Artigo

Haiti, farol e futuro de nossa América

Relato de uma brigada de solidariedade

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Soberania do Haiti é colocada em jogo
Governo de transição coloca soberania do Haiti em jogo | Crédito: Aerra Carnicom

Em meados do ano passado, a Brigada de Solidariedade no Haiti, da Alba Movimentos, compartilhou vários dias com organizações do campo popular da ilha e foi testemunha da imensa capacidade de luta e resistência do primeiro território independente da América Latina e do Caribe. Durante quase duas semanas, constatamos que o povo do Haiti está submetido a um plano de recolonização. Com métodos diferentes, mas com os mesmos fins que em Gaza, Cuba e Venezuela, há uma intencionalidade do imperialismo estadunidense de isolá-lo política, econômica e midiaticamente.

É fundamental que aprendamos com o Haiti e olhemos para ele. Estar, ver, escutar e compreender os métodos opressivos aos quais resiste há décadas (os mesmos que vêm sendo aplicados em outros países) e todo o exemplo vivo de rebeldia soberana foi, para mim, um chamado a seguir aprofundando essa história e essa atualidade. Fomos testemunhas das armas de um povo que não se ajoelha e onde reside a potência para seguir irradiando por toda a Nossa América, como faz há 222 anos.

Quando a brigada partiu de Cabo Haitiano, a impotência, a raiva e a dor nos invadiram. Em apenas duas semanas, escutamos os relatos mais cruéis e dolorosos: assassinatos, torturas, morte planejada, violações de todos os direitos humanos, violência financiada, apropriação e saque de terras e bens comuns, fome e miséria estrutural impostas por séculos de ditaduras e capitalismo.

Um complô desenhado e executado pelo imperialismo norte-americano e seus aliados, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), o Core Group (embaixadas de países do Norte), a cumplicidade do governo nacional “falido” (o KPT) e sua extremidade delitiva funcional: “as gangues”.

O que o poder busca? O que ele pretende é que ninguém entre nem saia da ilha. Para isso, financia bandos armados, deixando-os agir para gerar caos e morte e, assim, mostrar ao mundo que se trata de um país “ingovernável” e “inviável”. Humilhar, ajoelhar e desmoralizar seu povo para que aceitem qualquer coisa: por exemplo, um governo corrupto e entreguista. Enfim, um processo neocolonial violento para se apropriar de suas riquezas como ouro, prata, minerais raros, terras cultiváveis, uma riqueza cultural ancestral e a mão de obra de seus trabalhadores e trabalhadoras. Insisto em reafirmar que, apesar dessa realidade baseada na injustiça histórica, o povo haitiano resiste e luta.

Desde 2004, o Conselho de Segurança da ONU, comandado por Estados Unidos, França e Grã-Bretanha, estabelece tropas estrangeiras de forma ilegal e ilegítima com a Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti). Esses mesmos países que perpetraram as piores calamidades escravistas da história haitiana são hoje os que pretendem zelar por sua segurança.

Vemos exemplos concretos. Antes do genocídio nazista, os Estados Unidos ocuparam o Haiti de 1915 a 1934; no norte da ilha funcionou um campo de concentração chamado “Camp Chabert”, onde foram torturados e executados 15 mil haitianos. Mais recentemente, em 2010, a epidemia de cólera ocorreu durante a presença ativa da Minustah; dezenas de milhares de haitianos morreram em um país onde os hospitais e a saúde pública são inexistentes. Nestes últimos 25 anos, as políticas de “ajuda humanitária e presença internacional” não serviram de nada se falamos de direitos humanos. Vale mencionar que soldados do Sri Lanka estupraram muitas jovens e seguem até hoje sem condenação. Mais ainda: depois do terremoto de 2010, a cumplicidade entre as gangues armadas, a Binuh (Escritório Integrado das Nações Unidas no Haiti) e o governo corrupto aprofundou a situação caótica atual.

Por mais “presença” internacional que se alegue, o armamento paramilitar criminoso e a violência não fizeram senão crescer.

Racismo e resistência

Em 1937, o ditador que governava a ferro e fogo na República Dominicana, Trujillo, mandou “embranquecer” a fronteira com o Haiti. Caçaram, violaram e assassinaram mais de 12 mil haitianos e haitianas. Para identificá-los, pediam que dissessem a palavra “Perejil” (salsa); assim reconheciam o som típico com que pronunciavam a letra R e procediam a atirar neles. O rio Dajabón, que atravessa toda a ilha e faz fronteira com a Dominicana, foi literalmente tingido de sangue e desde então batizado de “Rio Massacre”, e esse genocídio passou a ser chamado de “Massacre do Perejil”.

Durante os dias da brigada na localidade fronteiriça de Omantihuz, vimos os rostos tristes e feridos dos milhares de migrantes deportados. O governo da República Dominicana, alinhado à doutrina fascista de Donald Trump, “caça” haitianos em suas próprias casas e locais de trabalho, ou seja, os procura, captura, transporta em veículos e os descarta na fronteira. Deportam-nos por serem haitianos, por serem negros, pela portação de sua identidade. Nesses atos degradantes, mulheres prestes a dar à luz são separadas de suas famílias, ficando sozinhas e à deriva. Como deportam “o negro”, muitas vezes, “por erro”, também expulsam dominicanos negros ou afrodescendentes de outros países.

No entanto, não é justo falar apenas de rostos tristes e humilhações. Aqueles moradores que nos acompanharam nesses dias transmitiam o orgulho e a alegria de viver, de resistir e de poder continuar contando, de forma oral, a história de seu povo. Assim foi que, no outro extremo do “rio massacre”, conhecemos a história do “Canal da Dignidade”. Durante anos, a escassez de água nessas terras cultiváveis tornava famintas famílias inteiras. Como consequência do roubo e do saque, as corporações avançavam ocupando território para dispor de “zonas francas industriais”, enquanto o governo do KP, cúmplice e incapaz, permanecia sem frear a perda cada vez mais grave da soberania nacional. Milhares de camponeses e camponesas disseram basta e, em konbit, tomaram a decisão corajosa de construir um gigantesco canal de irrigação em comunidade e solidariedade, sem cobrar nenhum tipo de salário e contribuindo até com o que não tinham. Uma tarefa patriótica para construir soberania alimentar e nacional, mesmo correndo o risco de serem assassinados pelo Exército Dominicano. Em uma proeza monumental, o Konbit da Dignidade se estendeu rapidamente a todo o povo haitiano e, com a consigna KPK (Kanal la Pap Kanpé), demonstraram mais uma vez que essa tradição centenária de organização comunitária e solidária é uma das armas mais poderosas do povo.

Ao longo de nossa visita, vimos muitos konbits urbanos e rurais, grandes e pequenos, mas um foi comovente desde o primeiro dia: mulheres que há séculos levam e trazem os alimentos que colhem a povoados e cidades distantes. Caminham à beira das estradas, fazendo dezenas de quilômetros para conectar todo o país em uma rede colorida de frutas, verduras, mel, mandioca, milho e casabe. Histórias de vida, de amor e de cuidado, mulheres ancestrais que levam a identidade e o espírito de Ayití a cada extremo da ilha.

Mas, afinal, o que é um konbit? Uma tradição de trabalho comunal, em estilo assembleário e cooperativo, que resulta em tarefas e projetos coletivos com impacto concreto na vida cotidiana da comunidade: agricultura, infraestrutura, limpeza, construção e ação política. Não é simplesmente um método, mas uma filosofia de vida. O konbit é parte essencial da cultura haitiana.

Haiti, povo criativo e espiritual

Nesses dias de experiência solidária e fraterna no Haiti, encontramos dois componentes poderosos da resistência do povo: a religião vodu e o crioulo.

A espiritualidade vodu, autêntica criação religiosa nacional, é um sincretismo surgido da diáspora africana e do catolicismo. Tão incompreendida quanto estigmatizada, reúne uma teologia que se expressa em danças, tambores, cantos, oferendas aos mortos e conexão com os Loá (Iwa), espíritos-divindades ligados a mitos e histórias tradicionais. Por não ter uma autoridade central, a religião adota no Haiti uma notável diversidade entre seus praticantes. Com o passar dos dias, pudemos vivenciar a história do vodu profundamente enraizada na resistência do povo. Além de ter estado presente na Revolução Haitiana de 1804, sendo muitos de seus protagonistas voduístas, o vodu resistiu em várias etapas históricas à censura, estigmatização e perseguição antes e depois da revolução. Sua diversidade e exercício livre geraram temor entre colonizadores e governos. Não valorizado nem reconhecido oficialmente como religião, em favor do catolicismo (e hoje também do protestantismo), o vodu se mantém vivo nas vertentes mais profundas do Haiti. Vimos como os haitianos vão rezar em igrejas e templos cristãos aos domingos, mas, ao mesmo tempo, durante a semana não deixam de praticar sua devoção pela manhã.

O Haiti fala, pensa e sonha em crioulo, obra criativa de uma terra de escravos rebeldes. O crioulo é a língua que as mães ensinam primeiro a seus filhos. Quase dois séculos após a revolução haitiana, a Constituição de 1987 reconheceu essa língua como oficial da nação e relegou o francês ao que sempre foi: a língua dos colonizadores, imposta por uma elite privilegiada. Menos de 20% dos haitianos entende e fala francês, mas, ainda assim, durante séculos o crioulo foi a língua perseguida, a língua proibida. Não surpreende esse afã de silenciamento, já que graças ao crioulo os escravizados se comunicaram em um idioma diferente do do opressor e organizaram reuniões, revoltas e uma revolução bem-sucedida. Durante décadas, eruditos colonialistas tentaram colocá-lo em um status “inferior”, mas o crioulo ganhou cada vez mais força no movimento cultural anticolonial e na identidade nacional. Diferentemente do que aconteceu com dezenas de línguas indígenas exterminadas e silenciadas em outras partes da América, o crioulo conseguiu se impor.

O crioulo e o vodu são rios, vasos comunicantes do povo. Permeáveis, porosos e fluidos, unem a história e o espírito do Haiti. De tão evidentes, parecem invisíveis, mas estão ali, mostrando-nos a força, a firmeza e a criatividade de uma pátria livre que não se deixa submeter.

Haiti é futuro

O Haiti não precisa de salvadores; o Haiti não pede, o Haiti exige. O Haiti continua dançando e cantando apesar de tanta dor, projeta um futuro, uma possibilidade de viver em paz e justiça. Foi impactante e inspirador despertar naqueles dias no meio da ilha ao ritmo de cantos, hinos e louvores do povo à sua própria história.

O poder imperial quer submeter o Haiti a um “purgatório” de 12 milhões de almas, castigo por ter sido irreverente com as maiores potências colonialistas do mundo. Se algo ficou claro para nós, é que a Revolução Haitiana de 1804, a primeira e única revolução antiescravista do mundo, segue pulsando hoje na própria vida e resistência que não se deixa vencer. Os Estados Unidos e seus aliados o submetem ao isolamento, ao saque capitalista, à violência e ao caos, à fome e ao bloqueio econômico e político, com o objetivo de impedir que se levante novamente. Será que também temem que esse espírito contagie o restante da América Latina e do Caribe, como já fez desde sua independência?

Hoje enfrentamos em toda a nossa América um inimigo decadente que quer recuperar seu “quintal”. Este humilde relato é para dizer a todos e todas que precisamos voltar ao Haiti: estar ali, escutar, ver e aprender com seu povo. Seguir o exemplo histórico do Haiti para construir um gigantesco konbit nuestramericano e fazer com que a proclama de sua bela bandeira, “A união faz a força”, ressoe em cada uma de nossas lutas.

*Emmanuel Álvarez é médico argentino, membro da Brigada Popular de Saúde e militante do Movimento Popular Nuestramerica e ALBA Movimentos. Trabalha como diretor regional de saúde pública no Ministério de Saúde da Província de Buenos Aires, Argentina.

Editado por: Lucas Estanislau

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