PRESSÃO SOBRE PDVSA

‘EUA não vão aceitar que China seja a maior compradora de petróleo venezuelano’, diz economista

Especialistas veem acordo anunciado por Trump como tentativa de controlar a produção venezuelana

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Presidente dos Estados Unidos anunciou acordo para compra de petróleo venezuelano após ataque ao país caribenho
Presidente dos Estados Unidos anunciou acordo para compra de petróleo venezuelano após ataque ao país caribenho | Crédito: HANDOUT / US EUROPEAN COMMAND / AFP

Três dias após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, Donald Trump anunciou, na terça-feira (6), que o governo interino venezuelano chegou a um acordo para a venda de 30 a 50 milhões de barris de petróleo “de alta qualidade” aos Estados Unidos. 

“Esse petróleo será vendido a preço de mercado, e esse dinheiro será controlado por mim”, publicou o mandatário em uma rede social.

No dia seguinte, a PDVSA, empresa estatal de petróleo da Venezuela, confirmou que há tratativas em andamento.

“Esse processo se desenvolve sob esquemas semelhantes aos vigentes com empresas internacionais, como a Chevron, e é baseado em uma transação estritamente comercial, com critérios de legalidade, transparência e benefício para ambas as partes”, disse a companhia, em nota. 

Ainda não se sabe ao certo qual seria a periodicidade de envio dos barris de petróleo venezuelano. No fim do ano passado, a estatal petroleira anunciou marca de produção de 1,2 milhão de barris por dia, o que equivale a cerca de 36 milhões por mês. 

Para o professor especialista em economia de petróleo e ex-assessor do Banco Central (BC) da Venezuela, Carlos Mendoza Potellá, o anúncio de Trump indica o desejo de adquirir a totalidade da produção venezuelana. “Estão pedindo a produção total de petróleo para já. Os números equivalem a produção de um mês inteiro”, disse, ao Brasil de Fato.

Ainda assim, Potellá diz que os EUA não teriam a capacidade de absorver a totalidade da produção venezuelana, já que o petróleo extraído é, sobretudo, de tipo extrapesado, o que exige um trabalho de refino maior e mais complexo. 

O ex-assessor do BC acredita que a voracidade estadunidense sobre o petróleo venezuelano tem como objetivo minar os negócios chineses no país caribenho, e que isso será um fator inegociável nas tratativas levadas adiante por Washington. 

“Os Estados Unidos estão tentando obter a maior quantidade de petróleo possível da Venezuela. Se sobrar algo, podem deixar com a China. O que não vão aceitar é que a China seja a maior compradora”, diz Potellá.

Estimativas indicam que, atualmente, a China é responsável por comprar entre 60% e 80% do petróleo venezuelano exportado.

No auge da produção de petróleo, a extração ultrapassava os 3 milhões de barris por dia. Em 2019, após a imposição de duras sanções pelos Estados Unidos contra o governo de Nicolás Maduro, o país registrou uma queda considerável na produção diária e chegou ao seu ponto mais baixo: cerca de 300 mil barris de petróleo por dia. 

Mesmo sob sanções, o governo venezuelano conseguiu retomar a capacidade produtiva até chegar a marca atingida no fim do ano passado. Para o doutor em geopolítica petroleira Miguel Jaime, esse processo pode ser explicado pela experiência adquirida ao longo dos mais de 100 anos de exploração da matéria-prima e das parcerias com os aliados de primeira hora de Caracas. 

“A retomada acontece por conta da experiência, do pessoal, da infraestrutura construída ao longo dos anos e pelas relações com outros países, como Rússia, Irã e China. Isso permitiu à Venezuela voltar a impulsionar sua produção petrolífera, com muito esforço.”

O doutor em geopolítica petroleira indica que a tendência, a partir deste novo momento, é que algumas das sanções sejam derrubadas. Para o especialista, no entanto, isso não pode ser comemorado. 

“Os Estados Unidos estão colocando contra as cordas a indústria petrolífera venezuelana e o Estado venezuelano. Um dos objetivos da administração de Donald Trump é ativar a indústria petrolífera venezuelana, que eles consideram que lhes pertence, e colocá-la para funcionar a seu serviço”, diz Miguel Jaime. 

Editado por: Maria Teresa Cruz

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