VISÃO DOS EUA

Para analistas políticos estadunidenses, Trump não quer romper com Lula e sabe que não precisa conquistar apoio de Flávio Bolsonaro

Postura de magnata indica que ele não tem muito a ganhar, por hora, apoiando filho de Bolsonaro

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Flavio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca
Flávio Bolsonaro e Donald Trump na Casa Branca | Crédito: Divulgação

Trump recebeu o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) para breve conversa e fotografia, mas não teve aperto de mão, publicação na Truth Social ou espaço oficial na agenda do presidente dos Estados Unidos. Ou seja, o magnata não oficializou seu apoio na eleição presidencial brasileira de outubro. Ao contrário, a postura dúbia de Trump na terça-feira (26) foi reforçada por elogios ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o encontro, segundo fontes ouvidas pela imprensa nacional.

Muito se falou sobre os possíveis ganhos (ou não) para o filho de Jair Bolsonaro, interessado em abafar a repercussão do “Bolsomaster“, que o fez perder preciosos pontos percentuais para Lula nas pesquisas de intenção de voto. Houve postura submissa — para a foto, Trump nem levantou da cadeira, enquanto Flávio seguiu de pé — e ato falho do senador, que disse ter ido a Washington a convite do presidente Lula.

Mas e nos EUA? Qual foi a importância do encontro e o que foi possível enxergar do posicionamento da Casa Branca — e do personalista Trump, que toma para si as decisões mais importantes? O Brasil de Fato perguntou a dois analistas políticos estadunidenses, James Green, professor emérito da Brown University, em Rhode Island, e Zoe Alexandra, editora do site People’s Dispatch. Em comum, ambos ressaltam o cuidado de Trump em não romper pontes com Lula e a certeza do estadunidense de que não precisa se esforçar para conseguir o apoio incondicional do filho mais velho do presidente condenado por tentar um golpe de Estado.

Leia as entrevistas abaixoÇ

Brasil de Fato: Qual a importância desse encontro para Trump e por que ele adotou essa postura, quase “neutra”?

James Green: É sempre difícil entender o que Trump está pensando. Alguns observadores insistem que ele está realizando movimentos estratégicos brilhantes, como se fosse um campeão de xadrez tridimensional. Sou da opinião de que, embora ele seja uma pessoa astuta, muitas de suas decisões baseiam-se em subjetividades, como o desejo de ser adulado.

É evidente que a visita de Flávio Bolsonaro foi organizada de última hora e foi muito breve. Trump o recebeu, mas não tirou uma foto apertando as mãos. Isso significa que Trump abandonou seus esforços para influenciar o resultado de eleições internacionais nas quais um dos candidatos representa a extrema direita? Não creio, mas está claro que — apesar de figuras como o secretário de Estado Marco Rubio e conselheiros ocasionais, como Steve Bannon, que apoiam a extrema direita no Brasil —, no momento, Trump não está rompendo publicamente com Lula.

Isso mudará? Suponho que sim, mas é muito difícil prever o comportamento errático de uma criança de sete anos que ocupa a Casa Branca.

Zoe Alexandra: Acho interessante que estejamos vendo muitos candidatos de extrema direita tentando usar sua relação com Trump para se posicionar à frente e mostrar que são interlocutores com a administração americana, que eles sabem ser extremamente instável. E Trump sabe disso.

Trump também sabe que, independentemente do que fizer agora em relação a Flávio, ele vai sacrificar completamente os interesses brasileiros em prol dos Estados Unidos, aconteça o que acontecer. Portanto, ele não precisa conquistar o apoio do brasileiro, não ganha nada fazendo isso agora. Claro que uma presidência de Bolsonaro significa que os EUA têm controle total naquela região, mas ele também sabe que não há motivo para politizar tão cedo. Ele recebeu Lula há algumas semanas e acho que avanços importantes provavelmente foram feitos.

Lula teve uma visão bastante positiva em relação à visita e, como ainda faltam vários meses para o fim do mandato do presidente, não há necessidade de criar atritos desnecessários entre os dois, o que, é claro, o apoio a Flávio Bolsonaro certamente causaria.

Para o governo dos EUA, é mais importante ter na América do Sul governos alinhados ideologicamente aos EUA ou conter o avanço chines na região? O que tem mais peso na Casa Branca hoje, pragmatismo ou ideologia?

James Green: No momento, Brasil, Colômbia, México e Uruguai são os países da América Latina com governos progressistas. Talvez a esquerda vença as eleições na Colômbia, mas a disputa está acirrada demais para se fazer um prognóstico definitivo. Trump deseja ardentemente alinhar todo o continente americano, da Groenlândia à Patagônia, à sua visão de mundo de direita.

Mas, para Trump, tudo se resume a seu ego e ao uso de seu cargo para obter bilhões de dólares para sua família. Assim, na medida em que seu envolvimento nas eleições brasileiras possa beneficiar um desses dois objetivos, ele estará a postos e pronto para agir.

Tenho certeza de que ele acredita que, se o Brasil permitir que os Estados Unidos extraiam minerais de terras raras, sua família ou aliados próximos estarão envolvidos nas transações comerciais, e milhões acabarão no bolso seu bolso por meio de bitcoins ou de outra forma de lavagem de dinheiro para os negócios de sua família.

Independentemente de suas posturas públicas, não tenho dúvida de que a CIA e o Departamento de Estado estão trabalhando clandestinamente para promover a extrema direita nas eleições. O fato de Trump não ter oferecido uma recepção mais calorosa a Flávio pode significar, simplesmente, que a campanha contra Lula e a favor de Flávio deve ser discreta. Por outro lado, Trump tende a anunciar suas intenções; portanto, é realmente difícil compreender de forma definitiva o que está acontecendo.

Zoe Alexandra: O principal objetivo deles é conter o avanço da China na região e os governos mais dispostos a fazer isso são aqueles ideologicamente alinhados com os Estados Unidos, porque, essencialmente, estão dispostos a sacrificar completamente sua soberania, seu próprio crescimento econômico e qualquer tipo de progresso ou desenvolvimento em prol dos interesses americanos.

Portanto, é preciso estar ideologicamente alinhado para concordar com a autossabotagem. No entanto, devido à pressão que os EUA conseguem exercer, com as tarifas, por exemplo, os EUA conseguem extrair concessões até de governos progressistas.

É como se, para conter o avanço da China, você tivesse que romper contratos e favorecer empresas americanas que, obviamente, não têm o menor interesse em ajudar o seu país. Esses são os tipos de governo que cooperam com Washington.

Apoiar candidatos pode ser prejudicial aos EUA, como no caso da Hungria e, antes, da Austrália e do Canadá. Por outro lado, Trump foi bem-sucedido em interferir nas eleições na Argentina e em Honduras. É possível imaginar qual será a postura da Casa Branca sobre as eleições no Brasil?

James Green: A interferência nas primárias (eleições internas) do Partido Republicano, para apoiar candidatos 100% alinhados a Trump e punir republicanos que criticaram o presidente, é, em parte, forma de causar medo dentro do Partido Republicano.

Isso difere de uma intervenção internacional, mas acredito que Trump tenha toda a intenção de realizar tal movimento, inclusive no Brasil, apesar da posição aparentemente “neutra” que ele adota no momento. Essa postura poderia mudar facilmente, a qualquer instante.

Zoe Alexandra: Trump não tem pressa em se pronunciar sobre o que está acontecendo no Brasil e acho bem provável que ele o faça, acredito que veremos interferência. Hungria, Austrália e Canadá foram um pouco diferentes, havia contradições internas que produziram esses resultados.

No caso do Brasil, os EUA já moldaram profundamente o funcionamento da democracia e das eleições no país, interferindo em casos de corrupção como a Lava Jato e hospedando Eduardo Bolsonaro. Acho que podemos afirmar com segurança que eles já intervieram no processo eleitoral, não diretamente ainda, mas de certa forma, preparando o terreno para o que está por vir.

Está claro que tipo de governo os EUA querem no Brasil e, no momento, não precisam se pronunciar muito, mas acho que é evidente a direção que pretendem seguir. E, se não precisarem se pronunciar, melhor ainda. Mas com a revelação do caso Honduras Gate, ficou muito claro que essas redes já estão operando, eles nem tentaram encobrir o que estava acontecendo. Foi tudo muito transparente. [O ex-presidente hondurenho] Juan Orlando Ortega está falando sobre essas estratégias de propaganda e acho que temos que presumir que todas elas estão sendo empregadas.

Pessoas já estão agindo, mas irá Trump dizer que quer que Flávio vença? Acho que temos que ver como os próximos meses se desenrolam. Obviamente, Flávio está lidando com um certo revés em relação à revelação de seus laços com o caso Master.

Por que importa para os EUA rotular grupos criminosos como o PCC e o Comando Vermelho como terroristas?

James Green: Lula demonstrou grande inteligência em seu encontro com Trump. Ele o cativou; fez-lhe elogios; ofereceu-se para colaborar, ao mesmo tempo em que deixou claro que defenderá a soberania do Brasil contra qualquer intervenção.

Já Flávio tem interesse em fazer com que Trump declare o PCC e o CV como organizações narcoterroristas para pressionar o Brasil a estreitar laços com os Estados Unidos, sugerindo, implicitamente e com base em informações falsas, que Lula poderia vir a ser um alvo.

Lula tem sido muito enfático na defesa da soberania nacional, mas compreende também que Trump pode estar tentando utilizar essa mesma estratégia para enfraquecer o Brasil; contudo, considero impossível imaginar um cenário semelhante ao que o governo dos EUA implementou na Venezuela. Isso não acontecerá. Além disso, a situação no Irã está retardando o plano de atacar a “esquerda” na América Latina e derrubar o governo cubano.

Zoe Alexandra: Esse é provavelmente o assunto mais importante. Trump tem usado a estratégia de rotular diferentes grupos criminosos como grupos terroristas, principalmente por razões políticas, porque isso lhe dá o direito e a possibilidade de realizar ações militares sem a aprovação do Congresso.

Quando Trump declara grupos como o Cartel de Sinaloa [México] como organizações terroristas, ele basicamente está dizendo: “Quero poder realizar ações militares sem o devido processo legal”. E foi exatamente isso que vimos acontecer no Caribe, quando mais de 150 pessoas foram mortas nesses ataques aéreos contra pequenos barcos de pesca.

Esses são os tipos de ataques que podem acontecer, já houve várias ameaças de realizar esse tipo de ataque no México. Trump tem afirmado consistentemente que quer realizar ataques com drones em território mexicano.

Isso foi em grande parte interrompido, mas recentemente houve uma acusação contra o governador de Sinaloa, Claudio Schein, e a Guarda Nacional foi enviada para impedir qualquer tipo de sequestro contra esse governador.

Além disso, a recente revelação de células não registradas da CIA no México reforça essa estratégia geral dos Estados Unidos de realizar operações militares secretas em violação das leis dos países onde ocorrem e em violação das leis americanas. Portanto, esse é o objetivo mais amplo.

Editado por: Thaís Ferraz

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