Oriente Médio

‘Estreito de Ormuz é o principal trunfo do Irã para impor os passos da guerra’, observa analista

Ana Prestes analisa esvaziamento do discurso de ‘mudança de regime’ de Trump e ataques a infraestruturas energéticas

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Manifestante segura bandeira iraniana durante protesto contra ataque dos EUA e de Israel ao Irã, em frente à embaixada dos EUA em Atenas
Manifestante segura bandeira iraniana durante protesto contra ataque dos EUA e de Israel ao Irã, em frente à embaixada dos EUA em Atenas | Crédito: Aggelos Nakkas/AFP

Ao completar quase um mês de conflito, a guerra deflagrada por Estados Unidos e Israel contra o Irã chega a um novo patamar de escalada. Israel bombardeou instalações de gás no coração da economia iraniana, e o Irã respondeu com mísseis contra Tel Aviv. Enquanto isso, a diplomacia parece ter sido substituída pela destruição sistemática de infraestruturas vitais, e a narrativa de “mudança de regime” — tão cara ao discurso inicial de Trump — se esvazia diante da resistência iraniana.

A analista internacional Ana Prestes destacou que, embora haja canais de negociação nos bastidores — principalmente por intermediários —, a diplomacia foi largamente substituída pela força. “Hoje praticamente 80% estão sendo resolvido fora da diplomacia. O Irã tomou a narrativa e tem dado as cartas. O Estreito de Ormuz se confirmou como o principal instrumento para impor os passos da guerra.”

Ela lembra no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, que a ofensiva começou em 28 de fevereiro com o assassinato do aiatolá Ali Khamenei, uma tentativa clara de mudança de regime. “Trump falou em mudança de regime no primeiro dia. Mas, quase um mês depois, esse discurso foi se esvaziando. Não se materializou.”

Prestes aponta que a fala de Trump na segunda-feira (23) foi reveladora. “Perguntaram quem vai controlar o Estreito de Ormuz. Ele respondeu: ‘Eu mesmo, os Estados Unidos e quem eu nomear’. É uma fala muito diferente daquela do primeiro dia.”

Ela explica que as avaliações da inteligência israelense sobre condições propícias para protestos no Irã não se confirmaram. “A leitura do Mossad era de que haveria manifestações para derrubar o governo. Isso não se verificou. O discurso foi se deslocando para a destruição. Agora falam: ‘Vamos destruir. Não importa mais quem vai dirigir, porque vai dirigir o quê? Um país completamente destruído’.”

Sobre os ataques a infraestruturas energéticas, Prestes observa uma progressão. “No início, o Irã atingiu bases militares estadunidenses na região. Agora, os ataques progrediram para estruturas energéticas de parte a parte.”

Ela aponta uma desconexão entre Israel e os Estados Unidos. “Essa noite, dizem que Israel convenceu os EUA a retomar ataques a estruturas energéticas do Irã. A percepção geral é que Israel e os Estados Unidos perderam o controle da operação que iniciaram com tanta determinação.”

A analista destaca o vai-e-vem das declarações estadunidenses. “Uma hora falam que está tudo destruído no Irã; na outra, dizem que não vão atacar certas estruturas porque não estão destruídas. Há muita fragilidade do lado de quem começou a guerra e uma impressionante resistência da parte de quem foi agredido.”

Prestes faz questão de lembrar de onde partiu a agressão. “O Irã foi agredido, violentado, atacado. Teve seu líder assassinado, escolas bombardeadas, crianças mortas. Eles perseguem físicos, engenheiros, cientistas envolvidos com os programas nuclear e energético. Toda uma estrutura está sendo destruída.”

Ela recorda que Trump, no início, disse que a guerra duraria três semanas. “Passaram as três semanas, não está tudo resolvido. Eles estão correndo atrás de resolver questões que não estavam na previsão.”

Sobre a pergunta que muitos ouvintes fazem — se o conflito pode se tornar uma guerra mundial —, Prestes aponta os contornos já existentes. “Se a Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] for ao Estreito de Ormuz para desobstruir o fluxo, quem garante que o Irã não vai atingir estruturas de países da Otan? E lembrar que o Irã controla o estreito: eles permitem o trânsito de acordo com suas regras. Não é uma obstrução cega, é um controle seletivo.”

Ela conclui que, diante da resistência iraniana e da fragilidade da coalizão liderada por Washington, o futuro do conflito permanece incerto. “Israel e Estados Unidos perderam o controle. O Irã tem demonstrado uma capacidade impressionante de ditar os próximos passos.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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