CUBA RESISTE

‘Não existe maior estímulo do que ver meu povo lutando’, afirma Aleida Guevara

Médica cubana participa de agendas na Europa para falar sobre os impactos das sanções econômicas ao seu país

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Médica pediatra e referência internacional na área da saúde e da cooperação internacional, a cubana Aleida Guevara concedeu entrevista ao Brasil de Fato RS
Médica pediatra e referência internacional na área da saúde e da cooperação internacional, a cubana Aleida Guevara concedeu entrevista ao Brasil de Fato RS | Crédito: Divulgação/Embaixada de Cuba

Médica pediatra e referência internacional na área da saúde e da cooperação internacional, a cubana Aleida Guevara está na Europa nos meses de março e abril de 2026, participando de uma intensa agenda de debates, conferências e encontros públicos.

A passagem pelo continente incluiu atividades em países como Espanha, Alemanha e Suíça, dentro de iniciativas que reúnem jornalistas, profissionais da saúde e movimentos sociais e sociedade em geral para discutir a realidade cubana e os impactos das sanções econômicas sobre o país.

Ao longo da turnê, Aleida Guevara integrou mesas de debate e diálogos públicos em cidades como Berlim, Frankfurt e Berna. Na capital alemã recebeu, no dia 11 de abril, o Prêmio Rosa Luxemburgo 2026, concedido pelo jornal junge Welt, em reconhecimento à sua trajetória como médica e ao seu trabalho continuado em ações de solidariedade e cooperação em saúde.

A passagem pelo continente incluiu atividades em países como Espanha, Alemanha e Suíça | Crédito: Mônica Cabanas

Filha de Ernesto Che Guevara, Aleida construiu uma trajetória própria, marcada pela atuação no sistema público de saúde cubano e pela participação em missões médicas internacionais.

Na entrevista exclusiva ao Brasil de Fato RS, ela comenta a conjuntura atual de Cuba, os desafios impostos pelo cenário geopolítico e a importância do diálogo entre povos frente a um mundo atravessado por crises e desigualdades.

Brasil de Fato RS: Como médica e cidadã cubana, como você descreve a situação atual de Cuba?

Aleida Guevara: Com a proibição, por exemplo, da entrada de petróleo no país, Trump tenta asfixiar o povo cubano. E asfixiá-lo em geral, porque, se não tivermos petróleo, o país praticamente se paralisa.

Além disso, paralisa o transporte. Não há água potável nas casas, porque o abastecimento depende de bombeio com eletricidade – ainda que agora estejamos implantando painéis solares.

O conflito é grave. Em alguns momentos, temos cidades inteiras apagadas por 72 horas, sem eletricidade. Vivemos o dia a dia: compramos a comida para consumir naquele mesmo dia, porque não é possível guardá-la para o seguinte. São situações muito duras, muito difíceis para a população.

As Nações Unidas precisariam ser muito mais dos povos, de verdade, e não como são neste momento

Como você vê a atuação da ONU nessa situação? O que você acha que as Nações Unidas poderiam fazer em relação a Cuba?

Penso que as Nações Unidas deveriam, de fato, se democratizar. Sair desse “império” onde estão instaladas e, quem sabe, ir para o centro da África como organização, para viver ali e realmente se sustentar economicamente com a contribuição de todos os povos, de acordo com o que cada um pode aportar — e não apenas dos Estados Unidos ou majoritariamente deles.

Hoje, isso dá aos EUA o poder de dominar e manipular a situação, de impor vetos quando quiserem. Por exemplo, nunca foi possível sancionar Netanyahu porque os Estados Unidos sempre vetaram totalmente qualquer iniciativa.

As Nações Unidas precisariam ser muito mais dos povos, de verdade, e não como são neste momento.

A primeira coisa que a ONU — e o mundo — deveria fazer é dizer a verdade sobre o que está acontecendo. Desgraçadamente, os grandes meios de comunicação disfarçam, transformam e modificam os fatos, e o que chega à população é falso.

Romper com isso é fundamental. A informação verdadeira é essencial, porque reagimos de acordo com a informação que temos. Se não sabemos, não reagimos.

Dou um exemplo simples: a segunda maior mina de ferro a céu aberto do mundo fica na Amazônia brasileira. A cada centímetro que essa empresa cresce, árvores ancestrais deixam de existir. Mas, se você não tem essa informação, como vai reagir?

São anos e anos de desgaste de um povo, apenas porque outro país não aceita que sigamos sendo independentes e livres

Se você tem consciência do que está acontecendo, pode protestar, pode dizer: o ser humano pode viver sem ferro, mas não sem oxigênio. O último pulmão do planeta não pode ser destruído.

Sem informação, não há reação. Informar corretamente é dar às pessoas a liberdade de escolher o que fazer e como agir. Essa é, para mim, a ajuda mais importante.

Depois vêm, claro, as ajudas materiais. Recebemos muita solidariedade do Brasil, por exemplo. Há um lugar em Minas Gerais — Uberlândia — de onde sempre nos enviam duas ou três malas cheias de medicamentos.

Há uma grande solidariedade por parte dos sindicatos. Eles fazem um enorme esforço para nos ajudar, mesmo enfrentando dificuldades em suas próprias regiões. Ainda assim, seguem solidários, muito solidários.

Esse tipo de ajuda material é muito importante, mas o mais fundamental é a pressão que os povos podem exercer sobre seus governos para romper o bloqueio, para impedir que continue funcionando esse bloqueio criminoso. São anos e anos de desgaste de um povo, apenas porque outro país não aceita que sigamos sendo independentes e livres.

“Eu sempre repito algo que meu pai disse: Quando eu sentir o cheiro da pólvora e o sangue do povo, estarei nas barricadas junto a eles” | Divulgação/Embaixada de Cuba

Como médica, com uma experiência tão ampla, o que você pensa sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil?

Cada lugar tem sua idiossincrasia e sua forma de ser. Eu não tive o privilégio de trabalhar como médica no Brasil. Trabalhei mais na Argentina, por exemplo, em brigadas médicas.

No Brasil, minha experiência foi com o MST, mas não como médica — trabalhei como camponesa. E, aliás, estou muito orgulhosa de ser militante do Movimento Sem Terra do Brasil. Considero que seja um dos movimentos sociais mais importantes do continente latino-americano.

Para mim, todo esforço voltado a garantir saúde ao povo é positivo. Todo esforço para que a saúde seja gratuita é bom. A saúde não pode ser comércio, não se pode mercantilizar a vida humana.

Quando um governo se preocupa em levar médicos às regiões mais distantes, garantindo atendimento em igualdade de condições para todos, isso é muito valioso. Eu respeito profundamente esse tipo de política.

O povo cubano é maravilhoso. É uma mistura de culturas – chinesa, africana, espanhola – e um pouco também de povos indígenas. É um povo forte, valente e muito alegre

Com toda a sua trajetória pessoal e profissional, o que te faz seguir em frente? O que te motiva?

Meu povo. Não existe maior estímulo. Ver que meu povo continua lutando, continua se esforçando e sorrindo, apesar de todas as dificuldades, é o que me move. Somos capazes até de rir de nós mesmos.

O povo cubano é maravilhoso. É uma mistura de culturas – chinesa, africana, espanhola – e um pouco também de povos indígenas. É um povo forte, valente e muito alegre.

Trabalhar com os filhos desse povo é a sensação mais linda que existe. Receber o carinho e o afeto. Quando uma criança te reconhece como sua médica e corre para te abraçar, esse é o maior prêmio que um ser humano pode ganhar: o amor, o respeito e o carinho da sua gente.

Queria fazer uma última pergunta. Com sua história pessoal, o que você acha que seu pai pensaria sobre tudo o que está acontecendo hoje – em Cuba e no mundo, como em Gaza, Irã, Líbano e tantos lugares da África, onde você também tem experiência?

Eu sempre respondo que é muito difícil responder essa pergunta, porque meu pai não viveu essa realidade. Em primeiro lugar.

Em segundo, se ele estivesse vivo, tudo seria muito diferente. Meu pai nunca teria deixado de lutar. Se estivesse vivo, significa que a Revolução na Argentina e na Bolívia teria triunfado, e há muitos anos esses países fariam parte do que hoje chamamos de campo socialista.

Tenho certeza de que hoje estaria ao nosso lado, tentando nos ajudar, tentando encontrar caminhos para sair dessa situação

Isso mudaria completamente também a vida do povo cubano. A Argentina é um dos maiores produtores de alimentos e grãos do mundo. Comida, leite, carne estariam garantidos. Nossa vida seria muito diferente.

Por isso, é difícil dizer o que ele pensaria, porque não viveríamos neste mundo, mas em outro.

De todo modo, eu sempre repito algo que ele disse: “Quando eu sentir o cheiro da pólvora e o sangue do povo, estarei nas barricadas junto a eles”.

Foi isso que ele disse e foi isso que ele sempre fez. Tenho certeza de que hoje estaria ao nosso lado, tentando nos ajudar, tentando encontrar caminhos para sair dessa situação.

Editado por: Katia Marko

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