Vera Paiva tinha 17 anos quando seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva, foi preso, torturado e assassinado pela ditadura militar, em 1971. Mais de cinco décadas depois, a professora titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) segue engajada na luta por memória, verdade e justiça no país, agora também como integrante da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), da qual sua mãe, Eunice Paiva, fez parte em 1996.
Às vésperas do aniversário de 62 anos do golpe de 1964 e da 6ª Caminhada do Silêncio, marcada para este domingo (29), em São Paulo (SP), Vera vê o avanço da extrema direita no mundo como parte de um cenário mais amplo de reafirmação de projetos autoritários.
“Nós estamos vivendo, neste momento histórico, a mesma situação de estímulo às ditaduras e de perseguição das democracias pelo império americano. É uma coisa racista, indiscriminada, que trata as pessoas que não são iguais e não pensam igual como alvo”, afirmou, em entrevista ao Brasil de Fato.
Segundo a Comissão Nacional da Verdade, a ditadura deixou ao menos 434 mortos e desaparecidos políticos, além de 8.300 indígenas e 1.196 camponeses atingidos pela violência do regime. Para Vera, porém, essa conta ainda está longe de refletir a dimensão real da repressão. “Eu tenho certeza disso. Porque o que é contado, na verdade, quem denunciou, em geral, era classe média branca, ou pessoas associadas a organizações políticas, ou seja, quem tinha um apoio, digamos, para fazer isso”, diz.
Na conversa, Vera relaciona esse diagnóstico à persistência da violência de Estado no Brasil, à impunidade dos crimes da ditadura e à importância de mobilizações como a Caminhada do Silêncio. Também fala da retomada dos trabalhos da CEMDP, da retificação de certidões de óbito e da identificação de corpos na vala de Perus, em São Paulo.
A psicóloga comenta ainda o papel de filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto na sensibilização de novas gerações e de famílias que, por medo, ainda não haviam contado suas próprias histórias. “O meu sonho é passar o bastão para a sua geração e para os mais novos. Ficarei até morrer nesse movimento, mas eu quero que ele seja renovado”, afirma.
Leia a entrevista completa:
Brasil de Fato: Vera, queria começar te ouvindo sobre a Caminhada do Silêncio, prevista para este domingo (29). Como a tua história se cruza com esse ato e qual é a importância dele, seis anos depois, nesse aniversário doloroso do golpe militar?
Vera Paiva: A caminhada do silêncio que nos inspirou foi a caminhada feita no Uruguai, que junta milhares de pessoas há muitos anos. E a gente, em pleno governo Bolsonaro, com toda aquela defesa da ditadura, da tortura, da perseguição até a morte dos inimigos políticos, achou que não podia mais ficar calado.
Eu não só sou familiar de preso e assassinado político, filha de Rubens e Eunice Paiva, como sou, há muitos anos, membro da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos. Naquele período, a gente achou que não dava para permanecer em lugares diferentes, em reuniões separadas. Precisava fazer frente à comemoração que as pessoas de extrema direita e que sustentaram o golpe queriam impor ao 31 de março e ao 1º de abril.
Então a gente articulou pessoas que trabalham com memória e verdade, com resistência ao apagamento dessa memória, e escolheu sair do lugar onde morreram dezenas de pessoas torturadas. O DOI-Codi da rua Tutóia foi um centro de tortura. Ali se torturou, matou, se violentou da forma mais terrível um monte de mulheres, botaram crianças assistindo à tortura de suas mães. E a gente decidiu caminhar em direção ao monumento, em silêncio, honrando com o silêncio o respeito às pessoas que pereceram e acolhendo o luto.
A diferença, talvez, da nossa caminhada para a do Uruguai, é que a gente incluiu, logo na segunda vez, a lógica de que esta violência de Estado das polícias militares não acabou. Ela se estende e permanece. A violência de Estado ficou uma marca importante, um resquício gigantesco da ditadura, especialmente nas periferias.
Eu tive a chance de ver a marcha do silêncio no Uruguai e é muito impactante. Queria te ouvir, como membro da Comissão de Mortos e Desaparecidos, sobre a retomada do colegiado: o que essa recriação representa e o que já dá para apontar de resultado?
Acho que a primeira coisa a ressaltar é que demorou para o Lula reinstalar a comissão. Porque esse tipo de investigação é uma questão de princípio, que evidentemente não se faz do ponto de vista da extrema direita. Vamos lembrar que o Bolsonaro tentou acabar com a comissão no último ato dele como presidente. Só que a comissão é uma lei, e por isso era complicado extingui-la.
A gente demorou para recompor os trabalhos cotidianos, sem estrutura no ministério, sem condição autônoma de existir. Mas, de lá para cá, eu acho que a gente fez coisas bastante importantes. Uma delas, que está sendo feita, é a mudança do certificado do atestado de óbito. A lei do Fernando Henrique, nos anos 1990, já tinha determinado a entrega dos atestados, mas agora a gente está corrigindo os termos em que eles foram emitidos.
A gente já fez isso em São Paulo, numa sessão super emocionante na Faculdade de Direito, e vai fazer também em Salvador, entregando para várias famílias da Bahia e da região. E é interessante porque muitas famílias, especialmente de origem não branca, mais pobres, finalmente estão tendo coragem de aparecer e se juntar ao movimento, porque elas se sentiam ameaçadas cotidianamente.
Os policiais, que são adeptos dessa ideologia de achar que têm o poder de decidir quem é brasileiro e quem não é, quem merece viver e quem merece morrer, ameaçam diretamente. Então apareceu muita família que participava pouco e muita família que não teve coragem de denunciar que alguém da sua família viveu isso. Esse movimento tem ampliado a confiança dessas pessoas.
A outra coisa que a gente começou a fazer é voltar para investigar ossadas, onde os coveiros, ou o filho do coveiro, ou testemunhas oculares, ou a suspeita dos familiares na época do desaparecimento indicam que aquele era um lugar onde tem ossos de desaparecidos. E a gente fez isso em Perus. Conseguimos identificar dois corpos nas ossadas de Perus. Foi uma das cenas mais fortes e emocionantes da minha vida.
Porque você vê a família recebendo os ossos, literalmente os ossos. Mas o que aquilo significou…Eu fiquei imaginando, inclusive, o que eu sentiria se os ossos do meu pai tivessem aparecido e a gente pudesse enterrá-lo. É muito impressionante o impacto que isso tem na experiência das famílias.
É possível dizer que a mensuração da violência estatal e paraestatal durante a ditadura ainda está subestimada no Brasil?
Eu tenho certeza disso. Porque o que é contado, na verdade, quem denunciou, em geral, era classe média branca, ou pessoas associadas a organizações políticas, ou seja, que tinham um apoio, digamos, para fazer isso. E isso acontece até hoje.
Eu posso te contar uma cena. Quando teve o massacre em Osasco, e a polícia saiu aleatoriamente matando nos bares, nas esquinas, nos pontos de ônibus, 90% negros, porque eles escolhem os negros para matar, a gente participou de um ato público com as mães. E elas não queriam aparecer. Não queriam aparecer no ato público que a gente fez em solidariedade e para amplificar a voz dessas famílias.
Uma delas, que juntou coragem, contou que estava no ponto de ônibus para ir ao ato e tinha um policial do lado dela dizendo: “Você tem mais dois filhos. Você preza pela vida dos seus dois filhos? Por que você vai denunciar?” E ela entendeu que, se denunciasse em público, estaria se protegendo. Mas isso é um pulo do gato muito difícil de realizar sozinha. O que eles fazem é isolar e deixar as pessoas mudas diante dessa história.
A gente dependeu a vida inteira, no Brasil, das mulheres, principalmente, que têm essa coragem de denunciar a violência de Estado.
A marcha do ano passado aconteceu sob o impacto de Ainda Estou Aqui, que conta a história da tua família. E a deste ano vem num momento em que O Agente Secreto também recoloca a violência da ditadura no centro do debate. Queria te ouvir sobre o alcance desses filmes e se eles ajudam no trabalho de memória e na sensibilização de famílias que ainda não tinham se posicionado.
Com certeza ajuda. E, nesse momento em particular, ajuda brutalmente. Esses filmes ajudam, de alguma maneira, a gente tanto fazer a memória como pensar num mundo melhor juntos.
O Ainda Estou Aqui teve uma força muito grande, porque permitiu que as pessoas sentissem na pele um pouco do que era viver numa ditadura, do que era ser uma família engolida pelo silêncio, pelo desaparecimento, pelo controle da informação. E o O Agente Secreto amplia isso, mostra um contexto mais amplo de violência política, de repressão, de perseguição.
Eu acho que a cultura e a arte são fundamentais. E tem sido usadas contra nós também, porque existe cinema muito conservador, shows muito reacionários. Mas, no nosso campo, esses filmes ajudam a recuperar a nossa memória e também a lembrar que, nos momentos de caos, fascismo e morte, quem resiste e quem não perde a humanidade cria o mundo melhor.
Tu trouxeste essa análise para o nosso momento político. Em relação ao ano passado, houve um fato importante: a punição de Bolsonaro e de militares envolvidos na tentativa de golpe. Queria te ouvir sobre a importância simbólica dessa punição.
É um pouco sair do lugar em que o Brasil sempre esteve. Na Argentina, muitos foram presos. O Chile também encaminhou isso em algum momento. Temos poucos países do mundo onde isso de fato foi feito. A própria Alemanha tem várias fases de punição, reparação e marcos de memória. Ter esses marcos de memória é muito importante, e ter a punição cria um marco de memória também.
Cria uma mentalidade de que isto é um crime. Que não pode sair fazendo isso impunemente. Então eu acho que é extremamente importante e a gente tem que sustentar esse exemplo que o Brasil está dando.
E em relação ao voto do ministro Flávio Dino, que defendeu que crimes continuados da ditadura, como ocultação de cadáver e sequestro, não sejam protegidos pela Lei da Anistia e tenham esse entendimento aplicado a outros casos semelhantes, qual é a importância disso?
Muito importante. Não são crimes prescritíveis, são crimes contra a humanidade. E, num certo momento, a negociação da anistia foi feita relevando isso. Eu acho que é super importante o que o Dino está fazendo.
Tu também fizeste uma leitura da conjuntura internacional e eu queria retomar isso. Por que tu ligas esse debate sobre memória e ditadura ao que está acontecendo agora no mundo?
Porque nós estamos vivendo nesse momento histórico, um pouco mais descaradamente, a mesma situação de estímulo às ditaduras e de perseguição das democracias pelo império americano. É muito chocante. Eu nunca imaginei que algum dia a gente ia voltar para esse tipo de situação. Nunca imaginei.
É uma coisa racista, indiscriminada, que trata as pessoas que não são iguais e não pensam igual como alvo. E isso está sendo feito de forma muito amplificada num momento em que a gente tem internet, rede social, tudo isso.
O caos promovido pela extrema direita pode nos horrorizar. E a gente tem que tomar o cuidado para que ele não nos paralise. As grandes mudanças do mundo foram feitas de reações a esse tipo de caos. Foram feitas por pessoas que acreditam na convivência entre os diferentes, que acreditam que a gente pode conviver sem ter que se matar.
Para a gente fechar, queria te perguntar sobre tuas perspectivas de militância e de vida. O que tens pensado para ti e para o Brasil no próximo período? Quais são os teus sonhos nesse momento?
O meu sonho é passar o bastão para a sua geração e para os mais novos, porque eu estou com 72 anos já. Não sou tão jovem e acho que é muito importante renovar esse movimento. Ficarei até morrer nesse movimento, mas eu quero que ele seja renovado.
Meu sonho é que a gente junte muita gente jovem nesse movimento, pensando e antecipando o que pode acontecer com o país de vocês se vocês não se mexerem. A gente já ganhou muita coisa, mas não pode perder o que conquistou. O Brasil precisa continuar no caminho de institucionalização da democracia, dos seus instrumentos, e a gente precisa continuar ampliando para mais gente as benesses de um país democrático e mais justo.
