Epidemia

Fatores culturais e falhas na estrutura local dificultam controle do Ebola na África, explica médica

Pacientes no Brasil testam negativo para o vírus após suspeiras iniciais

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Profissional da saúde mede temperatura de cidadão na República Democrática do Congo, que vive surto da doença
Profissional da saúde mede temperatura de cidadão na República Democrática do Congo, que vive surto da doença | Crédito: Glody Murhabazi / AFP

As autoridades de saúde brasileiras descartaram nesta segunda-feira (01) as suspeitas de casos de Ebola no Rio de Janeiro e em São Paulo, após exames detalhados. Os pacientes, que apresentavam sintomas compatíveis com a febre hemorrágica viral, foram diagnosticados com outras condições: malária no Rio de Janeiro e meningite meningocócica em São Paulo.

No Rio de Janeiro, um viajante belga vindo de Uganda, inicialmente suspeito de ter contraído Ebola. O teste de saliva para Ebola foi negativo, e a unidade aguarda a conclusão do teste sanguíneo. O paciente testou positivo para malária, segundo informação divulgada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do Rio de Janeiro.

Após chegar ao Brasil em 22 de maio e ser internado em 29 de maio no Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (Ini/Fiocruz), o paciente segue em tratamento para malária. Pessoas que tiveram contato com ele estão sendo monitoradas. A investigação foi iniciada devido ao cenário epidemiológico internacional, mesmo com os sintomas não se enquadrando totalmente em um caso de Ebola.

Em São Paulo, um homem internado com suspeita de Ebola testou positivo para meningite meningocócica. O diagnóstico foi confirmado após a realização de um exame de sangue PCR, segundo a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. O Instituto Adolfo Lutz informou que não foi detectado material genético do vírus Ebola na amostra coletada. 

O caso paulista envolve um homem de 37 anos que viajou recentemente para a República Democrática do Congo, país que enfrenta um surto de Ebola. Ao chegar ao Brasil, ele apresentou febre intensa e foi internado no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Casos suspeitos no estado de São Paulo devem ser comunicados imediatamente à Vigilância Epidemiológica Municipal e ao Centro de Vigilância Epidemiológica.

Identificado desde 1976 na República do Congo, o Ebola está restrito à região africana já há algum tempo, como explica Sylvia Lemos Hinrichsen, professora de medicina tropical da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “A grande preocupação agora é porque existiram casos na região de Uganda, que estaria tendo alguns casos em tamanho menor. E é aí que tem que se ter vigilância, como foi feito aqui no Brasil nos dois casos que vieram com suspeita, é uma doença que pode ser confundida com as doenças hemorrágicas, que são frequentes em vários lugares do país e inclusive fora do país, em outras regiões, que seriam a leptospirose, a malária e a meningite meningocócica, que vêm com essa febre alta e sintomas de uma virose seguida por hemorragias.”

A professora também abordou a gravidade da doença e a complexidade das cepas do vírus. “A grande preocupação é que a taxa de mortalidade do Ebola varia de 21 a 90%, com a média entre 40 a 60% e ela não só é causada por um tipo de vírus de cepa. Existe a cepa do Zaire, que já tem vacina desde 2019. A cepa do Sudão, a do Bundibugyo, que agora foi identificada nesse novo surto de Uganda, e a Taï Forest ebola vírus. Não é tão simples, porque existiria a necessidade de ter vacina para esses tipos de cepa. Está se trabalhando agora com a cepa de Bundibugyo, mas isso não oferece uma resposta de imediato.”

Sobre as dificuldades de contenção da doença na África, Sylvia Lemos Hinrichsen destacou fatores científicos, culturais e de infraestrutura. “Existem os problemas culturais da própria região, onde existe toda uma forma diferente de se cuidar dos mortos e isso facilita a transmissão, existindo o vírus, porque é um vírus que tem um período de incubação de um a 21 dias, mas ele tem uma transmissibilidade muito grande pelo contato. Então, aquele funeral, aquela forma que se trata do seu ente querido, isso também facilita a transmissão”, explica. 

Deficiências da infraestrutura e problemas políticos também impactam na disseminação do vírus, segundo ela. “Esses são pontos que são importantes e também a dificuldade diagnóstica, porque hoje a gente sabe que a maioria desses diagnósticos são feitos por DNA, os PCRs, que isso facilita, é mais rápido. E aí existe também a forma cultural de não se pensar, não se buscar assistência de saúde e existe também as deficiências da própria assistência de saúde local.”

Hinrichsen também ressaltou a importância da vigilância de viajantes para evitar a disseminação e abordou os desafios contínuos na produção de vacinas. “Ainda não existem vacinas que possam estar sendo disponíveis em uma escala maior e ainda existe os grupos que podem estar difundindo por falta até mesmo cultural, de estrutura e da própria vigilância dessa nova cepa que é a do Bundibugyo, que está lá em Uganda em menor escala, em menor situação do que já existiu a própria cepa do Zaire, porque existem essas quatro cepas.”

Para ela, há um problema local, cultural, de infraestrutura, do ponto de vista de considerar a gravidade e de se fazer um “controle mais adequado e trabalhar com as dificuldades que existem na própria região.”

Editado por: Gia Matheus Almeida

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