Espaço de acolhimento a artistas da periferia, da América Latina, do circo, do hip-hop e das artes visuais, a Casa da Praça consolidou-se desde 2013 como um dos principais polos da cultura popular em Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Reconhecida pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura, a ocupação cultural agora enfrenta uma ordem de despejo da prefeitura municipal. Uma reunião marcada com o Executivo pode mudar essa situação.
Localizada na rua Cacequi, 19, junto à Praça Heitor Villa-Lobos, no bairro Boa Vista, a cerca de 20 minutos do centro da cidade, a Casa da Praça ocupa um prédio construído na década de 1980 para abrigar a Associação Canarinhos para ensaios de canto coral. Após a falência da entidade, o imóvel ficou sem uso institucional até ser assumido por artistas e agentes culturais, que em 2013 criaram a Associação Cultural Casa da Praça.
A entidade é reconhecida como Ponto de Cultura conforme a Política Nacional Cultura Viva (Lei nº 13.018/2014). A coordenadora do escritório do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul (MinC), Mari Martinez, destacou que a Casa da Praça é uma entidade associativa que executa um trabalho reconhecido pelo Estado e pelo governo federal por integrar a Política Nacional de Cultura Viva.
Campanha contra o despejo
Integrante da direção executiva da associação, a jornalista e produtora cultural Mariana de Mattos afirma que a notificação de despejo chegou no fim de 2025. “No ano passado, em novembro, a gente recebeu uma ordem de despejo da prefeitura municipal, dizendo que tínhamos 30 dias para desocupar o imóvel. Desde então iniciamos a campanha ‘Casa da Praça Fica’ para tentar sensibilizar a prefeitura sobre a importância das atividades culturais e da prestação de serviços à comunidade.”
Segundo ela, a mobilização incluiu abaixo-assinado e programação cultural no espaço, o que levou o poder público a abrir negociação. “Eles não retiraram ainda o pedido de desalojo. Prorrogaram para o dia 13 de fevereiro, e a gente tem uma reunião com a prefeitura no dia 10 para negociar a permanência da casa e tentar que essa ameaça seja retirada de vez.”
A associação também busca a cessão definitiva do imóvel. “Desde 2013 nunca tivemos a cedência do espaço. Com segurança jurídica a gente consegue acessar mais recursos, avançar mais e investir na estrutura. Essa reunião também é para tratar disso: retirar o pedido de despejo e avançar na cedência da casa.”

Residência artística e espaço de acolhimento
Desde a criação da associação, a Casa da Praça promove oficinas, espetáculos e atividades abertas à comunidade, além de funcionar como residência artística. Segundo Mattos, moradores do local desenvolvem trabalhos culturais em troca de contrapartidas artísticas. “Hoje temos residentes da Argentina e da Venezuela, além de artistas de rua que passam por aqui vindos da América Latina. Temos artistas negros, da periferia, do circo, do hip-hop, várias linguagens. A Casa da Praça deve permanecer com esse caráter popular, recebendo artistas que não têm para onde ir e sendo um espaço de acolhimento e de desenvolvimento artístico aqui na cidade.”
Entre os residentes está o publicitário e interventor urbano Matheus Gravatown que vive na casa desde março de 2024 e chegou por meio de um chamamento público. “Eu apresentei meu projeto e aqui tenho condições para desenvolver meu trabalho. Se não fosse a casa, minha situação estaria bem mais complicada. Aqui eu digo que moro no trabalho”, contou.
Ele administra um ateliê provisório que recebe artistas visuais da região e de fora do estado. “Quem passa por aqui usa o espaço para oficinas, atividades. Sempre tem material de apoio. Para artistas independentes, que têm menos estrutura, é fundamental ter um lugar físico para guardar material, preservar obras. Aqui eu consigo trabalhar, me alimentar, me higienizar e trocar com gente de outras áreas. Tem professores, jornalistas, artistas. Essa semana tem um camarada da Espanha participando das atividades. É um lugar de desenvolvimento, uma incubadora criativa.”

O venezuelano Alberto Zapata está novamente hospedado na casa e afirma que já passou pelo local outras vezes. “Acho que vai dar um mês agora, mas já é a terceira vez que eu passo aqui”, contou. Artista de rua, ele diz transitar entre música e circo. “Eu toco um pouco de música, um pouco de circo e tento misturar tudo.”
Segundo Zapata, a Casa da Praça supre uma carência estrutural enfrentada por artistas itinerantes. “Realmente não tem muito espaço habilitado para a gente treinar, se expressar, até compartilhar. Isso é o melhor que tem aqui, além das oficinas e das atividades que eles compartilham com o pessoal da cidade.”
Morador há cerca de três a quatro anos, Felipe Farinha, que se define como “arteiro” ou “brincante”, também destaca o caráter formativo do espaço. Nascido em Porto Alegre, ele afirma que a Casa da Praça se tornou central no desenvolvimento de sua trajetória artística.

“A casa é um espaço de desenvolvimento. Desde que eu cheguei aqui foi um processo para articular uma equipe, para pegar junto. Agora a gente conseguiu reestruturar a associação, mas a casa, como equipamento, é importante no desenvolvimento da minha arte, é um espaço onde eu posso pesquisar, treinar e criar”, afirmou.
Farinha acrescenta que a dinâmica de receber artistas de diferentes regiões amplia o intercâmbio cultural. “É sempre uma troca com todo mundo que passa por aqui, um intercâmbio constante, pessoas que vêm de vários lugares. E não só para mim, mas para o circo em si: é um ponto de referência do circo em Novo Hamburgo.”
Ele também observa que o município se tornou ponto estratégico para artistas viajantes que circulam pelo Cone Sul. “Novo Hamburgo tem essa característica de ser ponto de passagem: Brasil, Uruguai, Argentina, outros países também. A arte de rua é mais descentralizada por natureza, vai para o Interior, passa pelas comunidades.”
Segundo Farinha, fora dos grandes centros a recepção costuma ser diferente. “Em Porto Alegre é muito concorrido. Às vezes é mais interessante ir para lugares onde tem menos concorrência e mais necessidade. Geralmente o artista vai vendo onde tem necessidade de mostrar sua arte.”

Reestruturação após enchente e pandemia
Mattos relembrou que a atual gestão da associação foi eleita em 2024, com foco na recuperação do espaço após os impactos da enchente e da pandemia. “A partir de 2023 a gente se tornou Ponto de Cultura, o que possibilitou acessar recursos da Cultura Viva e iniciar essa reestruturação que estamos vivendo hoje.”
A casa passou por transformações estruturais e programáticas, com a criação de uma sala multiuso, uma galeria de artes para exposições, ateliês coletivos e o projeto Variete, com espetáculos mensais de circo.
“A ideia é deixar a casa cada vez mais aberta para a comunidade. Antes ela tinha um caráter mais residencial, cada artista ocupava sua salinha. Agora estamos trabalhando com essa lógica dos espaços abertos”, pontuou Mattos.
A estrutura atual inclui dois espaços de galeria, depósitos, quartos usados para brechó e equipamentos, além das áreas residenciais. “Tem quatro quartos individuais, um quarto coletivo e outro coletivo para mulheres, com duas vagas, além de cozinha e dois banheiros. Hoje temos quatro residentes fixos e um itinerante.”
Cena cultural e disputas no município
Para Gravatown, a Casa da Praça acabou se tornando parte central da cena cultural local. “A gente acaba sendo a cena cultural da cidade pelo que propõe. Temos coletivos parceiros, gente do teatro, bandas, carnaval. Como a nossa proposta é mais contemporânea, às vezes demoramos para ser compreendidos, mas recebemos muita gente.”
Mattos contextualizou que a política cultural do município historicamente privilegiou a herança germânica, especialmente no bairro Hamburgo Velho. “Paralelo a isso, temos escolas de samba como a Cruzeiro e a Protegidos, que são focos de resistência, mas não existia um espaço de cultura popular. A Casa da Praça veio para ser esse grande guarda-chuva.”

Ela também mencionou dificuldades recentes no setor cultural local, incluindo a não execução de editais do fundo municipal e disputas entre gestão pública e sociedade civil. “A cultura está um pouco conturbada. E, junto disso, estamos enfrentando esse ataque de despejo. Novo Hamburgo também tem cultura negra e cultura popular, e a gente gostaria que isso tivesse mais reconhecimento.”
Sobre a reunião com a prefeitura, Mattos afirmou que a expectativa é de diálogo. “Se eles não cumprirem com isso, vamos ter que avaliar os próximos passos, mas a princípio estamos confiando na negociação.”
Antes da chegada da Casa da Praça, o imóvel passou cerca de dez anos sem uso formal após a falência da Associação Canarinhos. Segundo Gravatown e Mattos, nesse período a comunidade assumiu informalmente o cuidado do espaço. “A própria comunidade começou a guardar a chave para usar como espaço comunitário, mas depois se cansou dessa responsabilidade. Foi nesse momento que os artistas da cidade se uniram para assumir a gestão e criaram a Associação Cultural.”
Reconhecimento federal e diálogo com o município
De acordo com a coordenadora do MinC, o espaço recebeu o selo de Ponto de Cultura por fazer parte da rede nacional articulada por essa política pública, que hoje reúne mais de 700 pontos certificados na rede estadual. “Esse reconhecimento vem pelo trabalho importante no objetivo de garantir o direito à cultura para a população, democratizar o acesso e entender essa política territorial, onde a base comunitária é protagonista da garantia de direitos”, afirmou.
Martinez explicou que, a partir desse enquadramento, a Casa da Praça acessa a Política Nacional Aldir Blanc como Ponto de Cultura e firma convênios por meio de editais, além de contar com o reconhecimento do governo federal em parceria com o município, que se compromete a executar ações culturais continuadas junto à comunidade de Novo Hamburgo.
Para a representante do MinC, o espaço exerce um papel essencial na geração de emprego e renda no município, especialmente no campo da economia criativa e solidária. Ela ressaltou que a entidade garante locais para artistas apresentarem seus trabalhos e cria oportunidades não apenas para profissionais da cidade, mas também da região. “Com as suas atividades e com as portas abertas, garantem o direito à cultura para a população, que é o propósito máximo do Sistema Nacional de Cultura”, pontuou.

Na avaliação da coordenadora, essa política é uma responsabilidade compartilhada entre governo federal, estadual e municipal, executada em parceria com espaços coletivos de base comunitária. “É essencial a atuação da Casa na Praça, entendendo que a cultura é um direito fundamental, que está lá na Constituição Federal de 1988, e também nos sistemas nacional, estadual e municipal de cultura.”
Ela reforçou que o Ministério da Cultura é parceiro da entidade, responsável pelo selo de reconhecimento e pela assinatura, junto ao município, executor local da Política Nacional Aldir Blanc, do apoio financeiro para as ações continuadas da Casa da Praça.
Segundo a coordenadora, a Casa da Praça vem avançando no diálogo com a prefeitura para garantir a cessão do imóvel, já que mantém termo de execução e compromisso cultural firmado com Novo Hamburgo, no qual se compromete a realizar as atividades e tem sua trajetória reconhecida pelo poder público.
Além disso, lembrou que a entidade já possui certificação do governo federal como Ponto de Cultura e avaliou que o município segue exemplos de outras cidades, como Porto Alegre, e do próprio governo federal, que, por diretriz da gestão Lula, vem firmando termos de permissão de uso de imóveis públicos com entidades culturais. Entre os exemplos citados, ela mencionou espaços como o Cirandar e outros pontos culturais, além de escolas de samba e CTGs.
Para a coordenadora, a Casa da Praça reúne todos os requisitos e reconhecimentos necessários para chegar a um entendimento com o governo municipal e seguir desenvolvendo seu trabalho. “Garantindo e beneficiando, na verdade, a população do município”, completou.
Nesse contexto, afirmou que o Ministério da Cultura atua como mediador no diálogo entre as partes, apoiando a permanência da entidade em Novo Hamburgo. Segundo Martinez, trata-se de um trabalho “comprovadamente importante” para assegurar o objetivo central das políticas culturais: garantir o direito à cultura para a população.
Para Mattos, a Casa da Praça é hoje estratégica para Novo Hamburgo. “É um espaço autogestionado, em diálogo com a educação e a saúde. Recebemos escolas, estudantes, equipamentos públicos. Mostramos que outro tipo de cultura é possível e agrega. Com a cedência do espaço, queremos reformar, melhorar acessibilidade e receber melhor o público. É um espaço consolidado, necessário, que não tem por que ser retirado.”
