O ataque sofrido pelo deputado distrital Fábio Felix (Psol) durante o Carnaval não pode ser tratado como um “excesso individual”. Ele revela algo mais profundo: um padrão de aparelhamento institucional que vem se consolidando no Distrito Federal sob o governo de Ibaneis Rocha (MDB). Não se trata de um caso isolado, mas de uma lógica de poder.
Repressão seletiva
O Distrito Federal foi palco dos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. Sob a gestão de Ibaneis Rocha, a segurança pública se revelou submissa ao bolsonarismo e falhou de maneira grave na proteção das sedes dos Três Poderes. A responsabilização posterior da cúpula da corporação e o afastamento do governador demonstraram a dimensão da crise institucional instalada naquele momento.
O que vimos ali foi uma combinação de omissão, tolerância e condescendência com forças políticas que flertavam abertamente com o autoritarismo. A Polícia Militar (PMDF) foi usada como instrumento político de poder. O episódio não pode ser apagado da memória política do DF.
Anos depois, o cenário muda de forma, mas não de essência. No Carnaval, o deputado Fábio Felix, no exercício do mandato, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa (CLDF), foi atingido com spray de pimenta ao acompanhar uma denúncia de possível violação de direitos. Não há vandalismo, não há ameaça às instituições. Há fiscalização. Mas a resposta foi a força. Força que curiosamente que não foi demonstrada contra os vândalos bolsonaristas.
Da gestão pública ao projeto de poder
O padrão observado na segurança pública dialoga com outra frente de crise: a condução do Banco de Brasília (BRB). O governo Ibaneis submeteu o banco público à bancarrota na negociação com o Banco Master e levantou questionamentos sobre riscos assumidos e sobre a utilização política de uma instituição estratégica do DF.
A questão central não é apenas financeira. É institucional. Quando órgãos públicos passam a operar com lógica de alinhamento político e concentração de poder, o resultado é a erosão da função pública. Seja no banco estatal, seja na atuação policial, o problema é o mesmo: a instrumentalização de estruturas que deveriam servir ao interesse coletivo.
Problema não é “carteirada”
A tentativa de enquadrar a conduta do deputado como “carteirada” é um desvio deliberado do debate.
Carteirada é usar o cargo para obter benefício pessoal indevido. Deputados dão carteirada para furar filas, para escapar de blitz, policiais dão carteirada para entrar de graça em eventos. Não era o caso do deputado Fábio Felix. Ele não buscava privilégio, acesso exclusivo ou vantagem. Ele se identificou como parlamentar no cumprimento de sua função institucional de fiscalização da ação policial, prerrogativa constitucional do mandato.
Confundir identificação funcional com abuso de autoridade é inverter a lógica democrática. O que está em jogo não é um gesto individual, mas o direito de controle civil sobre as forças de segurança.
Quando esse controle passa a ser tratado como afronta, a democracia entra em zona de risco.
Democracia não é conveniência
Democracias não se fragilizam apenas por grandes rupturas. Elas se desgastam no cotidiano, quando a fiscalização é tratada como afronta e quando a crítica é convertida em inimiga.
O episódio do Carnaval não é sobre um deputado específico. É sobre o direito de a sociedade acompanhar, questionar e supervisionar o uso da força estatal. É sobre a autonomia das instituições frente a projetos personalistas.
O Distrito Federal já viveu, em janeiro de 2023, o preço da complacência com o autoritarismo. Repetir padrões de concentração de poder e deslegitimação da fiscalização é insistir em um caminho que a própria história recente demonstrou ser perigoso.
A pergunta que fica é simples: as instituições do DF servirão à cidadania ou a um projeto de poder?
:: Clique aqui para receber notícias do Brasil de Fato DF no seu Whatsapp ::
*Gabriel Elias é doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato DF.

