PELA CIDADE BAIXA

Amada Massa transforma a realidade de pessoas que lutam para sair da extrema pobreza em Porto Alegre

A busca de justiça e reparação social ‘através’ do pão é o permanente desafio do projeto social

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Amada Massa é um Clube de Pães que começou a ser construído na luta e na militância pela garantia de direitos de pessoas em situação de rua ou com trajetória de fragilidade
Amada Massa é um Clube de Pães que começou a ser construído na luta e na militância pela garantia de direitos de pessoas em situação de rua ou com trajetória de fragilidade | Crédito: Rafa Dotti

Um café preto, no ponto ideal, um pão de cenoura quentinho, com um sabor especial, recepcionam os visitantes na Amada Massa, rua Sebastião Leão, 90, na Cidade Baixa. Fica bem no limite do bairro com a Azenha. Ali, uma iniciativa de reparação social a partir do pão, da massa, a instituição constrói o futuro de algumas pessoas que vivem e lutam para sair da extrema vulnerabilidade social. É uma rede de gente simples, que está em situação precária ou até de rua, mulheres vítimas de violência, apoiadores, 80 assinantes de pães, colaboradores de várias frentes.

Uma destas voluntárias, uma faz de tudo – administração, redes sociais, reuniões, coordena as atividades da padaria e de entrega dos produtos – é a baiana Amanda Ribeiro, que está no projeto há sete anos. É educadora social, especializada em redução de danos (busca de justiça social para os excluídos) e assistente social. “Aqui a gente busca proporcionar renda para vulneráveis, proporcionar vida digna. Não é só solidariedade que fazemos, buscamos que as pessoas ganhem um modo de poder e dinheiro para desfrutar dos benefícios a que todo ser humano tem direito”, afirma, entusiasmada. “É o tipo de organização que não existe no Brasil.”

O projeto integra uma rede com pessoas em situação precária ou até de rua, mulheres vítimas de violência, apoiadores, 80 assinantes de pães e colaboradores de várias frentes | Crédito: Rafa Dotti

Amanda diz que a vida financeira das pessoas que ali estão é o que mais importa. E é por isso que ela está atrás da criação do CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) para tornar a padaria mais rentável, com variadas opções e maiores possibilidades de recursos. “Assim, poderemos trabalhar com mais tranquilidade, financiar com mais calma o aluguel de R$ 3 mil, pagar os insumos para os pães, pizzas, bolos, pães de hambúrguer e fazer a gestão do local sem complicações e sem perder a cabeça no fim do mês”, conta ela.

“Nossa produção é totalmente vegana, sem leite, sem ovos. Usamos maçã, brócolis, cenoura, banana, beterraba, cacau, milho, erva doce, batata-doce, ora pro nobis, uma planta verdadeiramente milagrosa que dá um toque especial na produção. Também produzimos panetones com frutas cristalizadas, mas ainda estamos em fase de aprendizado”, relata Taís Soares, uma das “padeiras” do grupo. Os pães têm aproximadamente 500g e são de fermentação natural e, a cada semana, a ideia é oferecer um sabor diferente.

Um clube de pães para garantir direitos

Os pães são entregues de bicicleta em quatro rotas de regiões próximas à Cidade Baixa | Crédito: Rafa Dotti

Os assalariados ali são Édson Campos, Jones Barbosa, Taís Soares e Michelle Aparecida. Eles fazem pães, pizzas, bolos, pães para hambúrgueres. Eles cozinham, embalam e até entregam de bicicleta em quatro rotas de regiões próximas à Cidade Baixa. Há também coleta direta no próprio local. Os pães que os colaboradores, ou assinantes, não buscam são entregues para moradores em situação de rua. Os demais trabalhadores, como Amanda Ribeiro, Matheus Coimbra, Carla Maicá, Danielle Entrudo e Carmel Mostardeiro, jornalista e divulgadora, constituem a base de ação do grupo.

“A Amada Massa é um verdadeiro Clube de Pães e começou a ser construído na luta e na militância pela garantia de direitos de pessoas em situação de rua ou com trajetória de fragilidade, somada à experimentação em processos de Redução de Danos, de Comunicação Não-Violenta e de Princípios de Justiça Restaurativa”, relata Amanda. Os assinantes semanais de pães artesanais orgânicos unem ingredientes como nutrição, confiança e esperança em organizar uma sociedade mais justa e digna.

O projeto começou do absolutamente nada. Três pessoas em situação de rua – Daniel, Kadu e Anderson – decidiram se unir em 2017 para fazer alguma coisa para ganhar dinheiro e viver sem as tragédias que enfrentavam para sobreviver no dia a dia. Na primeira fase da iniciativa, os pães eram produzidos na casa da Madá, uma das facilitadoras e conhecida dos três, e as pessoas participantes realizavam a venda e partilhavam de um espaço de acolhimento baseado em escutas e troca de experiências.

Uma ideia que vai dando certo e crescendo

Uma destas voluntárias, uma faz de tudo, é a baiana Amanda Ribeiro, que está no projeto há sete anos | Crédito: Rafa Dotti

Foi dando certo. Com dificuldades, acertos, sucessos e fracassos. Depois que constataram que poderiam engrenar na atividade de fabricar pães e derivados, alugaram uma casa, onde a tranquilidade e autonomia seriam maiores. Após capacitação, as pessoas foram se unindo ao grupo e passaram a fazer parte da produção dos pães, das entregas e de muitas outras atividades, permanecendo com a venda direta e mantendo e potencializando o espaço de acolhimento. Os fundadores cederam o seu espaço e partiram para outras atividades. Mas a ideia se manteve de pé.

Hoje, quem toca o projeto é um grupo de colaboradores e funcionários, todos podem opinar, sugerir e mandar. Vivem a essência da democracia. A intenção é evoluir e partir para a produção diária de pães, proporcionando mais aprendizado, espaços de acolhimento, trabalho e renda, além de aumentar o acesso para mais pessoas pelas mãos e mentes de quem fez acontecer a iniciativa até aqui. O nome surgiu através de uma sugestão dos trabalhadores: Amada de Madá e Massa da atividade que exerceriam.

Quem toca o projeto é um grupo de colaboradores e funcionários, todos podem opinar, sugerir e mandar | Crédito: Rafa Dotti

A Amada Massa vem dividindo a semana em reuniões para definição de tarefas, produção de pizzas (segundas e terças), pães (quartas), cursos e oficinas para formação de novos interessados na ‘fábrica’. O dinheiro que entra é para pagar algumas pessoas que vivem daquela renda, pagamento de insumos e gastos com aluguel, luz, água. Não tem qualquer ligação com prefeitura, Estado ou empresas particulares. Além disso, vendem ecobags, chapéus e camisetas para aumentar o faturamento.

Parcerias garantem sustentabilidade

As parcerias também dão sustentabilidade para o Amada Massa. Uma delas é com a Cozinha Solidária da Azenha, que recebe 350 pães para hambúrgueres toda a semana. Outro contrato é com a Koinós* para fornecimento de pães aos alunos de seus cursinhos. O jornal Boca de Rua, conduzido pela jornalista Rosina Duarte, com 26 anos de circulação, é outra entidade estritamente social e dirigida para o pessoal em situação de rua, que tem uma espécie de convênio com o grupo. E, assim, vai indo.

Entre as parcerias, a Cozinha Solidária da Azenha recebe 350 pães para hambúrgueres toda a semana | Crédito: Rafa Dotti

Nada ali é feito sem organização, aos trancos e barrancos. A higiene é fundamental. Apreenderam com “o pessoal da Ufrgs” que trabalhar assim garante o sucesso da iniciativa. Todos ali usam toucas para proteger os produtos. Há também apostilas de receitas de vários tipos de pães, que são seguidas à risca na hora da confecção, para que não saia tudo errado e venham a perder clientes importantes. “O sabor, a qualidade e a apresentação são fundamentais”, diz Thaís.

“Para aprender a desempenhar as atividades do Amada Massa, os integrantes fazem também cursos de boas práticas na cozinha. O trabalho é complexo e requer muitos cuidados. “Tivemos aulas sobre como manusear os pães e a importância da limpeza, como lavar bem as mãos. Não pode nem encostar no celular, para não ter o risco de contaminar a produção “, acrescenta.

Outro detalhe importante, ressaltado por Amanda, é que os voluntários vivem ali em ambiente de trabalho e harmonia. Toda desavença é resolvida em paz. A disciplina é essencial, eles cumprem suas tabelas de horários, assim as conquistas do grupo são graduais. E, certamente, vão ganhando consciência de que podem superar as dificuldades da vida com uma profissão e um salário que lhes garanta dignidade e justiça.

* Instituto Koinós é uma organização de conexões para transformações sociais. O projeto tem mais de cem parcerias em programas, ações e atividades desenvolvidas por associações e movimentos no campo do Rio Grande do Sul e na periferia da Região Metropolitana de Porto Alegre, constituindo conexões e redes que conferiam ênfase à dimensão social, articulando-a nos âmbitos da educação, cultura, assistência, trabalho e meio ambiente, sempre buscando incentivar e fortalecer movimentos e redes populares voltadas para a proteção e efetivação de direitos, criação de oportunidades e redução das desigualdades.

Editado por: Katia Marko

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