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Rússia diante da crise iraniana: derrota dos EUA, multilateralismo e redefinição de ordem global

Moscou condena agressão de Washington e Tel Aviv e vê na resistência iraniana um avanço para a ordem multipolar

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O presidente da Rússia, Vladimir Putin, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, e suas delegações durante uma reunião à margem da Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), em Tianjin, em 1º de setembro de 2025.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, e suas delegações durante uma reunião à margem da Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), em Tianjin, em 1º de setembro de 2025 | Crédito: Alexander Kazakov/Pool/AFP

O anúncio da trégua de duas semanas no Oriente Médio acrescenta novas camadas à disputa geopolítica no sistema internacional. Na última terça-feira, dia 7, o presidente dos EUA, Donald Trump, recuou do ultimato feito ao Irã e anunciou um cessar-fogo temporário com o país persa. A Rússia, que vinha condenando os ataques dos EUA e de Israel, afirmou que a abordagem de Washington, baseada em uma agressão unilateral contra o Irã, fracassou.

Nesse contexto, os desdobramentos no Oriente Médio geram uma janela de oportunidade para que Moscou se rearticule geopoliticamente, explorando o desgaste da estratégia estadunidense para reforçar sua posição como ator relevante na reconfiguração da ordem regional e dos arranjos de poder no sistema internacional.

Em um briefing realizado na última quarta-feira (8), a porta-voz da chancelaria russa, Maria Zakharova, reforçou a posição russa em relação ao conflito. Segundo ela, desde o início, Moscou tem “chamado as coisas pelos seus nomes”, sustentando que a crise em larga escala no Golfo Pérsico foi provocada por uma agressão ilegal dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.

Zakharova também alertou que a escalada das tensões levaria inevitavelmente a consequências trágicas e duradouras, não apenas para a região, mas para o sistema internacional como um todo, cujos impactos já começam a ser observados à luz de avaliações baseadas em documentos da ONU.

Teerã afirmou que Washington concordou em discutir os dez pontos das exigências propostas pelo Irã, que incluem, entre outros pontos, um compromisso de não agressão; manutenção do controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz; acordo para o enriquecimento de urânio; suspensão de todas as sanções; e uma compensação ao Irã.

Israel aderiu à iniciativa da Casa Branca, mas intensificou os ataques no Líbano. Além disso, um dia após o anúncio do cessar-fogo, o Irã declarou que os EUA estavam violando o trato e fechou o Estreito de Ormuz novamente. A Casa Branca afirmou que Donald Trump só concordaria em negociar com o Irã se a livre navegação pelo Estreito de Ormuz fosse garantida. Negociações entre representantes dos dois países estão marcadas para este sábado (11), no Paquistão.

Apesar do acordo já demonstrar sinais de fragilidade, com ataques de Israel no Líbano e ameaças de Donald Trump, o recuo do presidente dos EUA revelou a fragilidade da posição de Washington frente ao país persa. É o que afirma o vice-diretor do Instituto de História e Política da Universidade Estatal Pedagógica de Moscou, Vladimir Shapovalov.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o analista destaca que as movimentações dos EUA evidenciaram um certo “isolamento” de Trump. Ele recorda que, mesmo na guerra do Iraque em 2003, quando muitos aliados criticaram a ação da Casa Branca, os EUA tinham importantes parceiros agindo em coalizão. Não foi o caso desta vez.

“No que diz respeito à derrota dos EUA, os seus objetivos não foram alcançados, como resultado do conflito houve sérias instabilidades na economia global que foram negativas para os próprios EUA e a maioria dos seus principais aliados regionais e globais”, afirma.

De acordo com Shapovalov, o recuo estadunidense frente ao Irã, aceitando as negociações, interrompendo as ações militares e voltando atrás de ultimatos, ilustra um processo de esgotamento da ordem unipolar da hegemonia dos EUA no sistema internacional.

“O mais importante é que isso mostrou o esgotamento dos recursos dos EUA de atuar nestas partes do mundo, então, como resultado do conflito, podemos ver um encerramento simbólico do mundo unipolar, no qual os EUA podem ditar o que bem entendem e a quem entendem”, acrescenta.

Nesta sexta-feira (10), o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, destacou que dois pontos do cessar-fogo acordado entre o Irã e os Estados Unidos ainda não foram implementados: o cessar-fogo no Líbano e o desbloqueio dos ativos iranianos. “Essas duas questões devem ser implementadas antes do início das negociações”, escreveu Ghalibaf na plataforma de mídia social X.

Nesse contexto, a manifestação de Moscou de que os EUA teriam saído enfraquecidos ao provocar o conflito no Oriente Médio vai além de um mero diagnóstico. A determinação do Irã em não ceder à pressão de Donald Trump, indiretamente, também fortaleceu a posição estratégica de Moscou no cenário internacional.

O cientista político Vladimir Shapovalov lembra que “é do interesse da Rússia um Irã independente, um Irã sem sanções e que se mantenha amigável em relação à Rússia”. No entanto, o pesquisador faz a ressalva de que a atuação de Moscou frente ao conflito no Irã, apesar da veemente condenação da agressão dos EUA e Israel, foi discreta. O motivo, segundo ele, é que “a Rússia e o Irã são parceiros estratégicos, mas não são aliados formais”.

Esta parceria estratégica não envolve o envolvimento militar em um conflito caso o país parceiro seja atacado por um Estado terceiro. O que se tem entre Moscou e Irã “acordo abrangente de longo prazo de parceria estratégica, assim como existe entre a China e o Irã, e assim como existe entre a Rússia e a China”.

Reestruturação global

Nesse sentido, a resolução do conflito é amplamente percebida como favorável aos interesses russos. Como aponta Shapovalov, a estabilidade e a preservação da independência iraniana estão alinhadas à estratégia de Moscou, assim como os efeitos indiretos do conflito sobre o mercado energético global e sobre a redistribuição de recursos estratégicos.

“O fato de que o Irã não se entregou e conseguiu manter a sua independência é do interesse da Rússia. O fato de que o resultado deste conflito levou a uma mudança no mercado energético, mas também de outros recursos, também é do interesse da Rússia”, afirma.

Nesse cenário, tendo a guerra da Ucrânia como pano de fundo, o cientista político reforça que, paralelamente, há um fortalecimento da posição em múltiplas frentes, incluindo o desgaste relativo dos recursos militares dos Estados Unidos, tendo em vista que os recursos militares usados no conflito com o Irã “não foram enviados à Ucrânia”.

Já no campo econômico, a diplomacia russa destacou que, em meio à instabilidade energética global, Moscou redirecionou seu principal vetor de fornecimento de energia para novos centros de crescimento econômico no sul global. Ao mesmo tempo, o Kremlin também acusou países ocidentais de terem politizado o setor energético e de agora ignorarem as consequências dessas decisões.

Para Vladimir Shapovalov, a posição firme do Irã frente aos EUA minou os esforços de Donald Trump de buscar restabelecer uma posição hegemônica na região, abrindo caminho para uma maior articulação do sul global e dos Brics.

“Sem dúvida foi dado um importante passo na formulação de um mundo multipolar, cuja base da construção desse mundo multipolar é o Brics. O fato de que o Irã conseguiu impor a sua independência ressalta a perspectiva e direção pela qual caminham Rússia, China e outros países, no sentido de garantir a sua soberania”, completa.

Editado por: Thaís Ferraz

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