“Desligaram os aparelhos! Este é o ‘enterro’ de um campo de várzea e a visão de alguém que perdeu sua casa.” O desabafo, que serviu de legenda para um vídeo postado no Instagram, compõe o registro da demolição da sede do clube de futebol de várzea Aliança da Casa Verde.
A demolição do espaço faz parte de uma ação de concessão para a iniciativa privada dos campos e espaços dos clubes que ocupam áreas que são da Prefeitura de São Paulo. O Aliança da Casa Verde foi o primeiro clube a ter suas estruturas removidas no Campo de Marte. O Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, sede do popular Samba do Cruz, também está ameaçado.
Apesar de ser um reduto do futebol de várzea feminino, bem como da população LGBTQIA+ e também de mães e pais que levam seus filhos para brincar nas dependências do clube, não houve nenhuma tentativa de diálogo da Prefeitura com a administradora do local, segundo Soraya Marques Trindade, gestora do Aliança.
“A Prefeitura nunca me procurou para dialogar sobre essa concessão. Meu advogado tentou contato com o pessoal da Secretaria do Verde, mas nunca obteve resposta. Encontrei o senhor Rafael, da concessionária, em uma reunião no final do ano passado, ele prometeu marcar uma reunião exclusiva comigo para ouvir minha história, mas isso nunca ocorreu, ele não atendeu mais nem respondeu aos e-mails”, conta Soraya.
Localizado próximo à Avenida Olavo Fontoura, o time se estabeleceu no terreno em 2002, diferentemente das agremiações vizinhas que ocupam a área desde 1970. Enquanto os outros quatro clubes tinham registros com a Aeronáutica e formaram uma associação, o Aliança mantinha um combinado verbal de preservação do espaço em troca da permanência, sem integrar a entidade.
Soraya, que administra o clube desde a fundação, relata que o acordo original previa a limpeza do terreno, anteriormente utilizado para descarte de entulho. Antes de assumir o Aliança, ela geria o Bola Preta, do outro lado do Rio Tietê, até a desapropriação da área pela gestão municipal de Marta Suplicy para a construção de moradias populares. Após perder o espaço anterior, ela se mudou para a margem oposta e passou a gerir o campo e a sede social.
Pelo fato de o Aliança não pertencer à associação de clubes, a entidade não foi incluída nas negociações com a Secretaria de Governo quando o terreno passou do Governo Federal para a Prefeitura de São Paulo, em 2022. A gestão de Ricardo Nunes (PSDB) classificou a ocupação como irregular.
Soraya, que residia no local com a neta e um animal de estimação, perdeu o próprio lar e trabalho. O auxílio financeiro de R$ 400 proposto pelo poder público é considerado insuficiente para custear um novo imóvel. Atualmente, ela vive em uma casa alugada com o suporte de sua filha e conta com recursos provenientes de uma vaquinha coletiva para restabelecer sua rotina.
“O aluguel custa R$ 1.300. Minha filha ajudou este mês, mas não terá como manter no próximo. Estou desempregada e preciso passar por uma cirurgia na mão este mês, o que exigirá repouso. Há uma vaquinha online para me ajudar a regularizar meu carro de 2012, para que eu possa trabalhar com aplicativos de entrega, e para pagar o próximo aluguel”, relata.
Com mais de 30 anos, o campo da Aliança da Casa Verde era administrado nos anos 1990 por outro gestor. “Ele respondia pela equipe do Aliança da Casa Verde e, há mais de 20 anos, a Soraya já tinha arrendado o próprio bar. Ela fez do espaço do bar um projeto de construção para poder habitar e morar lá, uma vez que era perigoso deixar o material sozinho à noite”, explica a historiadora e pesquisadora do esporte Aira Bonfim.
Com o falecimento do antigo dono, Soraya assumiu o clube, a manutenção do campo e a continuidade do trabalho dentro do bar. Nos últimos anos, principalmente desde 2019, a visibilidade do futebol feminino de várzea passou a aumentar. “O campo da Soraya se tornou uma referência como um lugar seguro, de fácil acesso e agenda e com banheiros femininos limpos. É um local onde iam com a família. Portanto, é um espaço que se torna acessível às mulheres, seja economicamente, ou por essas questões mais subjetivas”, diz a pesquisadora.
Além das mulheres, o campo atendia uma classe social mais baixa, imigrantes bolivianos e equipes mistas, que segundo a historiadora “às vezes têm muita dificuldade de jogar com equipes exclusivamente masculinas”. Equipes de pensamento político progressista também fizeram uso daquele espaço, assim como moradores de rua.
Aira explica também que não há ali nenhum tipo de documentação que comprove a posse dos terrenos dos respectivos clubes. “Ninguém ali tem um papel documental, existem acordos orais e verbais com assinaturas de ocupação temporária do espaço.”
Nesse cenário, o termo “invasora” muitas vezes foi relacionado a Soraya e o fato de ela morar dentro do campo levou os demais dirigentes a excluírem a dirigente da sociabilidade e decisões do complexo. “Eles sempre souberam que seria muito mais difícil defender a continuidade do complexo do jeito que ele é hoje defendendo a moradia de alguém.”
De acordo com Beatriz Calheta, advogada e frequentadora do local e que atua no caso de Soraya, a reintegração de posse foi realizada por meio de uma decisão liminar de urgência, sendo que a defesa, segundo ela, não foi intimada a tempo de apresentar defesa prévia.
Além disso, ela conta que diante da urgência foram feitos pedidos de mais tempo para a desocupação, considerando que a gestora do Aliança da Casa Verde morava no local. “A defesa agora irá focar na legitimidade do trabalho social e cultural realizado por ela há mais de 20 anos, reivindicando que ela seja incluída na concessão do parque de alguma maneira, dado que o espaço é frequentado por mulheres e famílias e faz parte da fruição da cidade.”

Depois de ter a sede do Aliança e a sua moradia destruídas, o que resta é a lembrança. “Meu foco sempre foi o futebol de várzea e o feminino, mas recebia todos os gêneros. Eu tinha até um banheiro que chamava de Vai Quem Quer, voltado para pessoas trans que não se sentiam confortáveis nos banheiros convencionais. No espaço, eu fabricava meus próprios salgados, fazia almoço e churrasco.”
Como deve funcionar a concessão do Complexo de Marte
O complexo do Campo de Marte é composto por seis campos, de seis clubes distintos de futebol de várzea. No local, os campos formaram a associação dos clubes do Campo de Marte. Parte da área do complexo da Prefeitura integra um pacote de locais passados à gestão da iniciativa privada, tal como a gestão do Parque do Ibirapuera e do Vale do Anhangabaú.
O terreno de 385 mil metros quadrados será gerido pela Concessionária Campo de Marte SPE S/A, que venceu o edital de concessão finalizado no início do ano passado. A concessionária é liderada pela empresa Progen S.A, formada por donos da Allegra Pacaembu, que administra o estádio.
O contrato assinado por quatro dos seis clubes em 22 de janeiro de 2025 com a concessionária inclui a construção de novos campos. Desde então, a Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA) da prefeitura vem notificando as agremiações que assinaram o acordo para desocupar as sedes para gestão da concessionária. Com isso, os centros de convivência anexos aos campos de várzea passaram a ser considerados “ocupações irregulares”.
Os clubes, por sua vez, queriam continuar ocupando o espaço mesmo que durante eventuais obras. Com isso, foi negociada verbalmente a possibilidade de os clubes desocuparem os espaços para a posse da concessionária e reocuparem após 15 dias. Além disso, em no máximo 18 meses seriam entregues novos campos e as equipes permaneceriam nos mesmos espaços. Dos clubes da associação, quatro concordaram em assinar: Pitangueira, Baruel, Sade e Paulista.
O contrato acessado pela reportagem menciona outras limitações aos dirigentes dos times, enquanto ocupam o espaço: eles não poderão cobrar pelo uso do espaço e podem precisar mudar o regime de trabalho e talvez sejam proibidos de vender bebidas também.
Sobre os horários, a concessionária poderá definir a distribuição. O contrato indica que a concessionária ficará com uma parte dos horários reservados. “Pode ocorrer um sufocamento econômico dos clubes, a depender de como serão conduzidas as negociações e dos seus impactos nas fontes de renda tradicionais das agremiações”, explica Beatriz Calheta.
Por fim, sobre o impacto da transferência da gestão para a concessionária, ela aponta que a gestão privada tende a implantar medidas que mudam o perfil do frequentador e priorizam o lucro em vez do uso compartilhado. “Há uma preocupação real com o sufocamento das atividades dos clubes.”
Procurada, a Prefeitura de São Paulo por meio da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) disse que um acordo foi firmado entre a concessionária responsável pelo Parque Municipal Campo de Marte e a Associação dos Clubes Mantenedores da Área de Esportes e Lazer do equipamento para uma gestão compartilhada dos futuros campos de futebol de várzea do local.
“O Aliança da Casa Verde, que participou inicialmente das tratativas, mas abandonou o processo, exercia de forma irregular atividades comerciais na área e mantinha a moradia ocupada pela sra. Soraia Marques Trindade. Como parte da reintegração de posse, ela está sendo assistida pela Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) desde outubro de 2025, quando foi solicitada sua inclusão no programa habitacional Pode Entrar, com previsão de atendimento para o segundo semestre de 2026. A munícipe recebe o auxílio-aluguel desde dezembro de 2025 e está previsto ainda o pagamento de auxílio-mudança na próxima parcela do benefício.”
A Concessionária Campo de Marte ainda não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.
