Lançando um novo livro de contos, O Anonimato dos afetos, o jornalista, escritor e artista visual Jean Wyllys está de olho também nas eleições de outubro de 2026. Não apenas na posição de quem esteve na política e viveu os desafios da disputa com a extrema direita, tendo precisado sair do país por um período, mas como pré-candidato a deputado federal pelo PT-SP.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Wyllys fala sobre sua produção literária, o crescimento do neofascismo no mundo e a desinformação como arma política. “A mentira hoje está mais estruturada do que nunca, especialmente com as big techs. Ela é capilar, chega a mais gente do que a mídia de massa conseguia chegar. E a desinformação funciona como um vírus: ela ativa algo que já está na pessoa: preconceitos, misoginia, racismo, LGBTfobia. Por isso ela é tão eficaz”, avalia.
Wyllys fala sobre o autoritarismo de Donald Trump, as investidas de Israel em Gaza e como as big techs têm dominado a narrativa e criado uma legião de pessoas ansiosas e com sensação de desamparo.
Para ele, existe um ciclo do conservadorismo e da extrema direita do final do século 19 e início do século 20 que se repete neste momento em que pessoas se sentem desamparadas. “A gente está vendo o mundo acabar — o mundo como a gente conheceu está acabando. Um novo mundo está surgindo e está em disputa. Isso, claro, gera ansiedade e medo. E a extrema direita sempre soube canalizar esses sentimentos”, afirma.
Confira a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato: Você lançou recentemente mais um livro de contos, O Anonimato dos Afetos Escondidos, com textos que abordam a violência cotidiana que recai sobre negros, pobres, a população LGBT, especialmente em Salvador e na Salvador que foge do roteiro turístico tradicional, daquela coisa do carnaval que a gente acabou de viver. As imagens são lindas, mas a gente sabe que existe sempre um outro lado das cidades, das grandes metrópoles. O que você encontrou nessa tua incursão pelo Brasil que oprime a diversidade e que ainda retira cada vez mais a possibilidade de afeto das pessoas?
Jean Wyllys: Que interessante essa descrição, gostei muito, porque é exatamente isso. E tem um aspecto interessante em relação a esse livro: a maior parte dos contos eu escrevi há 25 anos, não foram contos escritos agora. Só que quando eu apresentei o livro ao meu editor, Filipe Brandão, ele ficou impressionado. Ele leu o livro e disse: “Parece que você escreveu os contos agora, há dois anos”. Na verdade eu escrevi há 25 anos. O livro, na verdade, é uma espécie de homenagem ao primeiro livro que eu escrevi, que eu ganhei o prêmio Copene de Cultura e Arte, chamado Aflitos. Então a gente decidiu fazer uma homenagem aos 25 anos de Aflitos, reeditando ele com novos contos. E aí, com isso, eu batizei de O Anonimato dos Afetos Escondidos, que é um verso de Luiz Ramalho, daquela música Foi Deus: “Foi Deus que fez o céu, o rancho das estrelas… Deus também fez nascer a eternidade no momento de carinho, fez até o anonimato dos afetos escondidos”, que eu acho que é o verso mais lindo para falar do amor que não ousa dizer o nome, do amor homossexual, do amor bissexual, desse amor que precisa viver na clandestinidade.
Os contos realmente tratam dessa camada mais profunda da cidade de Salvador, uma pele que está abaixo do cartão postal turístico, das imagens do carnaval. Uma Salvador que é majoritariamente negra e mestiça, mas ainda muito racista, com um poder concentrado na mão de uma classe dominante branca, uma Salvador contraditória.
E também, como escritor, eu sempre tive interesse naquilo que a gente pode chamar de os derrotados, os humilhados do mundo. Eu sempre quis dar profundidade a esses personagens, tirá-los das páginas policiais, dar humanidade a essas pessoas. Então esse é um pouco o espírito dos contos. Mas tem contos sobre amor, sobre desencontro, sobre desamor, enfim.
É interessante você falar que esses textos têm mais de 20 anos, mas ainda parecem atuais. Como foi revisar esse material? Teve que revisar muita coisa?
Não revisei quase nada. Na verdade, eu só acrescentei os novos contos. Os antigos eu não mexi absolutamente em nada, nem em uma vírgula. E aí, modéstia à parte, tem uma coisa que é a precisão. Quando você escreve conto, que é uma das formas mais difíceis da ficção, você precisa construir uma história com início, meio e fim, criar uma virada, um plot twist, algo que interesse ao leitor, e sintetizar tudo isso. Meus contos às vezes têm uma página e meia, mas têm uma história completa ali.
Um deles, inclusive, vai virar filme, chama-se Bolero de Satã, com direção de Ceci Alves, uma cineasta baiana. Então eu não mexi em quase nada nos textos antigos. Nos novos, talvez uma coisa ou outra.
E é curioso porque eu estreei como escritor de ficção. Depois fui para a não ficção, com Tempo Bom, Tempo Ruim, que era um diagnóstico sobre o Brasil de 2015, sobre a emergência do fascismo — um livro que, de certa forma, acertou no diagnóstico. Depois escrevi outros ensaios. Esse retorno à ficção mostra que há uma coerência entre o que eu escrevo ficcionalmente e a análise política.
É importante que essa análise política converse com a ficção. Acho que isso tem acontecido cada vez mais. Teve até uma polêmica recente de uma escritora que disse que a literatura acabou, porque as pessoas não estavam mais lidando com a forma como antes. Mas eu acho que está muito viva. Temos uma geração de novos escritores falando a partir do seu ponto de vista.
Eu não gosto desses decretos de que “a literatura acabou”. Isso não é verdade. Quando um escritor sente necessidade de falar do seu mundo interior ou do mundo ao redor, a literatura segue viva. Temos muitas formas de fazer literatura. Na não ficção eu me coloco mais como cidadão, como intelectual público. Na ficção eu me permito viajar mais, inventar histórias, inventar mundos, ainda que sejam mundos plausíveis.
Por exemplo, há um conto em que um homem dirige um Porsche por Salvador, vê algo se movendo na pista num dia chuvoso, pensa que é um cachorro, mas ao se aproximar percebe que é uma pessoa com deficiência, preta e pobre, tentando atravessar a rua. E ele acelera e passa por cima. É um tipo de psicopatia que existe, que está viva. E eu escrevi isso há 25 anos. É um mundo inventado, mas plausível. Essa é a marca da minha literatura.
A gente vive um momento em que a força e o poder têm sobressaído ao afeto, nas relações sociais, políticas e geopolíticas. Que mundo estamos construindo?
O mundo está em disputa. Vou usar essa expressão, que é também título de um livro da Márcia Tiburi. O mundo está em disputa nesse momento. E vocês, as mulheres, têm um papel importante na conservação do que é importante conservar. A palavra conservadorismo ganhou uma conotação ruim, mas precisamos conservar o que há de melhor e transformar o que nos deteriora como seres humanos.
A questão climática, a desinformação, que eu acho gravíssima, tudo isso está em jogo. Numa guerra, a primeira coisa que morre é a verdade. E hoje vivemos um momento de desinformação profunda. As mídias sociais transformaram a desinformação em negócio.
A Hannah Arendt falava em “mentira organizada”, e eu trabalho esse conceito para pensar como a mentira hoje está mais estruturada do que nunca, especialmente com as big techs. Ela é capilar, chega a mais gente do que a mídia de massa conseguia chegar.
E a desinformação funciona como um vírus: ela ativa algo que já está na pessoa: preconceitos, misoginia, racismo, LGBTfobia. Por isso ela é tão eficaz.
Eu vi isso de perto em Barcelona, durante a eleição da Ada Colau. Uma campanha de desinformação organizada pela extrema direita disseminou mentiras absurdas sobre imigrantes, e muita gente acreditou, porque já havia um preconceito latente. A mentira é confortável quando reafirma o que a pessoa já acredita.
E infelizmente, o enfrentamento a esse fenômeno ainda é insuficiente. As redes lucram com os “afetos tristes” — ódio, ressentimento, inveja — que mantêm as pessoas engajadas. Eu analiso isso no meu livro Falsolatria, sobre o fenômeno da desinformação contemporânea.
Jean, queria voltar aos temas contemporâneos. Trump e Netanyahu parecem mensageiros de uma nova ordem destrutiva. Esse neofascismo ganhou liberdade?
A história não se repete, mas rima, como disse Walter Benjamin. Ou, como Marx, primeiro como tragédia, depois como farsa. Mas eu prefiro a ideia de rima histórica. Quando os meios de comunicação se transformaram no fim do século 19 e início do 20, surgiram os meios de massa e com eles um ciclo fascista. Hoje, com a transformação digital, estamos vivendo algo análogo.
Os meios digitais, as big techs, a cultura digital geram ansiedade, medo. E a extrema direita sabe canalizar isso. Quando as pessoas têm medo do futuro, da segurança, da comida, elas fazem um movimento psíquico de entrega.
Quando os meios de comunicação sofreram a transformação do final do século 19 para o início do século 20, dessas transformações nasceram os meios de comunicação de massa, e o mundo viveu um ciclo fascista: o fascismo histórico na Itália, o nazismo na Alemanha, o franquismo na Espanha, o salazarismo em Portugal. Ou seja, um ciclo dos anos 1920, 1930 e 1940. Mas tudo começa na virada do século 19 para o início do século 20.
Nós tivemos duas guerras nesse período, guerras que foram chamadas de mundiais, mas que não eram totalmente mundiais. Agora nós estamos diante de uma nova transformação dos meios de comunicação. Nascem os meios digitais, nasce a cultura digital, nascem as big techs. O mundo entra numa espécie de histeria e ansiedade. Na verdade, a gente está vendo o mundo acabar — o mundo como a gente conheceu está acabando. Um novo mundo está surgindo e está em disputa. Isso, claro, gera ansiedade e medo.
E a extrema direita sempre soube canalizar a ansiedade e o medo. Quando as pessoas estão com medo do futuro, quando não sabem se terão garantia de comida, de segurança, de um futuro, a primeira coisa que fazem é um movimento psíquico: entregar suas vidas nas mãos de um líder, de alguém que as desobrigue de assumir responsabilidades. Então aquele ciclo de extrema direita que vimos no início do século 20 parece se repetir agora.
O chocante no que envolve Israel é justamente parecer que parte das pessoas, especialmente o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, não tem memória histórica do que viveu o povo judeu na Alemanha nazista.
Aprovar pena de morte — depois de 1948, da Declaração Universal dos Direitos Humanos — para presos políticos de uma única etnia é muito grave. E mais grave ainda se lembrarmos que isso vem de um povo que foi alvo de um assassinato em massa industrial, como ocorreu na Alemanha nazista.
E é o que eles têm perpetrado também desde 1948 na Palestina: um genocídio constante, programado. Tivemos recentemente mais um conflito, mas não é só isso. Há muito tempo vemos, por exemplo, palestinos na Cisjordânia tendo seus poços de água cimentados por Israel. É uma colonização, essa é a verdade.
E é importante deixar claro: toda vez que se faz uma crítica a Israel, ao sionismo, especialmente ao de Netanyahu, há uma tentativa de confundir isso com antissemitismo. Mas não é a mesma coisa. A comunidade judaica, que sofreu perseguições ao longo da história, tem direito a uma terra, a um lugar. O que não pode é achar que só ela tem esse direito, nem retirar pessoas que já estavam ali para se estabelecer no lugar delas. Isso é colonização, como fizeram portugueses e espanhóis nas Américas, ou como ocorreu na África do Sul com o apartheid.
Israel hoje pratica algo muito próximo de um regime de apartheid. Isso quer dizer que todos em Israel concordam com isso? Não. Existe uma esquerda israelense, que luta pela solução de dois Estados, que critica Netanyahu. Mas é uma esquerda minoritária, com pouca voz. Quem se impõe são os setores sionistas de direita, colonizadores, racistas em relação aos palestinos.
E dizer isso não é ser antissemita. É uma crítica política, como se faz a qualquer tirano, como também no caso de Donald Trump.
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