O ex-presidente da Bolívia Luis Arce Catacora (2020–2025) foi preso nesta quarta-feira (10) na cidade de La Paz, acusado de corrupção na gestão de recursos do Fundo de Desenvolvimento Indígena Originário Campesino e Agropecuário (Fondioc). A detenção foi anunciada por autoridades do novo governo, mas gerou reação imediata de ex-ministros e parlamentares, que apontam ilegalidades no processo e afirmam ver indícios de perseguição política.
A prisão ocorreu cerca de um mês após Arce deixar a Presidência e ser sucedido por Rodrigo Paz, de direita. O episódio foi denunciado por aliados do ex-presidente como um “sequestro”, devido à ausência de mandado judicial, à falta de notificação prévia e à condução do ex-mandatário por agentes à paisana, em um veículo sem identificação oficial.
“Estamos em um círculo vicioso de perseguição política. Isso não é correto para o país”, afirmou o ex-senador Omar Aguilar, do Movimento ao Socialismo (MAS), pedindo respeito ao devido processo legal. O ex-ministro Edgar Montaño também criticou a operação, que classificou como “aberração jurídica”, e questionou a reabertura do caso oito anos depois dos fatos investigados.
“O Ministério Público deveria ter notificado legalmente a Arce para que se apresentasse. Somente no caso de ele resistir e não aparecer, então deveria pedir a prisão. Um fiscal não pode prender, tem que passar à jurisdição de um juiz”, disse Montaño.
“Mais uma vez fica claro tratar-se de um tema político. Mas, além disso, o fiscal diz que Arce poderia ter fugido, quando todos os bolivianos vimos que Luis Arce está trabalhando como professor universitário, tem família conhecida e tem um domicílio conhecido”, concluiu.
Vice-presidente celebra prisão e fala em nova ofensiva
A ação foi celebrada publicamente pelo vice-presidente Edman Lara, que gravou um vídeo no TikTok parabenizando as forças policiais e prometeu responsabilização contra “os mais altos escalões” do antigo governo. Sem apresentar provas, ele acusou Arce de peculato e declarou: “Aqueles que roubaram deste país devolverão cada centavo. Morte aos corruptos”.
A fala de Lara reforçou o tom político da operação. Segundo juristas ouvidos pela imprensa boliviana, a prisão de um ex-presidente sem mandado judicial exigiria risco de fuga iminente, o que não se aplicaria a Arce.
O ex-presidente permanece em cela da Força Especial de Luta Contra o Crime (Felcc), em La Paz, aguardando audiência cautelar. Segundo a promotoria, a imputação formal deve ser apresentada ainda nesta quinta-feira (11).
Ruptura interna na esquerda e avanço conservador
A prisão de Arce aprofunda a crise do campo popular na Bolívia. Em novembro, ele foi formalmente expulso do MAS (Movimiento al Socialismo), legenda que o levou à Presidência em 2020 com o apoio de Evo Morales. A ruptura entre os dois líderes, que já vinha se desenhando desde 2023, culminou em disputas internas e no enfraquecimento eleitoral do partido.
O MAS obteve apenas 3,17% dos votos nas eleições de agosto de 2025, marcadas pela vitória de Rodrigo Paz, que prometeu cortar subsídios, privatizar estatais e adotar um modelo de “capitalismo para todos”. Após a posse, o novo governo anunciou reformas judiciais, flexibilização de leis trabalhistas e reaproximação com Israel.
Ainda em novembro, o Tribunal Supremo de Justiça determinou a libertação da ex-presidente Jeanine Áñez, do governador Luis Fernando Camacho e do ex-dirigente Marco Pumari, figuras centrais no golpe de Estado de 2019. A soltura coincidiu com a abertura de novas ações judiciais contra lideranças populares.
Fundo Indígena e acusações
O caso que motivou a prisão de Arce remonta ao período em que ele foi ministro da Economia durante os governos de Evo Morales. O Ministério Público acusa o ex-presidente de autorizar transferências de recursos públicos do Fondioc para contas bancárias particulares, o que configuraria peculato e conduta antieconômica. Estima-se um dano econômico superior a 900 milhões de bolivianos.
A defesa de Arce ainda não se pronunciou oficialmente, mas ex-ministros afirmam que os repasses seguiam o padrão de execução de projetos aprovado por resoluções do próprio governo. Além disso, alegam que o caso já havia sido arquivado anteriormente e que a reabertura foi feita de forma seletiva.
