O Conselho Presidencial de Transição (CPT) do Haiti encerrou o mandato de dois anos à frente do país neste sábado (07/02), após os Estados Unidos (EUA) ameaçarem intervir na nação caribenha caso o poder não fosse mantido pelo gabinete do primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé.
“O premiê se manteve no poder, por conta disso, as tensões dentro e fora do Haiti escalonam, porque o CPT tentou demitir o primeiro-ministro e, constitucionalmente, não há por que ele permanecer no poder, já que foi nomeado por um conselho que também não possuía legitimidade”, explica a correspondente no Haiti, Cha Dafoil ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
A jornalista aponta que agora o país está nas mãos de uma pessoa que não foi eleita para nenhum cargo no país; apenas concorreu como senador, mas perdeu a eleição. “Praticamente todo o poder executivo ficou nas mãos dele e ele teve, obviamente, todo o apoio de Washington por declarações oficiais, tanto na ONU [Organização das Nações Unidas], quanto através do embaixador dos Estados Unidos e do Canadá também”, acrescenta.
“Então, a atual situação não foi de uma real transição de poder, porque simplesmente manteve o primeiro-ministro no poder. Entretanto, o Conselho Presidencial de Transição oficialmente já não existe mais e seus nove membros saíram do poder”, contextualiza.
Em paralelo à tentativa de demissão do primeiro-ministro e ao apoio da embaixada, três navios de guerra estadunidenses chegaram próximo à baía de Porto Príncipe, capital do país. Apesar de não atracar, é uma pressão direta de Washington no território caribenho. “Eles queriam que o premiê ficasse e conseguiram”, aponta.
“A população está muito desacreditada nesse processo político, uma vez que a última eleição no país foi em 2016 e teve pelo menos 20% de participação. O país deseja ter eleições, mas tem algumas condições básicas que não estão sendo cumpridas, que é a volta da segurança e a não ingerência de potências estrangeiras”, sinaliza.
Apesar do susto com a presença de navios militares, Dafoil explica que os haitianos também já estão acostumados a ver soldados estrangeiros no país. “Não houve nenhuma explicação por parte do governo haitiano da presença na baía de Porto Príncipe”, aponta. Por sua vez, a declaração dos EUA segue a narrativa de proteção da costa caribenha e de luta contra o narcoterrorismo, mesmo sem provas noticiadas.
Alix Didier Fils-Aimé é um aliado forte do governo estadunidense e que costuma viajar continuamente aos EUA.
“É uma coisa completamente assumida e que foi marcante em seu discurso de posse, já que iniciou em francês, se comunicando formalmente com a elite e quase no final falou em criolo, para a população geral. Mesmo sabendo que as pessoas não entenderam, ele não estava preocupado, ou seja, ele não está governando para a população e sim para as elites”, conclui.
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