Durante o ato de instalação da placa do Banco Vermelho, realizado nesta quarta-feira (17), na Casa dos Bancários, em Porto Alegre, o Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários) reafirmou seu compromisso com o enfrentamento à violência de gênero e com a memória das vítimas de feminicídio. A atividade integrou a programação dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres e contou com a presença de Denise Argemi, embaixadora da Campanha Banco Vermelho no Brasil.
O SindBancários tornou-se a primeira entidade da classe trabalhadora no estado a instalar oficialmente o Banco Vermelho em suas dependências. A placa explicativa formaliza a adesão do sindicato ao projeto internacional Panchine Rosse (Bancos Vermelhos), que denuncia o feminicídio e promove a conscientização sobre a violência contra as mulheres.
A mobilização teve início no dia 8 de dezembro, com a pintura coletiva do banco, que reuniu diretoras, bancárias e funcionárias do sindicato. A ação foi marcada por um gesto coletivo de denúncia da violência de gênero e de homenagem às vítimas. “Nós pintamos o banco na coletividade, com as mulheres, e alguns homens também quiseram participar. Foi um momento muito potente, de união, para tentar construir uma realidade melhor, uma realidade em que nós, mulheres, não sejamos mortas por sermos mulheres”, afirmou uma das participantes.
O ato também foi marcado pela lembrança de Simone Oliveira da Silva, trabalhadora do sindicato, vítima de feminicídio em setembro deste ano. A memória da colega, segundo as organizadoras, reforça a urgência de transformar o luto em mobilização permanente.
Durante a atividade, a secretária-geral do SindBancários, Sabrina Muniz, destacou que a iniciativa é um gesto de memória, denúncia e enfrentamento. “A gente resgata a memória da Simone. Tivemos, neste ano, esse acontecimento horrível, que foi o feminicídio da Simone, trabalhadora aqui do sindicato. Na época, realizamos uma vigília em memória dela e também uma roda de conversa”, afirmou.

Muniz explicou que o sindicato já acompanhava a campanha internacional dos Bancos Vermelhos, trazida ao Brasil por Denise Argemi, e decidiu aderir de forma coletiva. “Em vez de simplesmente colocar o banco vermelho, resolvemos fazer uma intervenção. Na semana passada, promovemos um momento em que o banco, que já estava aqui no sindicato, foi pintado coletivamente, com pincéis e tintas. Muitas mulheres participaram, e alguns homens também”, relatou.
Segundo a dirigente, a ação tem caráter simbólico e político. “Foi um momento de união e reflexão, para tentar construir uma realidade melhor, uma realidade em que a gente pare de morrer por ser mulher”, disse. Ao comentar o cenário nacional, Muniz alertou para o avanço da violência contra as mulheres. “Infelizmente, em 2025, os dados são aterrorizantes em relação aos feminicídios, às tentativas de feminicídio e a vários tipos de violência. As mulheres estão sofrendo muito, e a gente tenta trazer essa reflexão e conscientização.”
O Banco Vermelho foi instalado em um local de grande circulação da Casa dos Bancários, próximo ao cinema e ao Armazém do Campo. Além do banco, o espaço recebeu materiais informativos com orientações de apoio às vítimas, incluindo o telefone 180, informações sobre delegacias e juizados da mulher, além do símbolo universal de pedido de ajuda discreto.
Para a secretária-geral, a mobilização precisa ter continuidade. “A expectativa é seguir com essa campanha em 2026, mas com a esperança de que a gente consiga melhorar esses dados, que hoje são tenebrosos”, concluiu.
Projeto Bancos Vermelhos se expande no RS
Presente ao ato a advogada, ex-secretária-geral do Conselho Estadual do Direito das Mulheres do RS e coordenadora nacional dos Estados Gerais das Mulheres – Brasil, Denise Argemi destacou que a iniciativa vem sendo implementada em entidades de classe, órgãos públicos, comunidades e, de forma estratégica, em escolas, desde os anos iniciais do Ensino Fundamental até o Ensino Médio, como instrumento permanente de educação, memória e prevenção à violência de gênero.
“Temos fechado projetos no Brasil inteiro para a instalação do Banco Vermelho, o que nos deixa muito felizes. O Sindicato dos Bancários, por exemplo, é reconhecidamente uma entidade que sempre atua na defesa dos direitos das mulheres”, afirmou Argemi. Ela também destacou a adesão da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag/RS). A Comissão de Mulheres e Aposentados da entidade, que representa 22 regionais, decidiu instalar um Banco Vermelho em meados de 2026.
Na semana passada, foram inaugurados dois novos bancos: um em parceria com o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (Comdim) de Cachoeirinha e outro em Júlio de Castilhos, também em articulação com o Comdim local.
De acordo com a advogada, o projeto chegou ao Brasil em maio de 2020, antes mesmo da legislação federal (Lei nº 14.942/2024) que incorporou a iniciativa ao calendário do Agosto Lilás, por meio de lei de autoria da deputada Maria Arraes. “A lei veio quase três anos depois do projeto internacional, que tem marca registrada na Itália desde 2016”, explicou.

No Rio Grande do Sul, tramitam duas leis estaduais na Assembleia Legislativa: uma que institui o Banco Vermelho e outra que o inclui no calendário oficial. Em Porto Alegre, ambas já foram sancionadas. Na Assembleia Legislativa, os projetos são de autoria da deputada Laura Sito (PT), com articulação do deputado Adão Pretto Filho (PT). Na Câmara Municipal da Capital, a continuidade do projeto foi assegurada pelo vereador Alexandre Bublitz (PT), a partir de proposição inicial elaborada quando Abigail Pereira (PCdoB) exercia o mandato de vereadora e a função de procuradora especial da Mulher.
Argemi também ressaltou a dimensão simbólica, territorial e pedagógica da iniciativa. Em 25 de novembro, foi lançado o primeiro Banco Vermelho binacional Brasil–Uruguai, em Santana do Livramento. “Ele tem três metros: metade fica no Brasil e metade no Uruguai”, contou.
Segundo ela, o projeto já percorreu municípios da Fronteira Oeste, Missões, Região Sul, Vale do Taquari, Região Central e Região Metropolitana, além de Porto Alegre, onde há instalações em espaços como a OAB/RS, universidades, tribunais estaduais e federais, Ministério Público, Defensoria Pública, Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre (Trensurb) e entidades esportivas.
Outra frente importante são os Bancos Vermelhos Itinerantes, utilizados por entidades que optam por levar um único banco para atividades, atos públicos e ações comunitárias. É o caso do banco lançado pelo coletivo Mães da Periferia, em Esteio, e do inaugurado durante a 79ª Feira do Livro de Porto Alegre por associações de mulheres escritoras, atualmente abrigado em uma escola vinculada ao programa Jovem Aprendiz. “Em vez de instalar vários bancos fixos, algumas entidades levam o banco para os espaços onde desenvolvem suas atividades, ampliando o alcance da mensagem”, explicou.
No campo educacional, Argemi destacou a importância da presença do Banco Vermelho nas escolas. “Quando o banco entra na escola, desde a infância até a adolescência, ele se torna um instrumento pedagógico potente. Provoca reflexão, diálogo e formação cidadã, ajudando crianças e jovens a compreenderem, desde cedo, que violência não é amor e que respeito é um valor inegociável.”
Ao comentar o contexto da violência de gênero no estado, a advogada chamou atenção para a defasagem dos dados oficiais. “O Rio Grande do Sul registra oficialmente 76 feminicídios (Observatório da Segurança Pública), mas a Lupa Feminista já contabiliza 80. Os dados precisam acompanhar a realidade.”
Para ela, o Banco Vermelho cumpre um papel central de memória, alerta e mobilização social. “É memória daquelas mulheres que tiveram suas vidas, sonhos e perspectivas interrompidos com frieza e crueldade por quem dizia amá-las, e também um chamado à sociedade civil e aos governantes diante do aumento da violência de gênero.” Argemi lembrou ainda que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo e o quinto que mais mata mulheres. “É um ranking no qual não gostaríamos de estar.”
A próxima ação do projeto já está prevista para a Restinga, em Porto Alegre, neste domingo (21) em parceria com a Alpha e o projeto Renascer da Esperança, que atende cerca de 200 crianças no turno inverso da escola. “Vamos realizar oficinas separadas com adolescentes, pais e mães, para falar sobre violência, ouvir a comunidade e pensar formas de incidência.”
“O nosso projeto se chama Quem Ama Não Mata e Sambista que É Sambista Não Bate em Mulher. O Banco Vermelho é símbolo, mas também é escuta, educação e compromisso com a vida”, concluiu.
