O Irã disse, nesta segunda-feira (6), que não vai aceitar o plano de 15 pontos apresentado pelos Estados Unidos no mês passado ou o apresentado pelo Paquistão para um cessar-fogo provisório na guerra iniciada por militares israelenses e estadunidenses em fevereiro. As declarações ocorrem na véspera do final do prazo dado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para a abertura do Estreito de Ormuz.
Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, afirmou também que Teerã tem suas exigências para o fim da guerra, mas que as divulgaria apenas no momento oportuno.
“Há alguns dias, eles apresentaram propostas por meio de intermediários, e o plano de 15 pontos dos EUA foi replicado pelo Paquistão e alguns outros países aliados”, disse Baghaei. “Tais propostas são extremamente ambiciosas, incomuns e ilógicas”, disse, ressaltando que o Irã possui seu próprio plano.
“Chegamos a um conjunto de exigências com base em nossos próprios interesses e em nossas próprias considerações”, afirmou. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores também rejeitou a ideia de que dialogar com mediadores seja sinal de fraqueza.
Teerã não reabrirá o estreito como parte de um cessar-fogo temporário, confirmou um alto funcionário iraniano à Reuters nesta segunda-feira, acrescentando que não aceitará prazos enquanto analisa a proposta. Washington também não está preparada para um cessar-fogo permanente, disse o funcionário.
Os EUA ainda não responderam à proposta do Paquistão, com um plano em duas etapas para o fim da guerra. A ideia seria que um cessar-fogo entrasse em vigor imediatamente, reabrindo o Estreito de Ormuz, com um prazo adicional de 15 a 20 dias para finalizar um acordo mais abrangente.
O acordo, provisoriamente denominado “Acordo de Islamabad”, incluiria uma estrutura regional para o estreito, com negociações presenciais finais na capital do Paquistão. A força naval da Guarda Revolucionária, no entanto, anunciou nesta segunda que está preparando uma “nova ordem” no Golfo e que as condições no Estreito de Ormuz “nunca voltarão ao status anterior, em particular para Estados Unidos e Israel”.
‘Só interessa ao inimigo’
A agência de notícias semioficial iraniana Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária, disse que “Trump provavelmente está tentando recuar dessa ameaça pela terceira vez, plenamente consciente da determinação decisiva do Irã em responder a qualquer insanidade relacionada a usinas de energia e outras infraestruturas. Esse tipo de notícia pode ter como objetivo preparar o terreno para essa questão, embora isso seja apenas uma possibilidade”.
“O Irã declarou repetidamente que não concorda com cessar-fogos temporários que mantenham a sombra da guerra; por exemplo, o Irã recentemente se opôs a um cessar-fogo de 48 horas. A razão para essa oposição é óbvia: os inimigos sionistas-americanos, pressionados pela guerra e confusos, pretendem explorar a oportunidade de cessar-fogos comuns e sem enquadramento para escapar da crise de munição e do emaranhamento estratégico.”
“Um cessar-fogo temporário acompanhado da sombra da guerra, sem atender às condições necessárias do Irã para o fim do conflito, simplesmente permite que o inimigo se reorganize. Além disso, eles manterão a sombra da guerra sobre o Irã mesmo durante esse cessar-fogo, beneficiando-se assim de seus objetivos anti-iranianos nos domínios militar, econômico, político e outros.”
“Considerando as diretrizes repetidamente apresentadas por autoridades iranianas até o momento, um ‘cessar-fogo temporário que mantém a sombra da guerra’ não encontra respaldo na doutrina iraniana para o fim do conflito atual.”
O Irã anunciou que a guerra só poderá terminar sob condições que incluem, entre outras coisas, uma garantia concreta contra novas agressões por parte de inimigos americanos e sionistas, além de diversas outras condições inegociáveis.
“Ademais, a questão da nova ordem relativa ao Estreito de Ormuz é evidente: esse estreito jamais retornará às condições que existiam antes da guerra”, afirmou o grupo de análise de guerra da Tasnim.
Trump nervoso
A mais recente investida diplomática do Paquistão ocorre em meio à escalada das hostilidades, que aumentaram as preocupações com a interrupção da navegação pelo Estreito de Ormuz, via crucial para o abastecimento global de combustível. Mais de 20% do petróleo e gás do mundo passa por essa hidrovia, que permanece sob um bloqueio iraniano de fato.
Trump, em uma postagem repleta de palavrões no domingo, ameaçou causar um “inferno” em Teerã caso o país não chegue a um acordo até o final de terça-feira (7) para reabrir o estreito. “Abram o… Estreito, seus bastardos loucos, ou vocês vão viver no inferno”, escreveu Trump no domingo em sua plataforma Truth Social, fixando para a noite de terça-feira (21h de Brasília) um novo ultimato para a reabertura de Ormuz.
Após as ameaças do magnata de atacar instalações civis, o vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, denunciou possíveis “crimes de guerra”. Já o comando militar iraniano advertiu, em um comunicado, que “se os ataques contra alvos civis prosseguirem, as próximas fases de nossas operações de ataque e de represália serão muito mais devastadoras e amplas”.
Dia 38 da guerra
O Irã lançou novos ataques contra Israel e os países do Golfo nesta segunda-feira (6). Mais de um mês após o início da guerra no Oriente Médio, que provocou milhares de mortes e abalou a economia mundial, Teerã voltou a lançar mísseis e drones contra Israel, Kuwait e Emirados Árabes Unidos.
Em Israel, os bombeiros informaram que encontraram duas pessoas mortas sob os escombros de um edifício atingido no domingo por um míssil iraniano em Haifa, norte do país. Outras duas pessoas estão desaparecidas.
O Exército israelense, por sua vez, anunciou uma nova série de ataques contra Teerã. A Guarda Revolucionária, o exército ideológico do Irã, anunciou, nesta segunda, a morte de seu chefe de inteligência em um bombardeio.
“O general Majid Khademi (…) morreu como mártir no ataque terrorista e criminoso do inimigo americano-sionista”, afirmou a Guarda em seu canal no Telegram.
Na capital iraniana, uma instalação de gás foi danificada por um ataque, o que privou parte da cidade de abastecimento, informou a televisão estatal Irib. A universidade que fica ao lado da infraestrutura também sofreu danos.
Segundo a imprensa iraniana, vários ataques atingiram bairros residenciais de Teerã, onde oito hospitais foram evacuados. Na cidade de Qom, no centro do país, cinco pessoas morreram em um ataque contra um bairro residencial, informou a agência Tasnim.
As ameaças continuam afetando os mercados: as cotações do barril de Brent e de WTI, as duas principais referências do petróleo, oscilavam nesta segunda-feira em torno dos US$ 110 por barril. Rússia, Arábia Saudita e outros seis membros do cartel de petróleo Opep+ decidiram aumentar novamente as cotas de produção a partir de maio.
