PARTE 3

Missões guarani jesuíticas, 400 anos: nheguiru e abiarú, derrotando bandeirantes escravistas

Pesquisadores registram que vários grupos de bandeirantes incursionaram no Tape (atual Rio Grande do Sul)

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Detalhe: busto do bandeirante “enterrado”. Crédito: Nandi Barrios
Detalhe: busto do bandeirante ‘enterrado’ | Crédito: Nandi Barrios

Brasil de Fato estará publicando este artigo em partes:

Parte 1 – INTRODUÇÃO e ANTECEDENTES

Parte 2 – PROTAGONISMO INDÍGENA, NHEÇU – RESISTÊNCIA A DOMINAÇÃO ESPANHOLA

Parte 3 – PROTAGONISMO INDÍGENA, NENGUIRU E ABIARÚ – DERROTANDO BANDEIRANTES ESCRAVISTAS

Parte 4 – PROTAGONISMO INDÍGENA, SEPÉ TIARAJU – TIERRA O MUERTE

Parte 5 – PROTAGONISMO INDÍGENA, ANDRESITO GUASÚRARI E A LIGA DE LOS PUEBLOS LIBRES, CONSIDERAÇÕES FINAIS e FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Reprimida a rebelião guarani (final de 1628) liderada pelo cacique pajé Nheçu, os Jesuítas da Companhia de Jesus a serviço do império espanhol (“em nome de Deus e do rei Felipe Nosso Senhor”) avançaram no território guarani.  Nas bacias dos Rios Ijuí, Ibicuí e Jacuí fundaram, entre 1626 e 1634, dezoito reduções: São Nicolau (1626), São Francisco Xavier (1626), Candelária do Ibicuí (1627), Candelária do Piratini (1628), Assunção de Ijuí (1628), Todos os Santos de Caaró (1628), São Carlos (1631), Apóstolos São Pedro e São Paulo ou Apóstolos de Caaçapa-guaçú (1631), São Miguel (1632) ,  São Tomé (1632), São Cosme e São Damião (1632), Santa Teresa (1632, São José (1633), Jesus Maria (1633), Natividade de Nossa Senhora (1633), São Joaquim (1633), Santa Ana (1633) e São Cristovan (1634)[1]. Estes “pueblos” eram constituídos basicamente por uma capela, casas, roças, criação, oficinas artesanais e de artes (música, escultura, pintura).        

Dentro da geopolítica do império, a povoação do Tape (atual Rio Grande do Sul) com indígenas “fieis” a cristo e à Coroa resolveu o problema do baixo contingente de espanhóis e de “criollos”[2] para colonizarem a região platina e constituírem defesa contra o avanço dos portugueses, que rompiam o Tratado de Tordesilhas (1494).            

Os conflitos com os caciques, pajés e indígenas que recusavam a cristianização continuaram, porém milhares de guaranis foram reduzidos e tornaram-se súditos da Espanha. Contribuíram, para tanto, variados e diferentes interesses da Ordem dos jesuítas, da Coroa espanhola e dos guaranis.

De um modo geral interessava à Ordem religiosa a “conquista espiritual”, através da conversão dos indígenas ao catolicismo e à Coroa povoar e defender as terras de sua colônia contra o avanço português em direção à Assunção, Buenos Aires e às minas de Potosí (na atual Bolívia). Aos guaranis interessava a proteção frente aos “encomenderos” (pois no sistema de “encomienda”[3] trabalhavam para os colonizadores praticamente até a morte) e contra os bandeirantes (ou “paulistas”) escravagistas. Também lhes convinham a oferta regular de alimentos, incluindo a carne bovina viabilizada pela introdução do gado vacum, uma vez que os espanhóis ao ocuparem seus domínios lhes tolheram o acesso às terras onde plantavam, caçavam e pescavam. 

Convém destacar que neste jogo de interesses os guaranis negociaram condições para a formação das missões. Autores dedicados ao tema registram que caciques condicionavam a vida nas reduções a continuidade ao caciquismo milenar, manutenção da língua e do coletivismo (elementos fundamentais da cultura guarani), ausência da “encomienda” e de transferências de famílias missioneiras para outras províncias da colônia. Viver nas reduções passou a ser uma estratégia de sobrevivência física e de recriação do modo de vida guarani.

Como assinala Cleber de Oliveira, uma vez inseridos no sistema colonial, no qual sofriam “exploração do trabalho e imposição cultural”, as lideranças indígenas tinham que tomar decisões e a aliança com os jesuítas espanhóis, para resistirem a servidão e escravização, foi uma delas. Nesta aliança foram sujeitos ativos e participaram “nos múltiplos processos que transformaram a geografia humana” numa ampla região da América, incluindo as batalhas contra os bandeirantes da colônia de Portugal.   

As Bandeiras, exaltadas na historiografia oficial brasileira como contribuintes da “ocupação do interior do Brasil”, eram incursões organizadas por particulares. Partindo de São Vicente e posteriormente de São Paulo de Piratininga penetraram nas direções oeste e sul, inclusive ultrapassando a linha do Tratado de Tordesilhas, em busca de indígenas para escravizar, ouro, prata, pedras preciosas e novas terras, servindo oficiosamente aos interesses da Coroa Portuguesa. Seu contingente variava de centenas a mais de mil integrantes, chefiados por um comandante (capitão-mor) auxiliado por um grupo de homens brancos (portugueses e luso-brasileiros), com uma maioria de mamelucos (mestiço de branco com índio) e de indígenas cooptados. Para ataque, defesa, sobrevivência nas matarias e aprisionamento de nativos utilizavam bacamartes, pistolas, chumbo, pólvora, facões, foices, machados e cordas.

As reduções, com “mão de obra” habilitada em trabalhos agrícola, pastoril e artesanal (tecelões, guasqueiros, carpinteiros, ferreiros, oleiros) eram tentadoras para os bandeirantes. Pesquisadores registram que várias bandeiras incursionaram no Tape, das quais destaco as comandadas por Antônio Raposo Tavares, Fernão Dias Pais Leme e Jerônimo Pedroso de Barros.

O português Raposo Tavares iniciou sua carga sobre as missões em dezembro de 1636, atacando a redução de Jesus Maria. Após avançou sobre outras reduções, mutilando e matando homens, mulheres e crianças e, como informa Décio Freitas, permaneceu por quatro meses no Tape, onde aprisionou e conduziu a São Paulo para escravizar cerca de “20 mil” guaranis. Este bandeirante, em 1628 já havia invadido e destruído reduções em Guairá (atual Paraná), matando e escravizando milhares de indígenas. Frente a estas invasões, Antônio Ruiz de Montoya (jesuíta superior das missões do Guairá) inicia negociações junto à Coroa espanhola visando a obtenção de outorga para que guaranis missioneiros pudessem utilizar armas de fogo em defesa das reduções, a qual foi obtida oficialmente somente em 1643. No entanto, diante da violência extremada e devastações causadas pelos paulistas, antes mesmo da outorga, informalmente foi facilitado aos nativos o uso de armas e pólvora sob o controle dos padres.

Em 1639, uma nova arremetida, comandada por Fernão Dias Pais, aprisionou “2000 índios” no Tape. No entanto, já precavidos e munidos de algumas armas, missioneiros comandados pelo cacique Nicolau Nenguiru, na redução de Apóstolos de Caaçapa-guaçú, atacaram e aniquilaram a bandeira, libertaram os prisioneiros e capturaram um grupo de bandeirantes que foram conduzidos para Assunção. O episódio ficou conhecido como “Batalha de Caaçapáguaçu”[4].

Esta derrota indignou os paulistas, que organizaram uma grande bandeira visando escravizar nativos e também romper a barreira de resistência missioneira, que impedia avanços rumo a Assunção e Buenos Aires. Os jesuítas ficaram sabendo destes preparativos e solicitaram auxílio as autoridades coloniais, recebendo 300 arcabuzes. Foi organizada, então, uma resistência militar sob o comando do cacique Inácio Abiarú e assistência do padre Domingos Torres. Além dos arcabuzes os missioneiros confeccionaram canhões com taquaruçús, retovadas de couro, catapultas para lançar troncos de árvores em chamas e canoas, as maiores com “torretas” de madeiras abrigando atiradores missioneiros.

No final de 1640 a esperada bandeira, comandada por Jerônimo Pedroso de Barros, chega à região de M’bororé, onde hoje estão assentados os municípios de Panambi (Missiones – Argentina) e Porto Vera Cruz (Rio Grande do Sul – Brasil), tendo como limite o Rio Uruguai. Entre 11 e 16 de março de 1641 nas águas do Uruguai e de seus afluentes foi travada, na avaliação de alguns pesquisadores, a primeira grande batalha naval da América do Sul.

Na literatura os números são variados. Do lado dos missioneiros há registros de 2000 a 4000 indígenas e 200 canoas e dos bandeirantes, entre paulistas e “tupis”, 2000 a 6000 homens e 700 a 900 canoas. Abiarú colocou uma parte de seus guerreiros nas matas ciliares e outra em águas, numa frota de canoas. Vencidos nas águas os bandeirantes refugiaram-se em terra. Jerônimo Pedroso enviou carta onde dizia não ter intenção de atacar as missões e capturar indígenas, mas saber notícias e resgatar os prisioneiros da incursão anterior. Os guaranis, tendo na lembrança as atrocidades cometidas pelos paulistas em Guaira, Itatim e no Tape, não deram crédito a Pedroso e atacaram os bandeirantes, que em debandada, tomaram o rumo de São Paulo.

A vitória épica na “Batalha de M’bororé”, além de coibir definitivamente as investidas dos escravagistas paulistas no Tape, foi um marco, pois abriu caminho para que padres e indígenas cristianizados, com anuência da Coroa organizassem milícias armadas, paralelas ao exército espanhol. Inicialmente atendiam a necessidade de defesa das reduções e mais adiante foram além, desempenharam importante papel na proteção dos povoados coloniais de ataques de grupos indígenas rebelados contra o sistema colonizador, nas guerras travadas entre os impérios ibéricos e nas lutas de independência dos atuais países platinos.

No entanto, as reduções a leste do Rio Uruguai foram seriamente comprometidas pela ação predadora das bandeiras, fazendo com que os missioneiros se retirassem para terras na margem direita do Rio Uruguai, suspendendo por 40 anos as missões no Tape. Neste período o gado introduzido pelos jesuítas se multiplicou formando grandes vacarias xucras. 

É oportuno assinalar que a historiografia oficial brasileira e, consequentemente, os livros didáticos de história não abordam ou não conferem a devida relevância às Batalhas de Caaçapáguaçu e de M’bororé. Esta seletividade, provavelmente, decorra do fato de que portugueses e luso-brasileiros foram derrotados por indígenas missioneiros. Por isto, Nenguiru e Abirú não figuram em retratos de “herói emoldurado”. 

Registro que no dia 11 de março, conforme o site Portal das Missões, “missioneiros do Brasil, Argentina e Paraguai” comemoram a vitória sobre os bandeirantes, em evento organizado no município de Panambi (Missiones – Argentina).

Também a instalação permanente no município de São Miguel das Missões intitulada “Jazz” remete as lutas travadas contra os paulistas escravagistas do século 17. O autor, João Loureiro, foi um dos selecionados do prêmio Arte e Patrimônio 2007 do IPHAN. A obra coloca o busto de um bandeirante “enterrado” numa espécie de jazigo com acesso para os visitantes, protegido por um gradil, localizado em um descampado na periferia da cidade. A instalação é compreendida como anti-monumento, ao meu ver um monumento decolonial, pois o bandeirante não está elevado e soberbo a vista de todos, está abaixo da superfície campestre, enclausurado e não estabelece relação simbólica positiva com o Sitio Histórico de São Miguel Arcanjo, com a comunidade local e os visitantes.

Jazz – Anti-monumento ao bandeirante escravista, São Miguel das Missões/RS. Crédito: Nandi Barrios

[1] Há variações, entre pesquisadores, quanto ao número de reduções (16 ou 18), denominações e datas de fundação de algumas. Após cruzar informações cheguei aos registros apresentados aqui.      

[2] Descendentes de espanhóis nascidos na colônia (América).

[3] Neste sistema a Coroa encomendava a intermediários (os encomenderos) a captura de indígenas, que eram repassados aos colonos, para os quais deveriam forçadamente trabalhar.  Os colonos mantinham posse permanente dos indígenas, mas não podiam vendê-los.   

[4] Na literatura foram encontradas diferentes grafias: Caaçapáguaçu, Caaçapa-guaçú, Caaçapa-guazu.

Nandi Barrios é engenheiro florestal, com trabalhos em comunidades indígenas e quilombolas.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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