O Brasil de Fato estará publicando este artigo em partes:
Parte 1 – INTRODUÇÃO e ANTECEDENTES
Parte 2 – PROTAGONISMO INDÍGENA, NHEÇU – RESISTÊNCIA A DOMINAÇÃO ESPANHOLA
Parte 3 – PROTAGONISMO INDÍGENA, NENGUIRU E ABIARÚ – DERROTANDO BANDEIRANTES ESCRAVISTAS
Parte 4 – PROTAGONISMO INDÍGENA, SEPÉ TIARAJU – TIERRA O MUERTE
Parte 5 – PROTAGONISMO INDÍGENA, ANDRESITO GUASÚRARI E A LIGA DE LOS PUEBLOS LIBRES, CONSIDERAÇÕES FINAIS e FONTES E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A vitória dos missioneiros na Batalha de M’Bororé (1641) freiou as incursões de bandeirantes escravistas no Tape. Mesmo assim, jesuítas e indígenas transmigraram para terras a oeste do Rio Uruguai.
O gado (vacum, cavalar e muar) deixado pelos espanhóis, favorecido pelas condições ambientais, reproduziu em abundância formando grandes vacarias. Guaranis não reduzidos, charruas e minuanos, habituaram-se aos cavalos, tornaram-se hábeis cavaleiros e valendo-se de laços de couro e da milenar boleadeira praticavam a caça do gado.
A grande oferta de animais xucros despertou um maior interesse pelo Tape. Além dos espanhóis e criollos, passaram a ingressar nestas terras para a caça da animalada, portugueses, luso-brasileiros, açorianos e negros (na condição de escravizados), iniciando um intenso processo de miscigenação com os povos indígenas, dando origem aos chamados gaudérios, garruchos ou gaúchos.
A decisiva participação armada dos guaranis em M’Bororé resultou em nova fase do projeto missioneiro na Região Platina, da qual, baseado em Júlio Quevedo, destaco: A formação, autorizada pelo rei da Espanha, de milícias, complementares ao exército espanhol, com guaranis missioneiros armados para a defesa e também avanço da fronteira entre as colônias ibéricas; O reforço do papel fronteiriço das missões na geopolítica espanhola; Maior autonomia aos jesuítas e indígenas, possibilitando a construção de uma economia autossuficiente, capaz de manter os guaranis sedentarizados e constituindo famílias monogâmicas católicas; A consolidação de um modelo político onde os povoados são unidades políticas do império colonial espanhol, com os indígenas na condição de livres súditos do rei, prontos para defenderem os interesses dos reinos da Espanha e de Cristo.
Na disputa pela navegação no Rio da Prata e posse do território pampeano, lugar estratégico para continuar escoando a prata contrabandeada por portugueses de Potosí (na atual Bolívia), Portugal, em 1680, funda na margem oriental do Prata a Colônia do Santíssimo Sacramento[1], defronte a Buenos Aires. Frente a esta ofensiva, a Coroa espanhola redobra os cuidados com a zona fronteiriça no Tape.
Para deter os avanços dos luso-brasileiros, reprimir a caça predatória[2] do gado das “Vacarias do Mar” e ampliar a atividade ervateira, os jesuítas e guaranis são orientados a retornarem as terras a leste do Rio Uruguai. Assim, entre 1682 e 1706 são construídas sete cidades (os Sete Povos). São Francisco de Borja (desmembramento da Redução de São Tomé, situada em frente, no outro lado do Rio Uruguai – Argentina), em 1682; São Miguel Arcanjo (São Miguel das Missões/RS), São Nicolau (refundada após transmigração para oeste – 1641) e São Luiz Gonzaga, em 1687; São Lourenço Mártir (desmembramento de Santa Maria Maior, localizada na margem direita do Rio Uruguai – Argentina), em 1690; São João Batista (divisão de São Miguel Arcanjo), em 1697; e Santo Ângelo Custódio (Santo Ângelo/RS), em 1706.
Os 7 Povos em terras do Brasil, somados aos 15 da Argentina e aos 8 do Paraguai, integram aos conhecidos “30 Povos das Missões”.
Nesta fase as reduções foram organizadas com novas espacialidades e dinâmicas, seguindo diretrizes urbanísticas e arquitetônicas gerais. Cada missão era composta por um núcleo urbano, áreas de cultivo, ervais, estâncias e caminhos conectando estes lugares. Também existiam caminhos que interligavam os núcleos dos Sete Povos (distantes em média 15 km um do outro), de modo que as terras missioneiras abarcavam praticamente o território do contemporâneo Rio Grande do Sul.
Conforme descreve Décio Freitas e Moacyr Flores, os núcleos urbanos eram formados por arruamento, praça central (amplo espaço destinado a procissões, exercícios militares e comemorações), igreja, “cabildo”, prisão, residências, oficinas (dos tecelões, carpinteiros, escultores, pintores, tipógrafos, ferreiros), escola, hospital, farmácia, cemitério e o “cotiguaçu” (casa das mulheres viúvas e desamparadas). Próximo a estas edificações localizavam-se o pomar e a horta, onde os alunos aprendiam técnicas agrícolas e produziam plantas medicinais e alimentos para abastecer a escola, o hospital e o cotiguaçu. Mais além, estavam moinhos de água e de vento, olaria, fornos de fundição de ferro, matadouros, curtumes, silos, instalações de produção de erva-mate e de irrigação. O sistema econômico estava estruturado no “amambaé” (“propriedade do homem”) e no “tupambaé” (“propriedade de Deus” – Tupã). No primeiro, cada família trabalhava para o seu sustento. No segundo pais e filhos trabalhavam coletivamente com outras famílias, com a produção destinada à comunidade. O tupambaé incluía também as pedreiras, invernadas, estâncias de criação de gado e os ervais, que abasteciam as missões e forneciam recursos para a realização de manutenções e obras nas reduções e pagamento de impostos à Coroa.
É interessante frisar que os ervais, vacarias e estâncias coletivas eram uma extensão rural das cidades reducionais, o que, juntamente com os caminhos, ampliam o território missioneiro, para além do qual estamos condicionados a perceber. Em cada estância havia um posto, galpões, currais, hortas, capela, e casas, para abrigar capataz, guardas volantes, posteiros e peões, responsáveis por proteger (de portugueses, índios rebeldes, gauchada teatina), tratar e engordar o gado buscado nas Vacarias do Mar e dos Pinheirais, as quais pertenciam ao conjunto das missões.
O sistema político tinha como base o cabildo indígena, instância administrativa, legislativa e judiciária, que mesclava o caciquismo guarani com o sistema colonial espanhol. Era chefiado por um indígena corregedor, indicado pelos padres e caciques e nomeado pelo governador[3], com os demais integrantes eleitos pela comunidade. Como observado por Júlio Quevedo, o cabildo era autônomo em cada povoado, mas estava inserido na estrutura política da monarquia e na religiosa da Igreja Católica, seguindo a seguinte hierarquia: Coroa espanhola – Vice-reino do Peru – Governos províncias do Paraguai (Assunção) e Rio da Prata (Buenos Aires) – Missões/Cabildos; pelo lado religioso, Santa Fé/Papa – Província Jesuítica do Paraguai – Bispados de Assunção e Buenos Aires – Missões – Padre cura das reduções – Irmão Coadjuntor – Cabildos. Como assinala Décio Freitas, as missões “gozavam de autonomia, mas não de soberania”.
Com esta organização econômica, religiosa, política e militar era mantida a aliança ente guaranis (caciques), padres e monarquia, possibilitando boas condições de vida aos missioneiros, respaldando a ideia dos jesuítas de “terra da promissão”, que, na minha lembrança, se aproxima da cosmologia guarani de “terra sem males”. Os povoados missioneiros alcançaram grande autonomia, com significativa participação no comércio da Bacia do Prata, o que alertou as Coroas Ibéricas sobre a possibilidade de uma alternativa de organização socioeconômica fora do sistema colonial. A terra da promissão ou a terra sem males passou a ser para os impérios atritados nas disputas fronteiriças meridionais a terra da preocupação.
Nestas disputas Portugal adotou a estratégia de ocupar o território através de enclaves separados por vastas áreas. Em 1684 fundaram Laguna, diminuído a distância entre a Ilha de Santa Catarina e a Colônia do Sacramento, constantemente cercada ou atacada pelos espanhóis, com a participação da milícia guarani. Reforçando o apoio a Sacramento, em 1737 é instalado o Presidio[4] de Jesus-Maria-José na barra do “Rio Grande” (atual município de Rio Grande/RS). Neste contexto, os portugueses fundaram ainda, em 1737 uma guarda e forte na margem do Arroio São Miguel (Chuí/RS) e em 1751/1752 o Forte de Jesus-Maria-José do Rio Pardo (Rio Pardo/RS).
Entre 1680 e 1777 as coroas de Portugal e Espanha alternaram, pela guerra ou via diplomática, a posse sobre Sacramento. Em 1750 estes reinados assinam o Tratado de Madri, que anulava acordos anteriores incluindo o Tratado de Tordesilhas (1494), redefinindo linhas de fronteira nas colônias americanas e reestabelecendo a paz entre os estados ibéricos. No entanto, a troca da colônia portuguesa de Sacramento pelo território espanhol dos Sete Povos, obrigando os guaranis a transmigrarem para pueblos a oeste do Rio Uruguai (Argentina e Paraguai), contrariou caciques missioneiros liderados por Sepé Tiaraju[5], resultando na “Guerra Guaranítica”. Também a Companhia de jesus foi contra esta medida, intervindo junto à Coroa espanhola para a anulação da troca imposta pelo novo tratado, porém não obteve sucesso.
Em setembro de 1751 chegou ao Brasil a comissão demarcadora, integrada por técnicos experientes de várias cidades europeias. Foram nomeados dois comissários, O governador do Rio de Janeiro e Minas Gerais Gomes Freire de Andrada (Portugal) e o marquês de Valdelírios[6], para coordenar os trabalhos de “três partidas demarcadoras”, que delimitariam a nova divisa entre as colônias, partindo do litoral atlântico na cidade de Castillos (Departamento de Rocha/Uruguai), até o presente Mato Grosso do Sul/BR.
Em 1752 os comissários se encontraram e permaneceram em Castillos, onde fixaram os primeiros marcos. Os guaranis missioneiros já sabiam que as comissões demarcadoras estavam reunidas ao sul do seu território e fecharam esta fronteira. Segundo Décio Freitas, no início de 1753 indígenas de São Miguel, comandados por Sepé, barram em santa Tecla (Bagé/RS) a “Primeira Partida”, argumentando que a mesma não tinha autorização do cabildo para seguir adiante. Quevedo registra que foi neste momento que o comandante guarani teria falado: “esta terra é nossa, nós a recebemos de Deus e de São Miguel”. Os demarcadores portugueses e espanhóis recuaram para a Colônia do Sacramento (onde estavam as tropas luso-brasileiras e Gomes Freire) e Buenos Aires (onde se encontrava Valdelírios, com as tropas castelhanas aquarteladas em Arraial de Veras).
Com o fechamento da fronteira de São Miguel, os comissários passaram a esperar por intervenção do padre, nomeado pela Companhia de Jesus, para apaziguar os caciques e convencê-los a evacuar os Sete Povos[7], o qual não logrou êxito. Ao contrário, os cabildos missioneiros enviaram carta conjunta ao governador de Buenos Aires (José de Andonaegui), reiterando seus direitos sobre a terra, lembrando os trabalhos prestados à Espanha, incluindo participação em guerras.
Frente a irredutibilidade das Coroas a Companhia de Jesus orientou para que os jesuítas evacuassem os Sete Povos para a banda ocidental do Rio Uruguai, obtendo a concordância de alguns caciques alferes e corregedores. Mas, como observa Tau Golin, muitos se rebelaram, desconhecendo a autoridade de curas e cabildos, “ressurgindo novamente o caciquismo como principal referência hierárquica”.
Os impérios decidiram realizar a evacuação pela força e em junho de 1753, Gomes Freire, Valdelírios e Andonaegui, definiram o “primeiro plano de guerra”contra as Missões. O exército espanhol, a partir de São Tomé (Argentina), invadiria São Francisco de Borja, o português adentraria o território missioneiro por Rio Pardo, transporia o Rio Jacuí e atacaria Santo Ângelo. O plano não foi adiante. Os espanhóis foram atacados pelos guaranis e, mesmo vencendo esta escaramuça, enfrentou grandes dificuldades durante a marcha devido as enchentes de 1754, que provocou debilitação e morte da cavalhada.
Ainda em 1754 o Presidio de Jesus-Maria-José do Rio Pardo é fustigado várias vezes por guaranis de Santo Ângelo, comandados por Tiaraju.
Em 1775 é posto em prática o “segundo plano de guerra” com a união das tropas no “campo das Mercês”, cabeceiras do Rio Negro (Uruguai). Os ibéricos aliados formaram, como destaca Golin, “a mais poderosa coalizão militar colonial” (grifo meu), composta por soldados regulares, bandeirantes e gaudérios bem armados, integrando infantaria e cavalaria. Tinham no apoio escravizados e peões contratados, responsáveis por um comboio de “73 carretas, 6.000 cavalos e mais de mil cabeças de gado para alimentação”. A participação de não militares na guerra contra os indígenas e o apoio dos latifundiários foram motivados pela crença da existência de tesouros guardados por jesuítas nas reduções e pelas manadas de gado das estâncias missioneiras, que, por acordo, tiveram o “direito de saque”.
Os guaranis guardavam as fronteiras, mas não tinham um plano militar para resistir ao ataque iminente e ainda enfrentavam uma epidemia de varíola. O exército ibérico avançava no rumo da estância miguelina Santa Tecla (Bagé/RS) pelo “Caminho das Missões”. Os guaranis, comandados por Sepé Tiaraju, iniciaram um movimento de recuo, adotando a tática de guerra de “terra arrasada”, com a queima dos campos, colheita, roças restantes e retirada do gado (restringindo o alimento da animalada e dos soldados inimigos). Sepé planejou fustigar os invasores em movimentos de guerrilha em campo aberto, buscando atrair lusos e castelhanos para a estrada da Boca do Monte, subida da serra entre os atuais municípios de Santa Maria/RS e São Martinho/RS.
Desta forma, ocorreram várias refregas, porém, em 7 de fevereiro de 1756 o cacique e capitão Sepé Tiaraju foi morto às margens da sanga da Bica (São Gabriel/RS). Após seu cavalo ter rodado em uma toca, foi lanceado por um combatente português e alvejado com tiro de pistola pelo governador de Montevidéu José Joaquim Viana.
Em 10 de fevereiro o capitão Nicolau Neenguiru[8] e indígenas arregimentados em diversas missões chegam ao front de guerra. Neenguiru descartou o plano de Tiaraju de entrincheiramento na estrada da Boca do Monte para emboscar o inimigo e de improviso posicionou sua tropa na coxilha de Caiboaté (São Gabriel/RS), visando ganhar tempo na espera por mais combatentes vindos dos povoados. Entretanto foram atacados pelo poderoso exército coligado, que utilizando 19 modernos canhões massacrou, numa batalha que durou pouco mais de uma hora, milhares de indígenas. O sangrento episódio ficou conhecido como “Batalha de Caiboaté” e a vitória dos colonizadores foi comemorada, com missas e festas, em Buenos Aires, Colônia de Sacramento, Montevidéu, Rio Grande e Rio de Janeiro.
Finalmente, em maio de 1756, os comissários Gomes Freire e Andonaegui entraram nas cidades missioneiras, com grande parte de sua população retornando as brenhas. Guaranis dispersos pelo território promoviam pequenos ataques, muitos migraram para povoados ocidentais, alguns retornaram e outros tantos desconsideraram a ordem de retirada e permaneceram. O português Gomes Freire ficou esperando a total evacuação até março de 1757, sem que os espanhóis, pelo acordo responsáveis por esta ação, tivessem êxito.
Tal situação e divergências dos comissários demarcadores quanto a trechos da linha delimitadora, levou a anulação do Tratado de Madri, que foi substituído pelo Convênio ou Tratado de El Pardo, de 12 de fevereiro de 1761, o qual revogou a troca de Sacramento pelos Sete Povos, que retornaram ao domínio espanhol.
Na segunda metade do século XVIII os atritos entre as coroas católicas da Europa e a Companhia de Jesus, vista como ameaça aos estados coloniais, se intensificaram. Portugal, em 1759, e a Espanha, em 1767, expulsam os jesuítas de todos os seus domínios, sendo os mesmos substituídos na administração das reduções por funcionários do governo de Buenos Aires. Uma vez quebrada a aliança entre os guaranis e os padres as Missões entraram em decadência. Em 1777 é assinado o Tratado de Santo Ildefonso, que, em linhas gerais repete os limites fixados em 1750, porém com a Colônia de Sacramento (definitivamente) e os Sete Povos pertencentes à Espanha. Somente em 1801, quando, no contexto das “Guerras Napoleônicas”, Portugal e Espanha entram em guerra é que portugueses e luso-brasileiros militarmente ocupam o território missioneiro[9], que ainda permaneceu em disputa nas duas primeiras décadas do século XIX, com participação dos guaranis missioneiros.
Para Tau Golin “a sociedade missioneira representou a primeira alternativa americana ao modelo colonial ibérico” (grifo meu), tendo como base “a propriedade do povo”, que acabou sendo apropriada pelo latifúndio particular, gerando “multidões de excluídos de suas riquezas milenares”. Nesta linha, Décio Freitas conclui que o projeto missioneiro “para o colonialismo ibérico (…) era tão perigoso que devia ser abortado a ferro, fogo e sangue”.
O Sepé Tiaraju, alferes real e corregedor de São Miguel, comandante da milícia da fronteira sul das reduções e capitão dos guaranis na Guerra Guaranítica, morreu em 1756 em defesa do território missioneiro, mas o personagem histórico e o mito estão vivos na memória popular sul-rio-grandense, associado à luta pela terra, onde ecoa secularmente o grito “esta terra tem dono”.
Passados apenas treze anos de sua morte já figurava como herói no poema épico de Basílio da Gama “O Uraguai”[10], donde destaco o trecho:
“Fez proezas Sepé naquele dia.
Conhecido de todos, no perigo
Mostrava descoberto o rosto e o peito
Forçando os seus co’ exemplo e co’as palavras.
Já tinha despejado a aljava toda,
E destro em atirar, e irado e forte
Quantas setas da mão voar fazia”
História e mito vararam os anos 1800 na oralidade sulina. Simões Lopes Neto transcreveu a lenda (em forma de poema) “Lunar de Sepé”, que, segundo o escritor, ouviu contada por uma “velhíssima mestiça”. Os impérios coloniais são os (reais) inimigos e Tiaraju é luz que guia os missioneiros, como pode ser visto nos versos a seguir:
“Era armas de Castela
Que vinha do mar de além;
“De Portugal também vinham,
Dizendo por nosso bem;
Mas quem faz gemer a terra…
Em nome da paz não vem!
(…)
Dum sangue dum grão-Cacique
Nasceu um dia um menino,
Trazendo um lunar na testa,
Que era bem pequenino:
Mas era um cruzeiro feito
Como um emblema divino!
(…)
Diferente em noite escura
Pelo lunar do seu rosto,
Que se tornava visível
Apenas o sol era posto;
Assim era Tiarajú
Chamado Sepé, por gosto.
(…)
Então, Sepé foi erguido
Pela mão do Deus-Senhor,
Que lhe marcara na testa
O sinal do seu penhor!
O corpo ficou na terra…
A alma, subiu em flor!
E, subindo para as nuvens
Mandou aos povos benção!
Que mandava o Deus-Senhor
Por meio do seu clarão…
E o lunar da sua testa
Tomou no céu posição…”
O capitão missioneiro pela tradição popular virou santo, São Sepé.
No gauchismo, em suas vertentes culturais gauchesca, missioneira, nativismo e no Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), Sepé é referenciado em composições, pajadas, poesias, literatura e nomes de piquetes e Centros de Tradição Gaúcha (CTGs). Em várias cidades do Rio Grande do Sul está presente em monumentos e painéis.
Tiaraju também é exaltado nas passarelas do samba. Em 2000 a Sociedade Recreativa Beneficente Estado Maior da Restinga (Porto Alegre/RS) cantou: “Sepé Tiaraju deu seu grito de guerra, esta terra já tem dono, já tem dono esta terra”; em 2006 o carnaval de Santo Ângelo/RS foi dedicado aos 300 anos da fundação da Missão de Santo Ângelo Custódio, onde Sepé foi lembrado pelas escolas de samba, cito aqui os versos da União do Alcebiades: “Povo brasileiro, Sepé lutou/Em terra tupiniquim/Morreu lutando por seu povo/Por você, também por mim”. No Rio de Janeiro/RJ, em 2019, a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, numa manifestação decolonial, apresentou o enredo “As histórias do país que não estão no retrato”, destacando os heróis esquecidos da história, dentre eles Sepé. Mais recentemente, em 2025 a Escola de Samba Os Rouxinóis, de Uruguaiana/RS, levou para a avenida o tema “Ekobé Sepé – O Enviado dos Ancestrais”.
O mito passou e passa por ressignificações e disputas associadas à diferentes concepções religiosas, políticas e ideológicas.
No final de 1955 é apresentado ao então governador do Rio Grande do Sul, Ildo Meneghetti, uma proposta para construir um monumento a Sepé, um “verdadeiro brasileiro” para marcar os 200 anos de sua morte. Em busca de um parecer a proposta foi enviada ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRS), onde a Comissão de História (tendo como integrante o crítico literário e político Moysés Vellinho, conhecido por suas posições lusitanistas) se manifesta contra. A Comissão não aceitou “o brasileirismo” de Sepé, tratando o cacique e a experiência missioneira como contrários aos interesses do Estado, do País e “do povo gaúcho, que se estava formando ao signo da civilização portuguesa”. Tal evento, se insere num embate mais amplo e contemporâneo, entre duas correntes historiográficas: a lusitana e a platina, que discutem o evento histórico fundante do Rio Grande do Sul (implantação das missões espanholas a partir de 1626 ou do presidio português de Jesus-Maria-José, na barra do Rio Grande, em 1737) e sua identidade cultural. Na minha opinião a corrente lusitana, assumida pela historiografia oficial brasileira, segue a lógica do colonizador português vencedor na disputa pelo território do Tape, assim como relega a ativa participação dos guaranis na formação do Estado.
Em junho de 2005, o deputado federal Marco Maia (Partido dos Trabalhadores-PT) apresentou à Câmara dos Deputados o projeto de lei propondo inscrever o nome de Sepé Tiaraju no Livro dos Heróis da Pátria. Tal proposta teve como justificativas: homenagear Sepé Tiaraju como “Herói Guarani Missioneiro Rio-Grandense”; oportunizar ao Congresso Nacional “reconhecer a importância de sua etnia em nossa formação antropológica e cultural” (grifo meu); e antecipar atos de “comemorações” para lembrar os 250 anos de sua morte. O projeto foi aprovado três anos após as comemorações e sancionado em setembro de 2009 (Lei Federal 12.032/2009), constando no Livro dos Heróis o nome “José Tiaraju”, o primeiro indígena, entre pouquíssimos, a obter este status.
Também em junho de 2005, o deputado estadual Frei Sergio Gorgen (PT) apresentou projeto de lei para declarar Sepé Tiaraju “herói guarani missioneiro rio-grandense”, o qual foi celeremente aprovado e promulgado em novembro de 2005 (Lei Estadual 12.366/2005). Este ato legislativo fazia parte de uma série de ações para celebração dos 250 anos da morte do herói popular coordenadas por um comitê, tendo como foco o evento realizado entre 4 e 7 de fevereiro de 2006 em São Gabriel, contando, ainda, com uma comissão local. De modo que se envolveram na organização ou se relacionaram com o evento agentes do legislativo estadual, da municipalidade de São Gabriel, do MTG, do movimento dos Sem Terra (MST), camponeses, quilombolas, indígenas e produtores rurais.
O brado “essa terra tem dono”, foi assumido em duas concepções: Por um lado, os movimentos que lutam por terra (MST, indígenas e quilombolas), que identificam Sepé como um defensor dos territórios/terras ancestrais, as quais os excluídos de hoje têm direito a ocuparem, cultivarem e permanecerem. Por outro, os produtores rurais latifundiários e setores hegemônicos do MTG, que, numa visão distorcida e desonesta, identificam Tiaraju como um cacique “proprietário de terras” nas missões e “o primeiro caudilho rio-grandense”, devendo a propriedade privada dos latifúndios ser respeitada, ideia expressa no bordão “alerta, esta terra tem dono”.
Ao fim, as celebrações em São Gabriel e alusão a data da morte de Sepé Tiaraju passaram a ser anuais, tendo como foco a luta pela terra em prol dos excluídos.
Em 2008 o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sancionou a Lei 11.696, que institui o “Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas”, celebrado em 7 de fevereiro, dia da morte de Sepé.
O mito vive, é herói inspirador para indígenas, quilombolas e sem terras. O gene guarani está presente em grande parcela de gaúchas e gaúchos e a cultura guarani e formadora da cultura gauchesca. Os Guaranis resistem e travam incansável luta pelo direito de viverem nas terras das quais são historicamente donos.
[1] Hoje cidade Colonia del Sacramento – Departamento de Colonia/Uruguai.
[2] Portugueses e brasileiros ingressavam no Tape para abater o gado dos missioneiros, retirando basicamente a língua e o couro, comercializado no Brasil e na Europa, o que resultou no estabelecimento, em 1726, de um caminho entre Laguna e Colônia do Sacramento e na década de 1730 a formação de núcleos lusitanos e o início da destinação de sesmarias nos “Campos de Viamão” (região entre o Rio Mampituba e o Lago Guaíba).
[3] No caso do Tape, o de Buenos Aires,
[4] Presídio – Fortificação militar destinada a garantir o avanço fronteiriço português.
[5] Golin registra que seu nome apresenta variações e diferentes grafias: “Joze Thearaju, Sepeê, Sepè, Sepé, Sapé, Jo-sepho, Josephi, Josephus, Tiararù, Cacique Zapé”.
[6] Don Gaspar de Munive León Garabito Tello y Espinosa.
[7] Para os portugueses a evacuação dos Sete Povos era necessária, pois planejavam implantar no seu território uma nova província a ser povoada com casais açorianos.
[8] Não é o mesmo líder da Batalha de Caaçapáguaçu, sendo comum guaranis adotarem nomes de grandes guerreiros antepassados.
[9]As missões passaram a ser submetidas a “comandantes de fronteira” (1801 a 1835), responsáveis pelo comando militar e administrativo. Porém, as administrações eram compartilhadas com os Cabildos, já existentes, controlados por cabildantes e corregedores guaranis, gerando situações conflitantes entre missioneiros e os comandantes representantes de Portugal e após 1822, do Império do Brasil.
[10] Em 1769 o poeta Basílio da Gama, nascido em “Minas Geraes” (Minas Gerais/Brasil), compôs “O Uraguai” contendo cinco cantos e 1377 versos que tratam da Guerra Guaranítica.
* Nandi Barrios é engenheiro florestal, com trabalhos em comunidades indígenas e quilombolas.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
