalou em torno de críticas a esse modelo. 

      Segurança pública como vitrine – e como zona de sombra 

      É em torno da segurança pública que o governo construiu boa parte de seu capital político recente. A narrativa é conhecida: queda nos homicídios, “tolerância zero” com o crime, polícia “forte” e “respeitada”, sensação de ordem retomada. De fato, os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que Goiás vem registrando, nos últimos anos, redução das mortes violentas intencionais (homicídios, latrocínios, lesão seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial somadas). 

      Por outro lado, reportagens que analisam os mesmos dados apontam um quadro mais complexo: a queda expressiva dos homicídios (52% em seis anos, segundo um levantamento recente) foi acompanhada pela manutenção de uma participação elevada da polícia nas mortes, o que significa que uma parcela importante das mortes violentas continua relacionada à ação estatal.

      Ou seja: o governo divulga os números agregados como prova de uma política “eficiente”, mas o debate sobre os custos dessa política, a qualidade das investigações, o perfil das vítimas e o controle sobre a letalidade policial permanece obscurecido. Ao mesmo tempo, profissionais da área que defendiam uma abordagem mais técnica e menos espetacularizada foram sendo afastados ou deixaram seus postos. 

      A imagem pública é a da “segurança exemplar”. A realidade é a de um modelo fortemente militarizado, pouco transparente no controle da violência policial e muito dependente de operações de comunicação. 

      Quando criticar a polícia vira problema de segurança pessoal 

      A face mais visível desse clima apareceu no episódio envolvendo o desembargador Adriano Linhares Camargo, do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO). Em 2023, durante um julgamento, ele fez uma crítica dura ao desempenho da Polícia Militar de Goiás e chegou a propor, em tom reflexivo, a ideia de extinção da PM como forma de repensar o modelo de segurança, argumentando que a corporação não entregava os resultados esperados e acumulava casos de abuso.

      A reação do governador foi imediata: gravou vídeo atacando o magistrado, sugerindo que ele estaria “atentando contra o Estado Democrático de Direito” ou até “cooptado pelas forças do crime”, e defendendo seu impeachment. Pouco depois, o TJGO decidiu suspender Adriano Linhares cautelarmente. O caso ganhou repercussão nacional, e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), posteriormente, determinou a recondução do desembargador, corrigindo a medida. 

      O recado político, porém, já estava dado: criticar a segurança pública em Goiás pode ter custo pessoal alto, mesmo para um desembargador.

      O afastamento, o ataque público do governador e o peso simbólico de um pedido de impeachment contra um magistrado em pleno exercício de suas funções jogam um balde de água fria sobre qualquer disposição interna de contestar a política oficial. 

      Esse mesmo desembargador, Adriano Linhares Camargo, estava ligado a processos sensíveis, entre eles o caso do assassinato do empresário Fábio Escobar, executado com tiros à queima-roupa em 2021. Depois da reação furiosa do governador às suas falas sobre a PM, Adriano declarou-se suspeito para atuar em ações relacionadas à morte de Escobar, por motivo de foro íntimo, afastando-se desses processos.

      A mensagem, de novo, é clara: há limites não escritos para a atuação de quem se disponha a contrariar o núcleo duro da política de segurança do governo. 

      Medo, perseguição e a sensação de um estado de exceção 

      Esse contexto ajuda a entender por que tantas pessoas em Goiás descrevem o ambiente atual como um estado de opressão e medo. Não se trata de um “estado de sítio” formal, com suspensão de garantias constitucionais, mas de algo mais difuso: um estado de exceção social e político, em que certas críticas deixam de ser apenas divergência e passam a ser percebidas como afronta a uma autoridade que se confunde com a própria ordem. 

      Servidores públicos, lideranças de movimentos sociais, advogados, jornalistas e até integrantes do sistema de justiça relatam, muitas vezes em off, o temor de sofrer retaliações caso questionem o governo ou a linha oficial da segurança pública. A autocensura vira mecanismo de defesa. A crítica pública torna-se rara, mais pela percepção de risco do que pela ausência de motivos. 

      Nesse cenário, o moralismo conservador e o militarismo simbólico cumprem um papel central: o governo se apresenta como defensor da “família”, da “ordem”, do “bem contra o mal”.

      Quem diverge é facilmente enquadrado como inimigo da sociedade, defensor de bandidos, ameaça à paz social. Essa narrativa legitima, aos olhos de parte da população, o endurecimento da polícia, o aumento da letalidade em determinadas comunidades e a perseguição política a vozes dissonantes. 

      Quando o governo interfere publicamente em debates internos da Justiça, ataca desembargadores, pressiona instituições e controla com força seus canais de comunicação, a fronteira entre gestão democrática e uso do aparelho estatal para autoproteção política fica perigosamente borrada. 

      Entre a história apagada e o presente amordaçado 

      No fim, os fios se encontram: uma família com longa trajetória oligárquica, central na política da República Velha, reaparece no século 21 com um discurso de renovação; a memória desse passado é apagada ou diluída; a identidade goiana é reduzida a um imaginário agropecuário que coincide com a base social do governo; a segurança pública é transformada em vitrine, mesmo com alta participação policial nas mortes; e quem ousa questionar esse arranjo passa a conviver com a sombra da retaliação. 

      Goiás vive, formalmente, uma democracia com eleições, parlamento, tribunais, controle externo. Mas o modo como poder, memória e medo se articulam no cotidiano mostra um quadro bem menos confortável.

      Quando desembargadores precisam recuar, quando casos como o de Fábio Escobar se arrastam em meio a pressões políticas, quando a crítica é silenciada antes mesmo de ser formulada, a pergunta que fica é: que tipo de ordem é essa que precisa de tanto silêncio para se sustentar?

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      *Camilo Bueno Rodovalho é membro da coordenação executiva da ABJD e da diretoria jurídica da Rede Lawfare Nunca Mais

      **Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.

      Editado por: Clivia Mesquita

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