O Rio Grande do Sul registra hoje o 17º feminicídio do ano. A vítima, desta vez, é uma ex-vereadora de Nova Prata, a segunda mulher assassinada no município em menos de um ano. O dado é estarrecedor, mas o que ele revela é ainda mais grave: nem mesmo mulheres que ocupam espaços de poder, que atuam no enfrentamento às violências e que acolhem outras vítimas estão protegidas dessa engrenagem brutal.
Isso escancara uma verdade que insistem em relativizar: a violência contra as mulheres é estrutural. Ela não nasce do acaso, nem de “desentendimentos”. Está enraizada em uma cultura de desigualdade, de controle e de naturalização da violência. Enquanto não enfrentarmos essa raiz, seguiremos contando mortes.
A Força-Tarefa de Combate ao Feminicídio da Assembleia Legislativa, que tenho a responsabilidade de presidir, percorreu quase 100 municípios do estado. Dialogamos com a sociedade civil, com lideranças locais, com os movimentos organizados de mulheres e com profissionais da rede. O diagnóstico é claro: há falhas estruturais na proteção, serviços sobrecarregados, falta de integração entre os órgãos e ausência de investimento contínuo. Não faltam diagnósticos. Falta decisão política.
No mesmo sentido, a Comissão Externa da Câmara Federal apresentou, em 10 de fevereiro, o relatório do estudo realizado no estado em 2025, construído com base em dados, escuta institucional e recomendações objetivas. As evidências estão postas. As propostas estão formuladas. O que não vemos, até agora, são respostas proporcionais à gravidade do problema.
O governo do Estado tem a responsabilidade constitucional e a prerrogativa política de liderar o enfrentamento dessa verdadeira epidemia. No entanto, o Rio Grande do Sul não aderiu ao Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, lançado neste início de ano pelo presidente Lula. Ao não integrar essa articulação nacional, o estado deixa de fortalecer políticas, de ampliar recursos e de somar esforços em uma estratégia coordenada. Em um cenário de emergência, recusar cooperação é, no mínimo, incompreensível.
Uma mulher morta a cada três dias não é estatística; é fracasso coletivo. O Rio Grande do Sul precisa sair desse ranking vergonhoso que o coloca entre os estados que mais matam suas mulheres. Não há mais espaço para omissão, para discursos genéricos ou para ações pontuais.
É preciso orçamento adequado, fortalecimento da rede, integração efetiva entre segurança pública, assistência social, saúde e Judiciário, além de compromisso político real e permanente.
A vida das mulheres gaúchas não pode ser tratada como tema secundário. Ou enfrentamos essa realidade com coragem e prioridade, ou continuaremos assistindo, indignadas, à repetição de uma tragédia anunciada.
*Stela Farias é deputada estadual (PT-RS).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
