Dados da SPTrans

Especialistas questionam aumento do ônibus em SP, enquanto frota diminui e subsídio cresce

Reunião para discussão acontece no meio do recesso; passagem vai para R$ 5,30 a partir do dia 6

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Prefeito de São Paulo Ricardo Nunes (MDB)
Prefeito de São Paulo Ricardo Nunes (MDB) | Crédito: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Os representantes da sociedade civil e de movimentos populares manifestaram descontentamento com a realização da reunião do Conselho Municipal de Trânsito e Transporte (CMTT), nesta sexta-feira (2), para discutir o aumento da tarifa de ônibus no município de São Paulo de R$ 5 para R$ 5,30 a partir do dia 6 de janeiro.

O encontro foi convocado pela prefeitura em meio ao recesso administrativo de fim de ano dos servidores. O vereador Nabil Bonduki (PT-SP), que acionou a Justiça contra o aumento, chegou a defender que a gestão de Ricardo Nunes (MDB) tenta acelerar de forma indevida a aprovação do reajuste ao agendar a reunião extraordinária do CMTT para esta sexta-feira. O vereador e os representantes presentes na reunião exigiam mais tempo para discussão e debate, e a reunião deveria ocorrer após o fim do recesso. 

Rafael Calabria, especialista em mobilidade urbana e ex-membro do CMTT, afirmou que a reunião é um “desrespeito tremendo” e “totalmente abusivo” com os membros do conselho e com os trabalhadores da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana e Transporte (SMT). É a primeira vez que a reunião é marcada após o aumento ser anunciado e em meio ao recesso. 

Apesar da convocação, o órgão colegiado tem caráter consultivo e não deliberativo. Na prática, isso significa que o CMTT não define o valor da tarifa de ônibus da cidade.

Frota menor, subsídio maior

Calabria também argumentou durante o encontro que a prefeitura ignora como as passagens mais caras resultam na perda de passageiros, além de apontar que a frota de ônibus tem diminuído enquanto o serviço perde qualidade. 

O reajuste anunciado pela Prefeitura ocorre em um contexto de redução da frota, que passou de 12.813 veículos em 2019 para 12.094 em 2025, segundo dados da SPTrans apresentados durante a reunião.

Apesar disso, os custos do sistema cresceram de forma expressiva, de R$ 8,7 bilhões para R$ 12,3 bilhões no mesmo período. De acordo com a empresa, o aumento está ligado principalmente à elevação dos salários dos trabalhadores, ao encarecimento do diesel e a outros insumos operacionais.

Para viabilizar a operação, o peso do subsídio público também aumentou. Em 2025, R$ 7,2 bilhões do total dos custos foram compensados pela Prefeitura de São Paulo, o equivalente a 58,5%. Em 2019, esse valor era de R$ 3,1 bilhões, em preços correntes, o que representa 35,6% dos R$ 8,7 bilhões.

Segundo a SPTrans, o aumento do subsídio aumentou porque a tarifa de ônibus não teve reajuste durante cinco anos, entre 2020 e 2024, mesmo diante do crescimento do custo e de passageiros com gratuidade de 23% para 29% de 2019 para 2025.

Outros dados da SPTrans indicam que a média de usuários transportados em dias úteis na capital paulista caiu de 9,65 milhões entre janeiro e novembro de 2016 para cerca de 7 milhões no mesmo período de 2025, uma redução próxima de 28%.

No pico da manhã, principal referência para o dimensionamento da frota, a queda foi menos acentuada. A SPTrans afirma que algumas linhas já registram volumes próximos aos de 2019, quando o sistema alcançava 8,88 milhões de passageiros nesse período. A empresa, no entanto, não divulgou números consolidados nem informou quais linhas apresentaram essa recuperação.

Reajuste superior ao IPCA

O reajuste proposto é de 6%, percentual superior ao índice oficial de inflação do país, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que acumulou 4,5% até novembro. Para o vereador Nabil Bonduki, o aumento é “imoral diante da péssima qualidade do serviço entregue à população”.

“A frota de ônibus vem diminuindo e envelhecendo. Ainda circulam veículos com mais de 10 anos de uso, o que impacta diretamente a qualidade do serviço, desestimula o uso por passageiros, eleva os custos de manutenção e aumenta a emissão de poluentes. A Prefeitura tem destacado a ampliação da frota elétrica, que hoje conta com 1.149 ônibus, menos de 10% do total e muito abaixo do previsto”, afirma o vereador.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo defendeu o reajuste ao argumentar que “o valor da passagem foi mantido em R$ 4,40 por cinco anos. De 2020 a 2025 houve uma única atualização de 13,6%, para R$ 5. Já a inflação neste período foi de 40,31%. A correção atual para R$ 5,30 fica menos da metade do valor inflacionário desses 5 anos”.

Segundo a prefeitura, o índice adotado como referência foi o IPC-Fipe (Transporte Coletivo), que registrou variação de 6,5%. “A atualização da tarifa 2026 para R$ 5,30 ficou abaixo do índice de inflação acumulado no ano para o setor, calculado pelo IPC-Fipe”, informa a Secretaria Municipal de Mobilidade e Trânsito em nota. “Atualmente, a capital tem uma das menores tarifas da Região Metropolitana de São Paulo e a mais barata do país, considerando a integração gratuita que o passageiro pode fazer em até quatro ônibus no período de três horas com o Bilhete Único.”

Editado por: Luís Indriunas

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