A Rússia acusou os EUA de violar o direito internacional após a apreensão de um navio petroleiro venezuelano que operava sob bandeira russa. A embarcação foi detida na última quarta-feira (7), pelas forças estadunidenses, sob a alegação de descumprimento de sanções.
Posteriormente, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia classificou a apreensão do petroleiro como uma grave violação da liberdade de navegação e pediu a Washington que “cesse imediatamente suas ações ilegais contra” a embarcação e assegure tratamento humano aos cidadãos russos a bordo.
O episódio ocorreu em meio à escalada da crise em torno da agressão dos EUA à Venezuela, após os bombardeios no país sul-americano no sábado, dia 3 de janeiro, e o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Na reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a invasão dos EUA, o representante permanente da Rússia nas Nações Unidas, Vassily Nebenzia, expressou a veemente condenação de Moscou sobre as ações estadunindense.
“O ataque ao líder venezuelano, que resultou na morte de dezenas de cidadãos venezuelanos e cubanos, tornou-se, aos olhos de muitos, um prenúncio do retorno à era da ilegalidade e da dominação americana, o caos e a anarquia que continuam a assolar dezenas de países ao redor do mundo. Não há, e não pode haver, justificativa para o crime cinicamente cometido pelos Estados Unidos em Caracas”, afirmou o diplomata.
Para Moscou, a defesa do governo Maduro vai além do discurso diplomático. Rússia e Venezuela mantêm uma série de contratos estratégicos, com foco nas áreas militar, energética e política, que visam contornar as sanções ocidentais que ambos os países sofrem.
A aproximação entre a Rússia e a Venezuela começou ainda no início dos anos 2000, durante o governo de Hugo Chávez. A aliança com o país sul-americano foi uma forma da Rússia fortalecer sua influência política na região, ampliando um contrapeso geopolítico aos EUA na América Latina. Além disso, empresas russas obtiveram acesso aos campos de petróleo venezuelanos e Caracas comprou bilhões de dólares em armamentos russo desde então.
Ao mesmo tempo, hoje, apesar da firme crítica à agressão dos EUA contra a soberania de um país que é aliado estratégico da Rússia, a posição de Moscou encontra claras limitações em temos práticos. Embora Moscou e Caracas tenham assinado uma declaração sobre uma “parceria estratégica” em novembro de 2025, a Venezuela ainda não recebeu nenhum apoio real da Rússia.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor de Relações Internacionais da Universidade de São Petersburgo, Victor Jeifets, aponta que a reação da Rússia era mais ou menos esperada, mas dificilmente passaria do plano retórico.
Momento delicado na Ucrânia
“Em geral, a reação da Rússia foi mais ou menos o que se esperava, de apoiar o governo legítimo da Venezuela, desejar o cumprimento dos contratos vigentes, e o que mais se pode esperar? Por enquanto só isso. Nós sabíamos que a Rússia não iria enviar militares em apoio à Venezuela, primeiramente, porque ela não pretendia fazer isso, e mesmo que quisesse, não teria muitas condições técnicas para isso”, analisa.
Outro fator fundamental que limita uma postura mais assertiva da Rússia diante dos ataques à Venezuela é o momento delicado das negociações em torno da guerra na Ucrânia. Moscou evita ampliar frentes de confronto enquanto busca avanços diplomáticos no conflito.
Durante a administração de Donald Trump, as negociações sobre a guerra avançaram e o presidente dos EUA diversas vezes manifestou posições mais alinhadas com os interesses russos sobre o destino da guerra da Ucrânia, sobretudo no que diz respeito à questão territorial, reconhecendo que Kiev deveria ceder regiões ocupadas para a Rússia, e a garantia de não entrada da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
“As possibilidades da Rússia de reagir são menores, porque tudo isso acontece junto às negociações com a administração de Trump sobre a Ucrânia. E se, durante o governo de Biden, para a Rússia poderia ser vantajoso escalar a relação com os EUA por conta da Venezuela, porque sabia que não tinha como conseguir nenhum acordo com Biden, com Donald Trump, me parece que Moscou mantém a esperança que pode conseguir algo de Trump. Nesse sentido, salvar o que não dá pra salvar, não tem muito sentido”, afirma Victor Jeifets.

Diante de limitações estratégicas e de outras negociações em curso, a Rússia evita uma escalada direta do conflito, apoiando a estabilização da situação. Ainda assim, adota um tom duro no campo diplomático. Pois, para Moscou, as ações dos Estados Unidos contra a Venezuela vão além da disputa política e têm como foco o controle das riquezas do país.
A diplomacia russa acusa Washington de reforçar uma lógica neocolonial nos países do Sul Global, sob o pretexto de sanções e intervenções. Segundo a manifestação do embaixador da Rússia na ONU, Vassily Nebenzia, Washington não esconde os seus interesses de controlar os recursos naturais da Venezuela, reproduzindo práticas imperialistas.
“Particularmente impressionante é o cinismo sem precedentes com que Washington sequer tentou camuflar os verdadeiros objetivos de sua operação criminosa: estabelecer controle irrestrito sobre os recursos naturais da Venezuela e afirmar suas ambições hegemônicas na América Latina. Washington está, portanto, dando novo ímpeto ao neocolonialismo e ao imperialismo, que foram repetida e decisivamente rejeitados pelos povos desta região e, de fato, pelo Sul Global como um todo”, completou o embaixador da Rússia na ONU.
