As tensões políticas em Honduras continuam aumentando. Em meio a persistentes denúncias de irregularidades, ingerência estrangeira e graves acusações de fraude eleitoral, já se passaram mais de quinze dias desde as eleições gerais, e o país ainda não conhece os resultados oficiais. A contagem definitiva de votos permanece paralisada.
Na madrugada desta terça-feira (16), a presidenta de Honduras, Xiomara Castro, denunciou que setores da direita ligados ao Partido Nacional tentam executar um “golpe” contra seu governo. Ela convocou a população a se mobilizar em Tegucigalpa, a capital do país, de forma “urgente e pacífica”, para “defender o mandato popular” e “rejeitar qualquer tentativa golpista”.
Por meio das redes sociais, a mandatária afirmou que, com base em “informações de inteligência verificadas”, o ex-presidente Juan Orlando Hernández, um dos principais líderes do Partido Nacional, tentaria “entrar no país” como parte de uma “agressão destinada a quebrar a ordem constitucional”.
Hernández cumpria pena em uma prisão de segurança máxima nos Estados Unidos por crimes relacionados ao tráfico de drogas, mas foi perdoado pelo presidente Donald Trump no dia seguinte às eleições gerais em Honduras.
Mobilizações e reivindicações
As declarações de Castro ocorreram horas depois de setores sociais e políticos se concentrarem em frente às instalações do Instituto Nacional de Formação Profissional (Infop), onde está previsto que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) realize a “apuração especial”, etapa crucial antes da proclamação dos resultados oficiais.
No local, os manifestantes, que montaram uma tenda, exigem uma recontagem “total e transparente” de 100% dos votos. As mobilizações foram convocadas principalmente pelo partido governista Libertad y Refundación (Libre); entretanto, diferentes setores ligados ao Partido Liberal, que apoiam Salvador Nasralla, também aderiram ao chamado para se mobilizar.
Entre os dirigentes liberais presentes nas manifestações, destacou-se a deputada Iroshka Elvir, esposa de Nasralla, que, acompanhada por um grupo de colaboradores de seu partido, convocou a população a se concentrar em frente ao Infop para exigir a contagem total dos votos.

Diante das contínuas reivindicações de diversos setores políticos, a presidenta do CNE, Ana Paola Hall, acusou os manifestantes de impedir o procedimento de contagem, afirmando que as reivindicações representam um “atentado inaceitável à democracia”.
Em resposta, o Partido Nacional acusa o governo de tentar bloquear o avanço da apuração especial e sustenta que a paralisação do processo equivale a um “autogolpe”. Além disso, exige que a recontagem seja concluída dentro dos prazos legais, já que o CNE tem como data limite 30 de dezembro para declarar o vencedor das eleições.
Em um episódio institucional grave, na noite de segunda-feira, a Polícia Nacional reprimiu os manifestantes que acampavam em frente ao Infop, deixando pelo menos uma pessoa ferida. A desocupação ocorreu sem autorização do governo.
“Quero ser clara: em meu governo não se reprime o povo hondurenho”, afirmou a presidenta Xiomara Castro em entrevista transmitida por canal estatal. A mandatária garantiu ter “dado instruções imediatas” ao chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas e ao comandante da Polícia Nacional, Gustavo Sánchez, “para cessar qualquer ação desproporcional e proteger a integridade das pessoas”.
“Nosso compromisso é com a paz, com a democracia e com os direitos humanos”, acrescentou Castro, assegurando que, como presidenta da república, vai garantir que as Forças Armadas e a Polícia Nacional investiguem o ocorrido e atuem imediatamente conforme a lei, incluindo a separação de quem participou da repressão à manifestação.
Principais disputas na apuração
O cerne do desacordo gira em torno do alcance da “apuração especial”. Segundo dados do próprio CNE, cerca de 2.773 atas eleitorais apresentam “inconsistências”, o que equivale a 14,5% do total. Calcula-se que nessas atas haja mais de 580 mil votos que podem ser determinantes para os resultados eleitorais, considerando que a diferença atual entre Nasry “Tito” Asfura, do Partido Nacional, candidato apoiado por Trump, e Salvador Nasralla, do Partido Liberal, é de apenas 40 mil votos.
Dentro do CNE, as conselheiras Cossette López-Osorio, ligada ao Partido Liberal, e Ana Paola Hall, ligada ao Partido Nacional, defendem que apenas essas atas devam ser revisadas. Já o conselheiro Marlon Ochoa, do Partido Libre, sustenta que é necessário revisar “voto por voto”, portanto, 100% das atas, que somam 19.167. O argumento é que, segundo seu partido, existem mais irregularidades do que o CNE reconhece oficialmente.
Para aumentar a tensão, a apuração especial estava programada para começar no último final de semana. No entanto, ainda não foi iniciada porque as Juntas Especiais de Verificação e Recontagem (JEVR), compostas por membros dos diferentes partidos, não foram formadas devido à falta de acordo sobre o alcance da contagem. Nesta instância, tanto o Partido Liberal quanto o Partido Libre argumentam que o número de atas que o CNE pretende revisar é insuficiente.
Paralelamente, a missão eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) instou as autoridades hondurenhas a iniciar imediatamente a apuração especial e a acelerar a publicação dos resultados oficiais. Com o calendário eleitoral avançando e uma margem estreita entre os principais candidatos, o processo permanece aberto e sob forte pressão política, social e internacional.
Segundo os últimos dados preliminares disponíveis, a diferença entre os dois principais candidatos foi mínima: Nasry “Tito” Asfura, do Partido Nacional, candidato apoiado por Trump, obteve 40,54% (1.305.033 votos), e Salvador Nasralla, do Partido Liberal, 39,20% (1.261.849 votos). Em terceiro lugar está Rixi Moncada, do Libertad y Refundación (Libre), com 19,30% (621.188 votos).
