Ecologia socialista

BdF Explica: como a China freou o avanço da desertificação

Planejamento estatal, ciência aplicada, governança multinível e comunidades locais: a resposta chinesa em quatro décadas

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Trabalhadores de Zhongwei, na Região Autônoma Hui de Ningxia, instalam barreiras de areia quadriculadas feitas de palha no deserto de Tengger.
Trabalhadores de Zhongwei, na Região Autônoma Hui de Ningxia, instalam barreiras de areia quadriculadas feitas de palha no deserto de Tengger. | Crédito: Feng Kaihua/Agência de Notícias Xinhua

Ao longo de quatro décadas, a China reverteu um processo que avançava sem controle: mais de um quarto do seu território era deserto ou estava sob ameaça de desertificação. Por meio do Programa Três-Nortes, política pública lançada em 1978, o país recuperou 336 mil km² de terra desertificada (área comparável à da Alemanha ou ao do Mato Grosso do Sul) e ajudou 15 milhões de pessoas a sair da extrema pobreza nas regiões desertificadas ou sob ameaça de desertificação, segundo balanço da Administração Nacional de Florestas e Pastagens da China.

Um problema de escala planetária

A China é um dos países com a maior área de desertificação do mundo. São mais de 2,5 milhões de km² comprometidos por algum grau de degradação, quase equivalente ao dobro do estado do Pará, o correspondente a 26,81% do território nacional.

Os principais desertos ficam no norte e no noroeste: o Taklamakan, em Xinjiang, é o maior do país; o Gurbantünggüt, também em Xinjiang; o Badain Jaran e o Tengger, na Mongólia Interior e em Gansu; e o Kubuqi, na Mongólia Interior, que nas décadas de 1980 e 1990 avançava em direção a regiões próximas à capital, Pequim.

A desertificação representa perda de terra agricultável, tempestades de areia que carregam poluentes e bactérias até as grandes cidades, e dificuldades para implementar estratégias de desenvolvimento rural e combate à pobreza. O problema ameaça a segurança alimentar de um país de 1,4 bilhão de pessoas, em que apenas cerca de 14% do território são terras agricultáveis.

O fenômeno tem origens diversas. As regiões mais afetadas já eram zonas áridas e semiáridas, com ecossistemas naturalmente frágeis. A isso se somam causas humanas que aceleraram o processo. Pesquisas chinesas identificaram os principais vetores: a coleta excessiva de madeira, o pastoreio intensivo e a expansão agrícola em solos que não suportavam cultivo respondem, juntos, por cerca de três quartos da degradação. O manejo inadequado da água, da irrigação ineficiente no campo ao uso intensivo por indústrias como mineração de carvão e termelétricas instaladas em regiões secas, é outro fator relevante, embora não seja o principal em escala nacional.

Hoje a China trata 53% de suas terras arenosas recuperáveis e registra redução de cerca de 4,33 milhões de hectares de área arenosa, segundo dados oficiais. É um dos raros países do mundo a ter atingido a meta da ONU de degradação líquida zero antes de 2030.

O programa que começou em 1978

A resposta organizada começou em 1978, no mesmo ano em que a China iniciava suas reformas econômicas, com o lançamento do Programa Três-Nortes. O nome vem da abrangência geográfica: noroeste, norte e nordeste do país. São 13 províncias e regiões, de Xinjiang, no extremo oeste, até Heilongjiang, no extremo leste, cobrindo quase metade do território chinês. O objetivo é construir cinturões verdes que funcionem como barreiras contra o avanço da areia e a erosão do solo.

O programa foi estruturado em três fases e oito etapas, com previsão de conclusão em 2050, o que o tornará uma estratégia de mais de 70 anos. Atravessa diferentes lideranças políticas e contextos econômicos mantendo continuidade como política de Estado. Mais de 30 milhões de hectares de áreas reflorestadas foram preservados e 336 mil km² de terra desertificada foram recuperados ao longo das quatro décadas de implementação, segundo a Administração Nacional de Florestas e Pastagens.

Com o aprofundamento das políticas ambientais a partir dos anos 2000, e especialmente após o 18º Congresso do Partido Comunista da China, em 2012, o combate à desertificação passou a integrar o conceito de civilização ecológica, algo central na Nova Era do Socialismo com Características Chinesas. Incorporado à Constituição em 2018, o conceito condiciona o crescimento à sustentabilidade ecológica integrada e orienta a estratégia nacional, tornando a restauração de ecossistemas requisito para o desenvolvimento. A premissa é que montanhas, rios, florestas, pastagens, lagos e desertos formam um sistema interligado, e que a gestão ambiental precisa tratar esses elementos de forma integrada, não em departamentos separados.

Ciência, espécies nativas e o fim do “verde a qualquer custo”

Em programas de reflorestamento ao redor do mundo, um problema frequente é a escolha de espécies inadequadas ao ecossistema local, priorizando velocidade de crescimento ou baixo custo. A política chinesa tem se orientado por um princípio diferente: árvore onde árvore cresce, capim onde capim cresce, arbusto onde arbusto cresce. E onde é deserto nativo, protege-se o deserto.

A política diferencia desertificação, a degradação causada pela ação humana que exige reversão, dos desertos nativos, ecossistemas com funções próprias de regulação climática, conservação de água e manutenção da biodiversidade. O Código Ecológico, primeira legislação ambiental integral do país, protege explicitamente esses ecossistemas de intervenções inadequadas. O código foi aprovado nas Duas Sessões deste ano e entrará em vigor em agosto.

Cada intervenção começa com levantamento científico do território. A empresa Mengcao, especializada em restauração ecológica com plantas nativas da Mongólia Interior, por exemplo, construiu um banco com quase 1,4 milhão de amostras de solo e dados sobre cerca de 62 mil tipos de espécies vegetais coletados em todo o território, desenvolvendo soluções adaptadas a cada região, tipo de solo e condição climática.

“A restauração ecológica requer fontes locais de sementes nativas adequadas à região específica, combinadas com dados detalhados de solo, água e vegetação”, descreve a pesquisadora Chen Ruijue, do instituto M-Grass, que contribuiu para restaurar mais de 1,3 milhão de hectares de terra degradada. “Sem essa base, o investimento pode não produzir resultado”.

Plataformas de big data ecológico combinam monitoramento por satélite e inteligência artificial para orientar as intervenções por região e período do ano.

Quem é quem na política

Na campanha de combate à desertificação, atores de diferentes esferas operam em camadas articuladas: governo central, governos regionais, empresas privadas, institutos de pesquisa e comunidades locais, cada um com responsabilidades definidas.

A distribuição de funções segue o modelo de governança chinesa: o governo central coordena, financia e fixa metas de longo prazo; as províncias respondem diretamente pelos resultados em seus territórios; e os governos municipais e de condado implementam as políticas no campo.

Para dar concretude a essa cadeia, existe um sistema de chefes florestais: lideranças em cada nível administrativo, tanto do governo quanto do Partido, com avaliação de desempenho e perspectivas de carreira vinculadas ao cumprimento das metas ecológicas. Em Xinjiang, mais de 30 mil chefes florestais realizaram mais de 270 mil inspeções em 2025, identificando e resolvendo cerca de 50 mil problemas no território, segundo a agência Xinhua.

As empresas privadas participam como parceiras tecnológicas e industriais. O modelo desenvolvido no Deserto de Kubuqi, na Mongólia Interior, tornou-se referência: investimento privado integrado ao apoio governamental e à participação dos agricultores locais, num sistema que combina restauração ecológica, agricultura, turismo e geração de energia solar.

As comunidades locais têm papel central na execução do programa. Em várias regiões, o governo distribui áreas desertificadas às vilas e concede direitos de uso de longo prazo às famílias, vinculados ao compromisso com a recuperação ecológica. As famílias plantam arbustos fixadores de areia e cultivam, sob sua sombra, produtos como cistanche (planta medicinal de alto valor conhecida como ginseng do deserto), romã, jujuba e outras espécies adaptadas ao clima árido. Dessa forma, as metas ecológicas do programa se articulam com objetivos de revitalização rural e aumento de renda.

O 15º Plano Quinquenal, que começa em 2026, aprofunda a integração entre controle da desertificação e energia fotovoltaica, expandindo projetos que combinam painéis solares com fixação de dunas e cultivos agrícolas num mesmo espaço.

Caminhos para o Sul Global

A experiência chinesa coloca em debate uma questão de escala continental: como enfrentar crises ecológicas estruturais com instrumentos de política pública.

No Brasil, houve um aumento de cerca de 30% das condições de aridez no país nos últimos 30 anos, avançando além do Semiárido nordestino em direção ao Sudeste e com um novo epicentro emergindo no Pantanal, possivelmente associado a tendências de aridização em escala sul-americana. Os dados foram publicados em setembro de 2025, em um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e da Universidade Federal do Ceará, na revista científica Atmospheric Research.

A trajetória acumulada pela China ao longo de quase cinco décadas, com planejamento estatal de longo prazo, financiamento público consistente, ciência aplicada ao território e participação das comunidades na execução, não é um modelo de replicação direta, mas oferece elementos concretos para o debate sobre políticas de restauração ecológica no Sul Global.

O Brasil de Fato acompanha de perto as políticas chinesas de desenvolvimento, meio ambiente e cooperação com o Sul Global, justamente porque essas experiências raramente chegam sem filtro ideológico ou sem ser enquadradas pela perspectiva da grande mídia ocidental.

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