MEMÓRIA

Fruto de oficinas de ONG, curta recupera história da Ilha do Pavão

Realizado em 2023, documentário começa a ser exibido aos porto-alegrenses

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Oficinas de artes para jovens na Ilha do Pavão envolviam pinturas e conversa com artistas
Oficinas de artes para jovens na Ilha do Pavão envolviam pinturas e conversa com artistas | Crédito: Luiz Abreu/Divulgação

Os habitantes da região do arquipélago de ilhas do Delta do Jacuí, pertencentes ao município de Porto Alegre, foram foco da busca por notícias na última grande enchente, tendo as atenções voltadas para as suas necessidades específicas desde então. Antes, porém, em 2023, uma equipe de artistas que foi ministrar oficinas para os jovens do local enxergou a possibilidade de produzir um filme narrando a história da Ilha do Pavão, desafios particulares como a carência crônica de água e as características de sua gente.

Realizado de forma independente a partir do projeto de artes, o documentário em curta-metragem Ilha do Pavão – Uma Luta Para Existir, foi dirigido por Cha Dafol e Amaro Abreu. A parceria nasceu em função da conexão dos realizadores com a ONG Misturai e outras instituições atuantes na região.

A Ilha do Pavão é um local de alta vulnerabilidade social, onde vivem mais de 180 famílias, na Região Metropolitana de Porto Alegre. O lugar abriga pessoas que em sua maior parte trabalham com a pesca e a reciclagem. Ela é habitada praticamente por mulheres, porém a comunidade também acolhe imigrantes haitianos e senegaleses que viviam em situação de rua.

Por ser um espaço distante dos grandes centros urbanos, a participação de equipamentos públicos é praticamente nula. Apesar de abrigar uma grande quantidade de crianças e adolescentes, não são oferecidas atividades culturais, demonstrando uma lacuna na presença do Estado nesse local, por isso, o mote de filmar essa realidade.

Musicista e ativista nômade, Cha Dafol dirigiu o documentário De Olhos Abertos, que conta a história do jornal Boca de Rua, projeto feito por pessoas em situação de rua na capital gaúcha. O filme ganhou diversos prêmios em festivais brasileiros e internacionais. Além disso, a cineasta e escritora faz parte do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre outras atividades sociais, e, depois de se mudar para Recife, atualmente, está radicada no Haiti (em missão de 2 anos com o MST).

Amaro Abreu atua nas artes visuais, com foco em arte urbana e cinema, e participou de diversos festivais na Europa, Ásia e América. Em 2018, fez uma residência pelo Oriente Médio, pintando no campo de refugiados Nahr al-Bared. Em 2023, foi o único artista brasileiro convidado a participar da Bienal de Moscou, na Rússia. Reside agora em São Paulo.

O título já foi lançado e está sendo exibido em alguns espaços em Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. O próximo lugar a receber uma sessão na capital gaúcha deve ser a instituição Alice, mas ainda não foi definida uma data para o evento.

Exibição na Ilha do Pavão

Segundo os diretores, a ilha atualmente passou por um processo de compra assistida por conta das enchentes e quase todas as famílias saíram de lá. As famílias se mudaram para destinos distantes umas das outras, não se concentrando mais na mesma região. Portanto, há uma dificuldade recente de reunir os envolvidos com o filme em um local específico para fazer uma projeção. Porém, a tentativa continua, assim como a luta por vivências melhores.

“Não conhecia a Ilha, como todo mundo”

A produção em curta-metragem traz o ponto de vista dos envolvidos com as oficinas de artes na Ilha do Pavão, reproduzindo falas de moradores, trabalhadores e dos artistas que visitavam o local. Em Ilha do Pavão – Uma Luta Para Existir, quem dá a contextualização histórica do local é a pesquisadora Teresinha Carvalho da Silva: “Ela começa a ser ocupada no século 18, por pessoas de alto poder aquisitivo, em uma época de glória e ambição do esporte” (o destino é bastante relacionado à sede campestre do Grêmio Náutico União, referência em equipes de remo).

Sobre o nome do lugar, Silva explica que era normal chamar o local de acordo com as coisas que tinham lá, como “Ilha das Formigas” ou “Ilha das Pombas”, animais que havia em quantidade. “O pavão significava poder àqueles que vinham se aproximando da ilha”, analisa.

A história de Sandra Ferreira, presidenta da Associação de Moradores da Ilha, com a região chega a ser cômica: “Só que eu não conhecia a Ilha do Pavão, como todo mundo. Fui fazer um trabalho na Ilha dos Marinheiros, e errei a ilha.”

Ferreira complementa: “A ilha era mal falada, pois queriam tirar as pessoas daqui. A presença constante do Estado é somente com a polícia, para oprimir. Precisam entender que as pessoas daqui são nativas, estão aqui há mais de 60 anos, e, com toda a sua simplicidade, precisam ser respeitadas. Assim como as árvores e os animais, compõem o conjunto do Arquipélago”.

O depoimento do Padre Rudimar, da Reitoria das Ilhas da Igreja da Nossa Senhora da Boa Viagem, corrobora essa visão: “A gente se sente abandonado pelo poder público, as políticas públicas deveriam ter um olhar diferente para as Ilhas”.

Editado por: Katia Marko

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