RESGATE AUDIOVISUAL

Aos 92 anos, protagonista de ‘Vento Norte’ revisita filme que marcou o cinema gaúcho

Primeiro longa sonoro produzido no RS foi restaurado e volta à cena após décadas de esquecimento

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Patrícia Diniz, nome artístico de Ione Stumpf Martimbianco, foi a protagonista do filme de 1951
Patrícia Diniz, nome artístico de Ione Stumpf Martimbianco, foi a protagonista do filme de 1951 | Crédito: Jorge Leão

“Esse filme mostra um pedaço do Rio Grande do Sul. Deveria estar nas escolas, nas prefeituras, para que as pessoas conheçam essa história.” A fala é de Patrícia Diniz, nome artístico de Ione Stumpf Martimbianco, protagonista de Vento Norte (1951), considerado o primeiro longa-metragem de ficção sonoro produzido no Rio Grande do Sul. O filme pioneiro do cinema gaúcho, dirigido por Salomão Scliar, volta a circular em festivais internacionais após restauração, e terá novas exibições ao longo de 2026, enquanto a atriz relembra a trajetória da obra e critica o apagamento histórico do audiovisual brasileiro.

Mais de sete décadas após o lançamento, a obra volta ao centro do debate com a restauração em 4K conduzida pela Cinemateca Capitólio, em parceria com a Cinemateca Brasileira de São Paulo, com apoio da Link Digital e Mapa Filmes, com a coordenação técnica de restauração de Débora Butruce, da Mnemosine Serviços Audiovisuais.

A nova versão do longa já foi exibida na mostra Cinema Regained do Festival Internacional de Cinema de Roterdã, na Holanda, dedicada a obras restauradas e clássicos do cinema mundial. A circulação deve seguir ao longo do ano, com exibições previstas em festivais e também na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre.

Filmado em preto e branco na cidade de Torres, o longa retrata a rotina de uma vila de pescadores impactada pelo vento norte, fenômeno que afasta os peixes e aprofunda a fome e as dificuldades da comunidade. A chegada de um forasteiro intensifica tensões e desencadeia conflitos que conduzem a um desfecho trágico.

Por décadas, o filme sobreviveu com poucas cópias e permaneceu pouco conhecido do grande público. Aos 92 anos, em entrevista ao Brasil de Fato RS, a atriz revisita sua trajetória no cinema e reflete sobre o reconhecimento tardio de uma obra que, agora, começa a alcançar novas gerações.

“Eu era muito nova, pouco sabia de como era o mundo do cinema, somente o que via na TV, raramente” | Crédito: Jorge Leão

Abaixo, a entrevista completa:

Brasil de Fato RS – Como foi feita a descoberta da atriz principal do filme Vento Norte?

Ione Stumpf Martimbianco – Em um baile municipal na cidade de Canela, um senhor já grisalho se aproximou e me convidou para dançar. Durante a dança, ele perguntou se eu não estaria interessada em fazer um filme em Torres, sobre uma vila de pescadores. Aí ele perguntou minha profissão, falei que era professora.

Eu conhecia Torres, pois fui algumas vezes quando criança. Continuei a perguntar mais sobre o filme. Ele disse que era sobre a fome, dos pescadores não terem o que comer devido ao vento norte. Ele explicou que o vento levava a água para outra direção, afastando os peixes. Me interessei pela história.

E como a senhora descobre quem é o diretor do filme?

Esse senhor, amigo do Salomão Scliar, me falou que o diretor do filme era um fotógrafo. Ele vivia no Rio de Janeiro.

Vento Norte é um vento que é meio um agouro para os pescadores: falta peixe, eles não têm o que comer, eles não conseguem vender. Essa seria uma parte da narrativa do filme. A senhora acha que o Salomão Scliar quis ir além de um documentário sobre uma vila de pescadores? Se sim, se ele fizesse só sobre o vento norte, a realidade dos pescadores, não ter comida, a dificuldade de pescar e vender, não ficaria com uma lacuna?

Sim, talvez o filme não tivesse uma atração. Aí ele traz esse enredo. Traz essa história. Um romance, um triângulo amoroso que, para a época, era algo pouco falado na sociedade.

Eu não me dava conta de que isso seria um romance e que teria um triângulo amoroso. Eu era muito nova, pouco sabia de como era o mundo do cinema, somente o que via na TV, raramente. Fui um pouco resistente, mas aceitei fazer o filme com a autorização da minha mãe e após ver o roteiro, porém não percebi direito que haveria esse romance no filme. Se eu hoje fosse pensar, eu não sei se faria o filme.

Filme volta a circular em festivais internacionais após restauração | Crédito: Arquivo Pessoal

A senhora não sentiu falta de reconhecimento durante todos estes anos em relação ao filme? Acha que esse filme deveria ter sido mais reconhecido?

Eu achava bacana ter feito o filme. Aí depois eu fiquei pensando no registro deste filme para a história. Um filme para ser exibido nas escolas. Deveria estar na Secretaria de Educação do Estado, nas prefeituras, porque é uma história que mostra um pedaço do Rio Grande do Sul.

Como é para a senhora hoje, revendo o filme, a dona Ione, já uma senhora de idade, olhando aquela jovem atriz bonita e talentosa? Como a senhora hoje enxerga o seu personagem?

Uma sensação muito boa. Eu sinto que fiz o que tinha que ser feito na época em que decidi fazer o filme, ser uma atriz. Eu era a atriz principal do filme sem nunca ter feito cinema ou teatro na minha vida. Tinha 17 anos, mulher e, na época, assim como hoje, sofrendo os preconceitos de uma sociedade machista.

Naquela época não era como hoje, tínhamos que ficar em silêncio, pois não havia espaço para as mulheres na sociedade se posicionarem.

Quem foram os patrocinadores na época que acreditaram neste projeto pioneiro no cinema do Rio Grande do Sul?

Os donos do Jornal do Comércio. Eles que financiaram tudo. Todo o filme. A família Jarros. Depois que terminou o filme, eu tive que ficar um tempo aqui em Porto Alegre, por causa dos compromissos sociais, não pude voltar para Canela por conta disso. Eles pagaram até por esse tempo que fiquei em Porto Alegre.

A senhora lembra de algum problema após a conclusão do filme?

Lembro, sim. Ao término do filme, descobriu-se que o som havia sido prejudicado pelo barulho do vento. Tivemos que ir para o Rio de Janeiro para gravar todas as falas novamente, tivemos que nos dublar. Eu, com 17 anos, indo para o Rio de Janeiro, foi um grande problema no início, pois minha mãe questionou essa viagem, mas autorizou após um tio ir junto.

Por que o filme Vento Norte ficou tanto tempo esquecido?

Esse filme, quando a Casa de Cultura Mário Quintana foi inaugurada, foi exibido. Eu fui assistir. Foi a primeira vez que eu vi. Eu nunca tinha visto.

Na época do lançamento do filme, quais personalidades importantes prestigiaram o evento?

Lembro do governador Ernesto Dornelles e do prefeito Ildo Meneguetti, mas outras autoridades também se fizeram presentes durante os jantares e agendas referentes ao filme.

O filme, há pouco tempo, participou do Festival de Cinema de Rotterdam, na Holanda. A senhora não se sentiu esquecida, tendo em vista que o filme poderia ter a atriz principal presente no evento?

Isso só prova que, tanto lá como agora, vivemos em um país sem memória. Não houve nenhuma busca pelo elenco principal do filme, se estávamos vivos ainda. Descaso ou falta de interesse em resgatar os personagens e dar mais importância para a restauração.

Editado por: Marcelo Ferreira

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