IDENTIDADE

Da Sapucaí aos shows do BTS: cultura, poder econômico e diplomacia

O Carnaval brasileiro e o BTS, grupo coreano de K-pop, evidenciam como a cultura se tornou um vetor estratégico

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Escola de Niterói encantou a Sapucaí ao fechar os desfiles na segunda noite do Grupo Especial e conquistou o terceiro troféu
Escola de Niterói encantou a Sapucaí ao fechar os desfiles na segunda noite do Grupo Especial e conquistou o terceiro troféu | Crédito: Dhavid Normando/Rio Carnaval

Em um cenário global de instabilidade, a cultura emerge como uma das forças que impulsionam a democracia e protegem a liberdade de expressão. Ela garante espaços de participação, amplia a diversidade de narrativas e sustenta o direito de sociedades existirem com pluralidade. É nesse contexto que o Carnaval brasileiro e o BTS, grupo coreano de K-pop, evidenciam como a cultura se tornou um vetor estratégico de economia, identidade e diplomacia.

Carnaval: cultura, economia e projeção internacional

O Carnaval brasileiro é mais do que uma festa: é um dos símbolos culturais mais reconhecidos do país no exterior, uma vitrine que projeta criatividade, diversidade e capacidade de mobilização social. A cada ano, milhões de pessoas — brasileiras e estrangeiras — atravessam cidades, fronteiras e fusos para participar de uma celebração que combina arte, tradição e pertencimento. Em 2025, essa força cultural ganhou nova dimensão internacional: a Embratur registrou 310,6 mil turistas estrangeiros entrando no país no período carnavalesco, um aumento de 12% em relação ao ano anterior, impulsionando a aviação, que emitiu mais de 69 mil bilhetes internacionais apenas para o Rio de Janeiro, com crescimento expressivo também para São Paulo, Bahia e Pernambuco.

No plano interno, os números confirmam que essa expressão cultural é também uma engrenagem econômica de grande escala. O Rio de Janeiro movimentou R$ 5,7 bilhões e recebeu 7 milhões de foliões, segundo o estudo Carnaval de Dados da Prefeitura, enquanto Recife registrou 3,5 milhões de participantes, R$ 2,7 bilhões em circulação econômica e 58 mil empregos temporários, de acordo com o balanço oficial municipal.

Esses dados mostram que o Carnaval não apenas celebra a identidade brasileira — ele a transforma em impacto econômico, projeção internacional e vitalidade social, consolidando-se como um dos pilares mais robustos da economia laranja no país. Infelizmente, essa leitura estratégica do Carnaval ainda não é compartilhada nacionalmente. Em muitas cidades, carnavalescos e escolas de samba continuam enfrentando falta de reconhecimento institucional, como se a festa fosse apenas um evento sazonal — e não uma política cultural capaz de transformar territórios e fortalecer economias locais.

BTS: quando a cultura pop move governos e mercados

A economia da cultura assume formas distintas ao redor do mundo, mas sua potência é a mesma. Na Coreia do Sul, essa força se manifesta de maneira exemplar no K-pop e no K-drama, que se tornaram motores de projeção internacional, inovação e receita. E é dentro desse ecossistema cultural que o BTS se destaca como seu símbolo mais influente. Após quatro anos longe dos palcos, o grupo retorna em 2026 com a turnê Arirang, que percorrerá 23 países em cinco continentes, incluindo o Brasil. As pré-vendas iniciadas em janeiro desencadearam uma mobilização mundial inédita: ingressos esgotados em minutos nos Estados Unidos, Europa e Reino Unido, filas virtuais de milhões de pessoas nos mais diferentes países e um impacto que ultrapassou o entretenimento, alcançando governos, empresas e instituições.

O México é um exemplo emblemático desta realidade e onde a venda de ingressos do BTS gerou uma demanda extraordinária, mais de 1 milhão de fãs disputaram cerca de 150 mil ingressos o que provocou respostas oficiais levando a Profeco (órgão de defesa do consumidor) a intervir. A pressão foi tão intensa que a presidenta Claudia Sheinbaum enviou uma carta diplomática ao primeiro-ministro da Coreia do Sul pedindo datas adicionais para atender à demanda juvenil mexicana.

Na Coreia do Sul os aumentos abusivos na hotelaria no período dos shows do BTS nas cidades do país provocaram indignação nacional e levou o primeiro-ministro coreano, Han Duck-soo, a se pronunciar publicamente, afirmando: “Não aceitaremos que eventos culturais de grande porte sejam usados como pretexto para explorar consumidores. A cultura deve unir o país, não penalizar as famílias.” O governo determinou que autoridades locais atuassem imediatamente para conter a especulação e proteger o público.

No Brasil a deputada federal Erika Hilton acionou esta semana órgãos de defesa do consumidor, após denúncias de excessos nas vendas de ingressos para o show de Harry Styles, medida esta que visa evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer em outros shows e espetáculos como por exemplo na venda de ingressos do BTS.

Entre os foliões do Carnaval brasileiro e o coro das ARMYs que seguem o BTS pelo mundo, há uma mesma energia: a da cultura como força que move economias, atravessa fronteiras e redesenha relações entre países. O Brasil e a Coreia do Sul, cada um à sua maneira, mostram que a cultura não é apenas celebração, mas também trabalho, renda, identidade e diplomacia — e, sobretudo, um espaço vivo de expressão e participação social. Em um tempo em que multidões se organizam em torno de experiências compartilhadas, compreender essa potência é compreender o mundo que podemos construir — um mundo em que a cultura deixa de ser margem e torna-se centro.

*Mônica Cabañas Guimarães é jornalista.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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