Controle e poder

Venezuela é alvo de golpe de Estado em estratégia dos EUA para ampliar controle na região, diz Maringoni

EUA atacou país latino-americano e sequestrou o presidente Nicolás Maduro na madrugada deste sábado (3)

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Segundo Miami Herald, em telefonema, Trump exigiu novas eleições
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Crédito: Mandel Ngan / AFP

Os ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela e o sequestro, já confirmado por Washington, do presidente Nicolás Maduro configuram um golpe de Estado na análise de Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC e coordenador do Grupo de Estudos da América Latina e Caribe. 

Em entrevista ao Brasil de Fato após a ofensiva estadunidense, Maringoni afirmou que a ação representa uma ruptura inédita na dinâmica recente da região, marcada até então por intervenções indiretas. “É um dia dramático, é um dia de uma brutalidade extrema dos Estados Unidos, algo inédito na América do Sul, que os Estados Unidos nunca invadiram, nunca bombardearam, nem atacaram diretamente um país aqui da parte sul do continente”, explicou. 

“Na América do Sul, os Estados Unidos sempre se articularam com setores internos, com setores golpistas, com setores que vão assediando as Forças Armadas, a extrema direita política e a Igreja Católica para fazer brotar de dentro, para simular que brota de dentro, um intento ou uma ruptura institucional”, diz o professor ao citar os golpes militares ocorridos no Brasil em 1964, no Chile em 1973 e na Argentina em 1976.

Para o especialista, além do isolamento político do governo venezuelano, os ataques foram realizados com meios considerados menos sofisticados e não houve resposta do sistema de defesa antiaérea do país, o que, em sua análise, indica a possibilidade de acordos ou rupturas internas no comando das Forças Armadas venezuelanas. 

“Como no primeiro momento do ataque o Maduro é sequestrado e levado para fora do país? Onde está o dispositivo de defesa venezuelano? Nenhum míssil da defesa antiaérea venezuelana foi disparado”, diz Maringoni. “Houve algum tipo de traição ou houve acordo da cúpula com os Estados Unidos. Isso é o elemento novo, elemento chave no entendimento dessa agressão à Venezuela.”

Nova divisão do mundo

Para Maringoni, o ataque indica a formação de uma nova configuração geopolítica baseada na divisão de áreas de influência entre grandes potências, em um arranjo que remete ao período posterior à Segunda Guerra Mundial. Nesse processo, os Estados Unidos aceitariam reduzir sua atuação direta em alguns conflitos para consolidar controle político e estratégico em outras regiões

No caso da Ucrânia, por exemplo, a Casa Branca sinalizaria uma disposição para encerrar sua participação direta no conflito e permitir que o governo ucraniano trate a situação com a Rússia. Em relação à China, que se configuraria como a potência opostos aos EUA, o movimento apontaria para a aceitação de uma solução conduzida por Pequim sobre Taiwan, enquanto Washington concentraria seus esforços na América Latina.

De acordo com o professor, o objetivo central da política estadunidense seria reduzir a presença chinesa no continente latino-americano. “O objetivo militar dos Estados Unidos é imediato. Agora, qual é o objetivo estratégico e político maior? Querem tomar o petróleo? Sim, querem tomar o petróleo. Isso é óbvio, são as maiores reservas do mundo. Mas há um objetivo mais profundo que é tirar a China do continente”, afirma Maringoni.

“Sabemos que nas últimas duas décadas a China foi estabelecendo relações comerciais com países do continente, com algumas exceções. Quase 20 países da América Latina estão na Nova Rota da Seda. A China está fazendo investimentos produtivos no Brasil e na Argentina, e construiu o porto no Peru. Isso retira os Estados Unidos da região e enfraquece cadeias de comando nos nossos países”, afirma. 

O docente da UFABC lembra a existência do documento de Estratégia Nacional de Segurança, publicado no início de dezembro do ano passado, que retoma princípios associados à Doutrina Monroe, formulada no século 19, ao reafirmar a América Latina como área prioritária da política externa dos Estados Unidos.

O documento de 33 páginas aponta a China como eixo central das preocupações. O capítulo sobre a Ásia é dedicado exclusivamente ao país, e os demais desafios apresentados ao longo do texto também se relacionam majoritariamente à China, ainda que sem menção direta.

“Toda a ideia é montada colocando que a base da política externa americana é o Ocidente e, no Ocidente, a América Latina”, diz Maringoni. “Eles estão avisando ao mundo e ao continente que isso aqui segue sendo o quintal deles. Eles vão fazer o que quiserem aqui. Para isso, implodiram as relações internacionais do pós-guerra e qualquer situação de direito internacional, como ONU [Organização das Nações Unidas], OEA [Organização dos Estados Americanos] ou qualquer regra estabelecida. A regra que vale é a da violência e a da força.”

O que aconteceu

Os Estados Unidos atacaram a Venezuela na madrugada deste sábado (3). O país vizinho ao Brasil emitiu um comunicado oficial rejeitando “a grave agressão militar perpetrada” pelos EUA “contra o território e a população venezuelana”. Os ataques, que começaram começaram a ser registrados às 2h50, afetaram “localidades civis e militares da cidade de Caracas, capital da República, e dos estados de Miranda, Aragua e La Guaira”.

A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez, também afirmou que o paradeiro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores é desconhecido. “Exigimos uma prova de vida imediata do presidente Nicolás Maduro e da primeira combatente Cilia Flores”, disse Rodríguez, em um áudio exibido pela TV estatal.

Mais cedo, o presidente estadunidense Donald Trump informou a captura de Maduro em uma rede social. “Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, capturado, juntamente com sua esposa, e retirado do país por via aérea”, escreveu.

O governo venezuelano afirmou, em nota, que “tal agressão ameaça a paz e a estabilidade internacionais, especificamente na América Latina e no Caribe, e coloca em sério risco a vida de milhões de pessoas”. De acordo com o governo venezuelano, a ofensiva teria como objetivo a apropriação de recursos estratégicos do país.

“O objetivo deste ataque não é outro senão confiscar os recursos estratégicos da Venezuela, especialmente o seu petróleo e minerais, tentando quebrar pela força a independência política da Nação”, diz o texto.

Editado por: Luís Indriunas

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